Mostrando postagens com marcador vidinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vidinha. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

ainda aqui

não sei se em algum momento de abril pra cá eu realmente consegui retomar o hábito de ler regularmente, mas ter perdido o ritmo assim que as maratonas literárias foram ficando maiores e mais espaçadas não foi surpresa nenhuma. mesmo os livros remanescentes da asian readathon, de maio, foram ficando de lado; eu sou malala ainda me interessa, então ainda quero terminar (tá indo pra seis meses que não toco nesse livro, mas tudo bem), só que judas não vi muito sentido em continuar lendo, então preferi desistir e deixar espaço pra leituras que realmente quero fazer. durante junho, por causa do material movimentado com os protestos antirracistas, comecei a ler sister outsider: essays and speeches, de audre lorde, e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça, de reni eddo-lodge. o primeiro ainda tô lendo e o segundo só fui terminar em agosto, mas já entendi que preciso e prefiro ler essas coisas devagar mesmo, pra tomar o tempo de reflexão que isso merece e pra digerir melhor. de qualquer forma, já que sempre que tenho algo chato pra fazer eu invento "missõezinhas" que eu me sinto obrigada a terminar até não sobrar nada pra onde fugir, vim aqui deixar registrado o restante das maratonas de que participei nesse ano.

maratona literária de inverno (booktubatona)

livros da pretatona que encaixei na mli
dia 20 de junho começou a maratona literária de inverno que já comentei anteriormente, a tal booktubatona, e ela foi até dia 4 de julho. pensava que iam usar bastante o instagram, mas em vez disso foi o twitter; teve muita interação por lá, com sprints de leitura, lives e sorteios todo dia. não sei se por ter sido assim movimentadíssimo, por não me identificar com os booktubers, por estar desanimada ou por tudo isso junto, mas não fui capaz de ler quase nada nas duas semanas da maratona; li só um dos contos YA que baixei gratuitamente por causa do mês do orgulho LGBT e uma novela que já tinha baixado (pirata) por outro motivo. o conto se chama a primeira vez de natan & lino e é de henri b. neto, que é um booktuber também. vi vários defeitos, me incomodei com a escrita, não me cativei com a história; por fim admiti que esse gênero literário não é pra mim. a novela, the deep, foi o contrário, pelo menos; achei muito especial a maneira de falar sobre trauma, memória e resistência através de um povo que vive nas profundezas do oceano, descendente das mulheres africanas jogadas dos navios que traficavam escravos. bem interessante o fato de que a própria história foi construída pelo encontro de diferentes perspectivas, pela recriação a partir de outras vozes – quem escreveu foi rivers solomon, inspirade em uma música com o mesmo nome do grupo musical clipping., de daveed diggs, william hutson e jonathan snipes, que por sua vez se inspiraram num álbum da dupla de música eletrônica drexciya. mas voltando à maratona: ela tinha 27 desafios possíveis, cada um proposto por um booktuber, e the deep correspondia a dois (livro recomendado por um booktuber – acho que foi seji – e livro em outra língua). a primeira vez de natan & lino nem tinha sido planejado, mas acabou servindo pra um monte: livro LGBTQIA+ lançado nos últimos 4 anos, livro de um gênero que você não lê com frequência, livro que faz parte de uma série, livro nacional de um autor LGBTQIA+ e livro nacional de autor independente ou de editora pequena. eu tinha encaixado sister outsider e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça em alguns desafios também, pra tentar avançar na leitura, mas obviamente não rolou.

pretatona

outros livros escolhidos pra pretatona
de 23 de junho a 30 de julho teve a pretatona, criada pelo clã das pretas (instagram) nesse contexto do debate antirracista pra promover a leitura de histórias negras escritas por pessoas negras. cada semana tinha um genêro literário diferente como proposta de leitura, além da recomendação de um filme/documentário dentro da temática, e na verdade eu parti dela pra escolher the deep, que correspondia à primeira semana e coincidiu com a mli: ficção especulativa (fantasia, ficção científica e terror/horror). o tema da segunda semana era nacional (se possível, priorizando norte/nordeste), e li vozes negras, de amanda condasi, flor, priscila, isa souza, maria ferreira e pétala souza – dos 4 contos do livro, me chamaram a atenção "carimbos e memórias" (de flor, priscila) e "não existem sinônimos suficientes para futuro" (de isa souza e pétala souza). o primeiro fala sobre o sonho de escrever histórias e viajar o mundo de glória maria, que escreve um poema lindo onde noémia de sousa, carolina maria de jesus e maya angelou são referências; o segundo é uma história de ficção científica bizarramente próxima da realidade atual, onde a pandemia de um vírus e o isolamento decorrente escancaram políticas de controle e segregação. na terceira semana o tema era young adult, pro que escolhi dois garotos num navio, de slaeff, um conto curtinho onde sonho e realidade se confundem e o naufrágio do titanic representa uma perda tão grandiosa quanto. na quarta era quadrinho, e finalmente li angola janga, de marcelo d'salete, que emprestei da biblioteca no último dia de aulas presenciais, lá em março (fiquei enrolando porque não queria ficar sem, mas ler durante a pretatona foi especial – e se eu tivesse lido antes não teria um livro pra preencher essa categoria, né). grande quadrinho contando uma história de palmares, de tantas possíveis: as picadas pra pequena angola, o acordo e a queda de cucaú, a liderança de zumbi, o anguêri branco, a permanência dos quilombos... mais de uma década de pesquisa do autor, que também escreveu histórias de resistência negra no brasil colonial em cumbe, que li no começo do ano na casa de thiago. depois teve literaturas africanas, pro qual escolhi hibisco roxo, de chimamanda ngozi adichie, que me surpreendeu demais, me tocou demais. muito forte, sensível e de uma escrita maravilhosa, e ainda por cima leitores brasileiros podem se identificar com os temas de colonialismo e cristianismo... tudo isso com o pano de fundo de um golpe militar, também. tinha um desafio extra, que podia ser não-ficção ou infantil – achei mais fácil preencher não-ficção e li pequeno manual antirracista, de djamila ribeiro, que é conciso mas muito completo, tratando dos diferentes âmbitos atravessados pelo racismo e dando orientações de como tomar atitudes antirracistas diantes deles. um grande material de consulta, também, cheio de referências a escritores negros e trabalhos importantes, sendo leitura fundamental pra introduzir essas discussões. gostei bastante de participar, e ainda tenho vontade de ver os filmes e documentários recomendados pra cada tema – branco sai, preto fica; café com canela; o ódio que você semeia; homem-aranha no aranhaverso (esse já vi!); rafiki (lembro de descobrir esse quando procurava filmes lésbicos produzidos fora do eixo eua-europa pra passar na escola de inglês onde eu trabalhei; assisti em agosto, achei muito doce e, ao mesmo tempo, muito triste); a 13ª emenda (já vi também, pesadíssimo); e cada um na sua casa. muitas indicações pra consulta, também.

intersecção de pretatona e reading rush, agora
the reading rush

a edição de 2020 da reading rush foi de 20 a 26 de julho, e de novo aproveitei o que já tava escolhido pra pretatona: coloquei pequeno manual antirracista e hibisco roxo nos desafios um livro de um gênero que te dá medo ou do gênero que você menos lê e um livro que se passa num continente diferente do seu, respectivamente (leio pouco não-ficção e hibisco roxo se passa na nigéria). os outros eram um livro cuja capa combine com a cor da pedra do seu signo, um livro que comece com "o"/"a" ("the"), um livro que inspirou um filme que você viu, o primeiro livro que você tocar e ler um livro completamente "não em casa". tentei combinar o máximo que eu pude, então usei the ones who walk away from omelas, de ursula k. le guin, pra três (foi o papelzinho que eu peguei num sorteio entre três livros que começavam com "the", e por ser um conto pude ler ele inteiro estando no quintal); o livro consegue ser super impactante em poucas páginas, daquelas histórias que vão muito além da experiência de leitura e que reverberam nos pensamentos por muito tempo. pros outros desafios dois não teve jeito: coloquei por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (de novo) nesse da pedra do signo, porque a pedra de abril é diamante e esse livro tem uma capa branca/limpa, e howl's moving castle, de diana wynne jones no da adaptação pra filme, porque era a única coisa que eu tinha comigo e se encaixava. mas no fim não consegui ler nenhum deles e tudo bem, acho que não tem como forçar certas coisas só por causa de uma "maratona", né. vi umas postagens questionando esse ritmo de leitura acelerado, que é mais um desdobramento do sistema em que a gente vive, e acho massa repensar isso também. tô lendo howl's moving castle agora, na verdade, e tô sentindo uma sensação tão gostosinha, de um jeito que nunca mais tive com livro nenhum, que tô até indo devagar de propósito.

esforço mínimo em desafios? temos
o que a reading rush tem são desafios fotográficos, e dos sete participei de três: recriar a capa de um livro, fazer cosplay de um personagem literário e tirar foto da minha leitura atual com um animal de estimação. pro primeiro achei esse livro de joão ubaldo que tem uma capa muito parecida com as paredes externas daqui de casa: tijolinhos e concreto rachado. não foi bem uma criação, né, só aproveitei o que já tinha, mas ok. pro segundo mirei baixo, porque não tinha como ser muito elaborado: me vesti de u-235, personagem de ing lee em cápsula, que li lá na reading rush de abril (usar essas roupas é bem comum pra mim). no último dia da maratona deu umas tretas de ariel e raeleen não terem feito a leitura pro clube do livro e terem mudado a discussão sobre ele pra um q&a aleatório, sendo que o livro era exatamente sobre performative allyship, além de terem deixado o desafio de ler fora de casa sendo que o mundo tá no meio de uma pandemia... uma bosta, realmente, e espero ações melhores delas pra realmente mudar, não só prometer. mas o que ia falar é que no meio disso tudo vi gente falando sobre pessoas brancas terem representado/vencido o desafio de cosplay se vestindo de personagens de cor, o que é claramente problemático, e fiquei pensando se foi errado eu me vestir de uma personagem asiático-brasileira. não mostrei minha cara e não ganhei nada, pelo menos, nem nunca tive a pretensão de receber atenção (apesar de ing lee ter visto, comentado e compartilhado feliz). foda, né. pro último desafio tirei foto de elvira (não tenho pet, mas compartilhamos a casa) dormindo na cadeira, junto com pequeno manual antirracista, e fim. os outros desafios eram menos interessantes pra mim, tipo fotografar uma pilha de livros ou meu "combustível de leitura" (comidas ou bebidas). mas foi legal ver a participação dos outros.



depois de julho só teve mais uma maratona legal: a fortnight frights, durante as duas últimas semanas (por isso fortnight) de outubro, organizada por seji do the artisan geek. a proposta era ler horror e gêneros relacionados, em preparação pro halloween, mas de forma mais diversificada e inclusiva. tinha um bingo com 16 desafios, dos quais você podia combinar 2 em uma leitura só ou então tentar completar tudo, e ao longo da maratona teve discussões de alguns livros selecionados e sessões de cinema. eu até baixei dois dos livros que teriam discussões, the year of the witching, de alexis henderson (escrito por um/a autor/a negro/a) e the only good indians, de stephen graham jones (escrito por um/a autor/a indígena), mas só li um pouquinho do primeiro e não consegui acompanhar nada. a própria seji teve dificuldades de cumprir as propostas que tinha, porque uma amiga dela faleceu :( mas gosto tanto do conteúdo dela, vou ficar atenta às próximas coisas que ela faz.

acho que tá bom de maratona pra quem nunca mais tinha participado de nada, né. não sei de mais nenhuma e também não tô em condições de arrumar mais coisas pra cabeça a essa altura do campeonato, com inúmeros trabalhos atrasados e seis disciplinas pra equilibrar. percebo que maratonas com temas mais bem definidos (como a maratona de literatura asiática, a pretatona e a fortnight frights) fazem mais sentido pra mim, e felizmente divido a casa com gente que tem livros o suficiente pra compor várias listas de leitura, além de que agora tenho a praticidade de um leitor digital onde posso colocar meus ebooks piratas. sempre que penso em comprar livros (alô festa do livro da usp) percebo que não faz sentido, tendo tantos à disposição e podendo emprestar das inúmeras bibliotecas aqui do meu lado, na universidade onde estudo (ainda não fui ver isso, mas sei que dá pra marcar horário por email pra devolver/pegar livros, agora). teve um momento, nesses meses, que me veio uma vontade grande de ir naqueles sebos caóticos com preços bem baixos... pena que não vai rolar tão cedo, né. mas enfim, coisa de pandemia, e nem tenho do que reclamar. seguimos.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

o isolamento e as maratonas

fazia tempo que eu não me informava sobre maratonas de leitura ou participava de alguma. mas também fazia tempo que eu não lia direito, sentindo prazer e vontade de voltar pro livro em vez de perder tempo com qualquer outra coisa. o ápice foi levar três livros pra bahia e voltar pra casa com nem sequer um avanço em algum deles. isso em dois meses de viagem. o som e a fúria mesmo eu só terminei no finzinho de abril, e olhando o skoob descobri que tinha começado em outubro. tava feia a coisa.

e então veio o vírus, a suspensão de atividades da universidade, a quarentena com as meninas, o isolamento social. fiquei muito mal no começo, talvez pela coincidência de problemas na cabeça além de toda a tensão do que tava acontecendo. agora a ansiedade já é esperada, mas claro que isso não significa estar acostumada; as coisas tão piores, na verdade, né. nunca mais tive controle da minha rotina, porque cada dia é uma coisa, que nem uma montanha-russa. e acabou que esses projetos de leitura foram servindo pra dar um mínimo de propósito e motivação pra fazer algo diferente.

teve uma em abril e outra em maio, e até criei um perfil no instagram pra poder participar mais ativamente. dois amigos me acharam lá e me seguiram, o que me deixou nervosa, porque a intenção era ficar o mais anônima possível e postar só o necessário. apesar de sempre ter gostado de ler e acompanhado alguns canais literários no youtube, não tenho vontade de produzir esse tipo de coisa, principalmente porque sei que minha existência online não seria nada novo ou importante pra comunidade. não faltam referências do que posso representar, no sentido mulher branca, do sudeste, classe média. minha visão não contribui pra nenhuma discussão; pelo contrário, uma das coisas que eu quero desenvolver lendo mais é justamente ser capaz de resumir melhor o que consumo, relacionar diferentes obras e construir críticas mais elaboradas. então nem vejo muito sentido em ter um perfil no instagram, mas por enquanto tô usando só pra maratonas literárias e desafios de leitura. essas foram as maratonas de que participei até agora:

stay home reading rush

cheguei a mencionar a booktube-a-thon da última vez que participei de uma maratona literária, que conheci por acompanhar ariel bissett, dizendo que antes tinha tido a intenção de participar dela mas tinha desistido por causa dos muitos desafios e exageros. em algum momento a booktube-a-thon virou the reading rush, e em abril fizeram essa edição especial por conta do isolamento social. eram só 4 dias, de 16 a 19 de abril, e foram 4 propostas: ler um livro com uma casa na capa, ler um livro que se passa num lugar que eu gostaria de visitar, ler um livro que vai me fazer sorrir e ler um livro no mesmo cômodo o tempo todo. não interpretei essa última como um 4º livro a ser escolhido, mas acabei juntando 4 de qualquer forma: o vilarejo (de raphael montes) por ter uma casa sombria na capa, todas as cores do céu (de amita trasi) porque aparentemente tem uma parte que se passa na índia, cápsula (hq de um monte de artistas que eu gosto) justamente por ser de artistas brasileiros que eu acompanho e los once (de miguel jiménez, josé luis jiménez & andrés cruz) como um extra, mas que acabei lendo inteiro e de uma vez ali na frente de casa.
acabei comprando um kindle nesse período, principalmente pra ler em inglês. mas só baixo livro gratuito ou pirata

mais tarde substituí todas as cores do céu por bloodchild (de octavia e. butler), pensando em usar o primeiro numa maratona que viria em seguida, e acabou que nem isso fiz. mas foi mais sensato trocar um livro de mais de 300 páginas por um conto, também, já que eu com certeza não ia ser capaz de terminar tudo isso nos dias da maratona.


a primeira coisa que li foi o vilarejo, que é uma coleção de contos que se passam nessa tal vila em algum lugar da europa (não é explícito, mas tem horas que falam sobre "ir para as américas" e os personagens têm nomes do tipo helga, ivan, mikhail etc). cada um dos 7 contos corresponde a um dos reis demônios do inferno, um pra cada pecado capital. dá pra ler em qualquer ordem mas tudo se encaixa de alguma forma, com os mesmos personagens e eventos em comum. o autor alega ser só o tradutor de uns cadernos escritos por uma senhora que morreu numa língua que não existe mais, e faz o prólogo e o posfácio serem parte da história, o que achei interessante, diferente. foi uma leitura sangrenta bacana, mas o estilo de escrita me dá a sensação de que qualquer pessoa poderia ter feito os contos, seguindo essa proposta de pecados capitais e um só cenário. se a escrita fosse mais cativante eu teria gostado mais.

em seguida li bloodchild, porque pouco antes tinha lido e gostado bastante de outro conto de octavia butler e, já que esse era gratuito pra baixar no kindle, aproveitei a oportunidade de ler mais dela. a história acontece em outro planeta, então achei engraçado usar pra preencher a categoria de "livro que se passa num lugar que eu gostaria de visitar", mas se eu soubesse os detalhes da vida dos terrans entre os tlic eu teria pensado duas vezes, hein. é um conto curto, então prefiro ir direto pra recomendação em vez de tentar resenhar, mas posso dizer que achei massa demais como a autora tirou inspiração das larvas parasitas de uma mosca da amazônia pra criar uma história de "gravidez masculina", escolhas, retribuição... gosto de como ela fala sobre o processo da escrita depois dos contos. um dos gêneros literários que quero começar a ler mais é ficção científica, e com certeza octavia butler é uma autora cuja produção me chama a atenção. quero ler mais mulheres e autoras negras, também, e de novo o nome dela é um dos grandes nessa.

depois li cápsula, que é uma antologia de histórias inspiradas por akira, de katsuhiro otomo. todos os autores são artistas e ilustradores brasileiros, alguns meus favoritos (puiupo, ing lee, amanda miranda, monge han, mas também tais koshino, d0rts, marco sem s, grazi fonseca e fernanda garcia). cada história assume um formato; algumas são prolongamentos do mangá, outras trazem pensamentos sobre tragédias e medos, e de alguma forma todas têm reflexões sobre identidade, o estado do mundo e a distopia pra onde parecemos estar caminhando. essa atmosfera cyberpunk, apocalíptica. arte e composições muito boas, criativas, inspiradoras. comprei com aquele pensamento de apoiar artistas independentes, aproveitando a promoção do quadrinho com o calendário feito pelo selo editorial da ing lee.

por último li los once, que é sobre os dois dias de cerco do palácio da justiça da colômbia, em bogotá, em novembro de 1985, quando guerrilheiros o ocuparam e foram atacados por forças militares. a história é contada pela perspectiva de uma mãe/avó que cuida da neta e espera o retorno do filho, que trabalha no palácio. parece que os fatos nunca foram esclarecidos e que existem várias versões, mas os "onze" do título fazem referência a essas pessoas que desapareceram no incidente e eram trabalhadores da cafeteria ou visitantes. bem construída a estrutura intercalando cenas da avó e dos onze, e muito forte a representação dos personagens como animais (os militares eram bestas que pareciam javalis, os onze desaparecidos são ratos e os guerrilheiros que os prestam ajuda são pombas).


além das propostas de leitura, cada dia tinha um desafio pro instagram, e no final da maratona haveria 4 vencedores que receberiam uma caixa desses clubes de assinatura de livros da vida. o primeiro era uma fotografia do meu lugar favorito pra ler, que por um tempo pareceu ser um dos lugares favoritos de velma também: a poltrona verde-sujo-praticamente-preta que fazia parte da edícula e agora fica na sala. gosto de ficar nela, em frente à janela e perto dos livros compartilhados (que na verdade são só meus ou de talita), onde é bem iluminado e fresco e nunca fica desconfortável. já era pra essa poltrona ter sido doada porque ninguém gosta (e velma mijou nela), mas fico feliz que ainda esteja em casa. e agora elvira usa ela bastante também, então somos três na defesa.

foto atual ilustrativa de como geralmente fico na poltrona (e onde elvira gosta de se enfiar)

o segundo desafio era fotografar meu marca-páginas favorito, mas pulei esse porque não ligo pra isso nem uso direito. o terceiro era uma foto da minha estante de livros, e como raramente vou pra casa dos meus pais (e nunca mais fui, por causa das atuais circunstâncias), tirei foto dos livros que ficam no meu quarto aqui em casa. minha estante são caixotes de madeira achados na rua e lixados, e tenho muito menos coisas nela do que na minha estante original, mas gosto assim. materiais de desenho e papelaria na caixa verde em cima do caixote, leituras em andamento embaixo da luminária, o som e a fúria sendo meu mousepad na mesa... também tenho livros na sala, aqueles supostamente compartilhados, mas juntando tudo deve dar só dois caixotes, e a maior parte ainda não li. já faz vários anos que não vejo mais sentido em comprar nada, então acho que vai continuar assim por um bom tempo.


o último desafio era fotografar um livro ao ar livre, e acabei combinando isso e o lugar onde estive durante a leitura de los once. na verdade comecei a ler de tarde e foi ficando escuro demais pra continuar nessa cadeira desconjuntada, então fiquei de pé perto da lâmpada, me mexendo pra não levar mordida de inseto. no geral gostei das minhas fotos, principalmente dessas duas últimas, e queria ter visto menos fotos padrãozinho de bookstagram nas hashtags de cada dia. as fotos vencedoras foram boas, mas vi melhores, também. de qualquer forma, esses desafios foram o que mais me animou a ver outros perfis e conhecer outras pessoas participando, o que foi massa.


apesar de eu ter lido 4 livros, nem foi tanto assim (deu 357 páginas no total), mas proporcionalmente é bem mais do que tenho lido nos últimos meses. ter uma carga de leitura extensa na faculdade acaba diminuindo minha vontade de ler no tempo livre, e estar em casa o tempo todo afetou demais minha concentração e motivação pra qualquer coisa, como eu sei que muita gente tá se sentindo igual. foi bom ter participado de uma maratona grande e conhecida pra sentir que não tô sozinha e pra me divertir com a sensação de estar num jogo, com os desafios e tal. a versão oficial da reading rush é em julho, então quem sabe eu emende tudo isso também.

asian readathon

recentemente comecei a acompanhar uma youtuber chamada cindy pham, e através dela soube da asian readathon, uma maratona em celebração ao mês do patrimônio asiático-americano e das ilhas do pacífico (maio). cindy tem descendência vietnamita e esse ano é a segunda vez que ela promove essa maratona, cuja proposta é justamente ler autores asiáticos ou de herança asiática durante o mês. junto com outros produtores de conteúdo e colaboradores voluntários ela montou um compilado muito massa de indicações de livros e autores, que dá pra usar em qualquer ocasião, não só nesse projeto. fui levantando as origens dos autores que temos aqui em casa e com carolzinha tinha índia, israel, paquistão... e de graça pro kindle achei china e turquia, também. mas os desafios eram 4: ler qualquer livro de um/a autor(a) asiático(a), ler um livro com um personagem asiático ou de um(a) autor(a) asiático(a) com quem posso me identificar, ler um livro com um personagem asiático ou de um(a) autor(a) asiático(a) que é diferente de mim e ler um livro recomendado por um(a) asiático(a). sempre é permitido combinar categorias em um livro só, mas a ideia era ler autores de nacionalidades diferentes pra cada livro. no começo eu tinha reunido, respectivamente pra cada uma, judas (de amós oz, israelense), babyji (de abha dawesar, indiana), eu sou malala (de malala yousafzai, paquistanesa) e o mangá otouto no otto ("o marido do meu irmão", de gengoroh tagame, japonês), mas acabei não seguindo isso. também teve a leitura conjunta de little fires everywhere (de celeste ng, sino-americana), seguida por uma watchalong da adaptação pra série de TV, ambas acompanhadas por discussões online em lives no youtube, e fiz a mesma coisa de participar sem ter planejado.
o mangá eu li online, tem 2 ou 3 volumes e 28 capítulos, só.
comecei lendo babyji, porque dia 10 ia ter uma discussão online promovida pelo clube lesbos curitiba, já que a história gira em torno de relacionamentos entre mulheres. lá atrás comentei que tirei todas as cores do céu da stay home reading rush com a intenção de deixar esse livro pro mês de maio, que teria a asian readathon e seria mais tempo pra ler, mas acabou que troquei ele de novo pra não repetir nacionalidades. o clube lesbos tinha disponibilizado babyji pra baixar de graça também, então pareceu uma boa oportunidade, mas no fim foi uma grande decepção. a protagonista, anamika, é uma estudante de 16 anos que arruma um caso com uma mulher quase 3x mais velha, outro com a criada também mais velha que ela e mais outro com uma colega de escola. zero simpatia por anamika, que apesar de ser adolescente é extremamente pretensiosa e arrogante, e zero desenvolvimento de qualquer personagem ou do enredo. não dava nem pra criar algum interesse em alguém porque nenhuma personalidade era explorada a fundo, nenhum conflito gerou grandes problemas, nada pareceu realista e por isso não dava pra levar as coisas a sério. anamika força a criada a fazer sexo e estupra a colega, ainda por cima, e em nenhum momento isso é discutido pra além de "só acelerei uma coisa que ela queria fazer" ou "eu reagi exageradamente". simplesmente sem sentido e potencialmente prejudicial, na minha opinião, e fiquei indignada que só mais uma mulher além de mim desgostou do livro no encontro do clube, que tinha umas 17 pessoas. tem sim algumas questões que dá pra trabalhar, como a visão sobre as "contradições da índia", a protagonista perpetuando comportamentos merda ao se relacionar com mulheres porque é isso que tem como referência, ou então se identificando com figuras masculinas já que não se vê no que é "ser mulher" na sociedade em que vive. ainda assim sinto que tudo poderia ter sido abordado de maneira mais complexa e completa, além de que o único suposto crescimento de anamika foi em benefício próprio (e ela ainda acaba o livro fazendo uma menção muito questionável a meritocracia, véi).

depois dessa raiva encontrei little fires everywhere em formato pra kindle no piratebay e, lendo despretensiosamente, me surpreendi com a escrita e acabei indo até o fim. foi um bálsamo pra leitura anterior; a história é instigante, as reviravoltas são inesperadas, os personagens têm muitas facetas, a escrita é maravilhosa. tudo se passa em shaker heights, um lugar guiado pela ordem e pelo planejamento, representados fortemente pela família richardson, mas que começa a sofrer pequenas faíscas de mudança que questionam essa imagem de perfeição quando mia warren se muda pra lá com a filha pearl. críticas ótimas aos brancos ricos agindo como bons samaritanos e salvadores mas reproduzindo os mesmos preconceitos e erros de sempre, e a esses ideais ilusórios de segurança que guiam muitas pessoas e oprimem tantas outras. gostei de como tudo e todos têm muitos lados, de como nada é simplesmente uma coisa ou outra, o que faz a gente ser obrigado a aceitar a incerteza e o relativismo característicos de quase tudo no mundo. na live pra discutir o livro comentaram sobre alguns personagens terem ficado um pouco de lado conforme as coisas se desenrolavam, e é verdade, apesar de tudo. o núcleo antagonista foi representado na série por mulheres negras, apesar do livro não deixar claro nada sobre sua cor, então houve uma atenção em especial à questão do racismo na adaptação, que foi bastante pertinente e incisiva. além disso e do final diferente, não teve muita coisa de que eu gostei na série; senti que a personagem de mia perdeu o ar de mistério e sabedoria que ela tem no livro e que a rivalidade entre ela e elena ofuscou os outros conflitos. mas pra quem não leu deve ser mais interessante.


por último li otouto no otto, apesar de ter começado eu sou malala antes (acabei o mês tendo lido pouco mais de 30% do livro). yaichi vive no japão com sua filhinha kana e eles são surpreendidos pela visita de mike, canadense que foi casado com o irmão gêmeo falecido dele, ryouji. ao longo das três semanas que mike passa em sua casa, yaichi vai repensando e lidando com seus próprios preconceitos, e passa a entender melhor e fazer as pazes com essa parte da vida do irmão de que não fez parte. achei massa mostrar essa transformação em yaichi, que acaba vendo na própria vida aspectos igualmente não-convencionais (pai solo, divorciado) que também não merecem ser invalidados ou discriminados; uma boa abordagem, de uma perspectiva diferente. achei desnecessário e repetitivo as conversas sobre refeição e o próprio foco que a comida recebe, só, e não tava esperando a menção às bandeiras lgbt pra furries e bdsm, mas legal. descobri que fizeram uma adaptação em live-action com 3 episódios, e os atores são bem iguais aos personagens. deve ser bacana.

comecei judas outro dia também mas não li muito, então encerrei a maratona tendo lido só isso, mesmo. mas foi bom pra eu ver que não faz sentido querer ler tanto se meu normal tem sido muito menos, né. o booktube e o bookstagram forçam muito a barra na quantidade, quando o que deveria ser priorizado é a qualidade, e tô enxergando isso. hábito se cria mirando baixo pra aumentar os objetivos bem devagar, conforme a gente se acostuma e seguindo o que funciona pra cada um, afinal. também sei que não consigo seguir planejamentos de leitura, e tudo bem, qualquer avanço ainda é um avanço. tô aprendendo a respeitar meu ritmo e olhar pro que realmente importa nesses tempos.

foi massa participar de uma maratona com um tema específico e ver as conversas em torno do assunto, que foram muito além de onde vi começar. tudo o que vi de lá fora valeu pra me fazer pensar na produção literária de autores brasileiros de descendência asiática, também, que acho que não conheço nada. e apesar de não ter conseguido ler os 4 livros que designei pra cada desafio, o que eu li conseguiu preencher tudo: babyji como o livro com um personagem asiático diferente de mim (anamika é estudante do ensino médio e eu tô na faculdade), little fires everywhere como o livro qualquer de uma autora asiática, além de ter sido a leitura conjunta proposta, e otouto no otto como o livro com um personagem com quem posso me identificar (tanto mike quanto eu somos lgbt) e como recomendação de uma pessoa asiática (no caso, de @simoneandherbooks). e ainda fiquei com muitas outras recomendações de pessoas do mundo todo, então valeu muito a pena.

esquema de livros de autoras asiáticas elaborado pelo club de té, uma organização feminista chilena que achei no instagram

de junho a julho vai ter uma maratona brasileira, dessa vez, que coincide de ser a última maratona de que eu tinha participado antes dessas duas recentes: a maratona literária de inverno do canal geek freak (do victor almeida, que antes era do olhos de ressaca). aparentemente a mli desse ano vai ser uma versão 2.0 de uma tal booktubatona, que não sei quando teve a primeira edição mas com certeza esse nome foi inspirado na booktube-a-thon gringa. relendo a postagem de 2017 sobre a edição que eu participei vi que na época usaram o aplicativo amino pra reunir os participantes e promover interações, mas acredito que não vá acontecer o mesmo agora. tudo tá girando muito em torno do instagram, né, e não sei se isso é bom ou ruim. aquele sentimento incômodo de ver "facebook" escrito abaixo do nome do aplicativo quando abro ele no celular. acho que tô deixando minha participação registrada aqui porque sei que posso desistir de ter um perfil lá a qualquer momento, afinal. já sinto que tô perdendo o ritmo de leitura e o interesse em continuar, mas sei que montar listas e planejamentos me anima, então pelo menos isso devo fazer.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

N0v0 An0

mais de dois anos depois e com atualizações no layout do blogger que não me agradam eu volto aqui pra escrever de novo pra mim mesma. esse sentimento que conheço há muito tempo, contrastes entre querer ter com quem dividir essas coisas que eu já fiz e ao mesmo tempo ter um medo terrível de ser enxergada demais. se for pra escolher prefiro ficar sozinha e quieta, porque no fundo eu sei que escrevo pra eu ler quando já tiver esquecido o que escrevi, pra eu voltar de tempos em tempos e olhar pra dentro com mais carinho. então é a partir daí que retorno.

ia dizer que não lembro porque fui reler uma postagem (que foi o que me levou a revisitar metade de tudo o que já coloquei aqui), mas acho que é bem óbvio o motivo. nesses dias de isolamento me voltei pra maratonas de leitura na tentativa de me animar, e me peguei querendo clicar na setinha que muda de blog sempre que vinha aqui escrever as reviews que mantenho desde quando refleti sobre minha própria memória. então fiz isso, fui ver as maratonas de que participei há anos atrás. fui sentir agonia com o jeito que eu escrevia na primeira, fui sorrir percebendo a considerável melhora na segunda. e, do mesmo jeito que tô fazendo aqui, cheguei em inúmeras outras postagens por causa dos links referenciando umas às outras. e fui aumentando as abas abertas, aumentando a carga de memórias afetivas do passado que iam surgindo. agora mesmo tô ouvindo simonami enquanto tento organizar todas as conexões com o meu presente que consegui perceber.

fico feliz por não ter apagado todas essas coisas. acho que não importa o quanto eu ache mais bonito ou poético guardar um monte de cadernetas, objetos ou qualquer coisa física e palpável como recordações desses eus passados, o que eu tenho de mais transparente é esse blog, essa plataforma digital e online. todas essas postagens são a compensação pelos diários desorganizados, pela falta de histórias e experiências juvenis que na real só são idealizações de como eu deveria ter vivido. meu primeiro reflexo é me achar desinteressante por não ter esse tipo de coisa ou desgostar de mim por não ter feito "nada", mas agora eu vejo que não preciso disso pra conseguir ver como eu era, ver meu crescimento. o que eu tenho aqui é igualmente válido, igualmente importante. e acho que é até melhor eu ter ficado sempre sozinha aqui, porque fui mais verdadeira do que talvez teria sido se tivesse uma audiência pesando sobre tudo o que eu fazia. acho que enquanto eu não fizer as pazes comigo mesma por ter preferido usar (e por continuar usando) o digital em vez do analógico eu não vou me reconhecer como alguém que tem uma história, um percurso como pessoa, acessível da mesma forma, só não do jeitinho que minha cabeça insiste em considerar mais legal. ufff. cria da internet, né.

e sempre, sempre que vejo isso aqui sinto um medo de que algo aconteça e eu perca tudo, de que algum acidente na nuvem que armazena a infinitude do que tá online apague do mundo toda essa minha existência. e se resolveria em parte se eu imprimisse cada postagem, mas tem os links, as músicas, os vídeos, toda esse monte de coisas dependentes de aparelhos eletrônicos que também iriam embora se a tecnologia desaparecesse, se a energia elétrica acabasse, sei lá. pensamento trágico e mórbido. acho que preciso começar a reunir tudo e imprimir quando puder, salvar de alguma forma o que é possível trazer pro sólido. só pra diminuir essa ansiedade, me sentir mais segura, ter um backup de mim mesma. a analogicação analogização analogicalização do histórico digital de st.

mas já me desviei um monte. o propósito era verbalizar as linhas que fui vendo entre o antes e o agora. a primeira eram as maratonas, o mais óbvio mesmo, com o mesmo objetivo de encontrar motivação pra amenizar a sensação onipresente de que eu devia ler mais, de que eu devia movimentar os livros que tenho. [obrigada deus pela função de salvar com frequência o que eu digito aqui, porque acabei de fechar a aba sem querer e já levei a mão à boca enquanto pedia por favor que não tenha sumido tudo o que escrevi.] depois vieram as fotos do caminho pro colégio, sempre no mesmo ponto do vale onde a van parava pra uma aluna entrar, e ali já vinham os escritos mais íntimos, tristes, a apatia e a falta de disposição. de novo e de novo, tudo se move mesmo em ciclos que se repetem. e de alguma forma o caminho é sempre se voltar pra dentro, porque se não resolver as inquietudes do presente pelo menos mexe as questões do passado e apazigua o que ficou bagunçado. acho que é um entendimento muito pessoal, que talvez eu não tenha mesmo as palavras pra explicar, mas que sei que sou capaz de sentir comigo mesma. e as citações reencontradas retratam isso: As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou.

e esse título de blog que, de todas as coisas, é uma das que não tenho vergonha em ter escolhido usar. Os dias do homem bom são também comparáveis aos seus livros, O valor é cada vez maior, embora mais escassos se tornem. quem sabe, né, assim a gente deseja. [continuo reescrevendo as palavras com sinônimos.] tem horas que só dói tudo e qualquer coisa, mas quando me lembro do que já foi sei que tô no melhor lugar que já estive. e de novo citando o que já citei antes, Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa. não quero tomar os outros como referência de tudo, porque eu sou eu e essa coisa toda. a força dos despejos, poxa. eu lembro de ser pequena e não entender como era possível viver uma vida e assistir a toda ela dentro do tempo da própria vida. ainda não sabia da velocidade regulável, de 2x pra cima, como carolzinha prefere. ou dos focos de lembrança, do que faz parte da construção. este é um deles. e ok, reconheço e retomo. obrigada.

sábado, 13 de maio de 2017

despejos

relatos pessoais: eu tenho me sentido diferente já faz algum tempo. (engraçado que tomei consciência disso logo após completar 18. seria a vida adulta?) parei de esquentar a cabeça por não alcançar coisas que eu acho que quero e por não ser quem eu acho que eu gostaria de ser. eu olho pras coisas e reviro os olhos, não tenho vontade de saber, etc, etc. tenho pensado que a internet não tem muito sentido na maior parte do tempo; pelo menos pra mim não tá mais funcionando. tô me isolando de novo, mas dessa vez não tô detestando minha companhia o tempo todo nem sentindo falta de gente.

trecho de Spirits of the dead, de Edgar Allan Poe

penso em apagar várias coisas minhas, mas às vezes me falta coragem ou tenho dó. sei que existe uma grande chance de que eu mude de ideia daqui a algum tempo e queira tudo de volta, mas acho que seria bom me afastar um pouco, considerando que nunca fiz isso e que as circunstâncias estão como estão. (talita tá me inspirando nessa.) já separei outro espaço pra registrar coisas que não quero perder com a memória que possuo e não sei exatamente pra que usar este blog, mas, de qualquer forma, vou deixar aqui textos que estavam no tumblr (que deletei) e que não ligo muito de ter expostos.

talvez eu seja as gotas [uma conversa antiga]

— Fique olhando pras gotas por bastante tempo… Não dá uma agonia? Agonia legal. 
— Nossa, dá. Pra mim é uma agonia que dá vontade de chorar. Talvez eu seja chorona mesmo. 
— Pra mim dá vontade de limpar o vidro logo para elas pararem de ser gotas, mas ao mesmo tempo não dá porque elas são gotas muito bonitas. 
— Pra mim é como se elas precisassem se mexer, assim como todas as gotas fazem, mas elas não querem e não o fazem. 
— Por que elas não querem? Mas verdade, dá agonia de vê-las paradas enquanto podiam estar fazendo algo melhor, algo que gotas fazem. 
— Não sei. Talvez elas não consigam. Talvez tenham medo. 
— Nossa, poxa… Mas gotas fazem isso, não tem do que ter medo. Se elas não querem e têm medo é por algum motivo. 
— Ah, sei lá. Talvez elas estejam confortáveis ali paradas e queiram continuar assim pois mudar as assusta. 
— Hm, entendo… Que pena pra elas. Mas ainda acho que tem alguma coisa que as deixam assustadas. Elas não sabem o que estão perdendo deixando de fazer o que gotas fazem.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015 [uma crônica secundarista]

levantei cansada e suada. parecia até que eu tinha dado a volta no quarteirão ao invés de ter dormido. estranhamente o despertador não fez barulho algum, só ficou ali piscando, de novo. mas acordei com isso. cinco minutos de cochilo extra que não serviram pra muita coisa e eu estava indo ao banheiro lavar meu rosto, pescoço e pulsos. (uma vez, quando não estava me sentindo bem, uma professora disse pra eu fazer isso. não sei se faz alguma diferença esfriar os pulsos com água, mas virou costume.) tirei a roupa com a qual tinha dormido, coloquei uma calça jeans e lembrei o quão agoniante foi aquela tarde de sol, três dias atrás, vestindo-a. peguei outra e coloquei qualquer camiseta de uniforme. ainda suava. apesar de eu não ter desligado o wi-fi na noite passada, minhas mensagens não carregavam; estranhei. não deu tempo de terminar de comer o pão que minha mãe deixara pronto pra mim, de novo. enrolei em papel toalha e corri lá pra fora; o motorista da van já tinha buzinado duas vezes. errei a chave do portão e saí xingando. “a luz não acendeu, já tava quase indo embora”, ele disse, ao meu bom dia. não respondi. tentei comer o resto do pão na van mas fiz sujeira, então guardei na bolsa. com o calor não pensei em pegar casaco, mas senti um arrepio incômodo. ignorei, coloquei os fones. não fiquei com eles por muito tempo, algo parecia errado. tentei ler, não pude me concentrar. fiquei decepcionada por ter pego peso extra pra carregar. ao chegar na escola percebi que vestira o uniforme curto que me desagrada, ainda mais quando junto àquela calça de cintura baixa, e não tinha nada pra cobrir, já que não tinha pego agasalho. fui ao banheiro e lembrei que tinha começado a sangrar antes de dormir. tentei me preparar psicologicamente pra sofrer com as cólicas que, por não terem interrompido meu sono, provavelmente me acometeriam logo. desaprovei meu reflexo no espelho e voltei ao meu lugar de praxe. parecia estar tudo bem, estava finalmente contigo depois de quatro longos dias, mas eu ficava tendo picos de suor e calafrios. subimos à sala pra deixar as mochilas e me senti mal, te abracei e não soltei logo e você estranhou porque tínhamos que ir logo à sala de vídeo. “tá tudo bem?” respondi que não. “não?” fiquei ali escondida em você por um instante antes de voltar a ignorar o mal-estar. você ficou vigilante, solícito. melhorei logo. como poderia me sentir ruim tendo seu olhar ao alcance do meu? (eu te amo.) mais tarde vieram as hóspedes violentas. descrevi pra você a dor nas coxas que sempre acompanha minhas cólicas: como se estivessem tentando arrancar a carne do meu fêmur com uma espátula. fica até pior que a dor no útero; elas competem pra ver qual me derruba primeiro. você me fez massagem, ficou ali ao meu lado, paciente. quase vomitei de dor. (mesmo assim me ofereceu seus beijos.) sentamos juntos pra fazer o exercício de física e ao acabar a aula você pensou que estávamos adiantados, mas já passava do horário de saída. você foi embora correndo depois de me abraçar e eu fui buscar remédio com a minha mãe. minha cabeça também doía um pouco, aliás, mas não o bastante pra chamar minha atenção quando eu já tinha as outras dores. acho que a tarde prosseguiu normalmente. agora, enquanto escrevo, sinto como se tivesse insetos me mordendo. já não vejo por aqui aquelas formigas, mas tenho essa impressão sempre que me sento à mesa. como a impressão de que o dia seria estranho que tive ao acordar hoje de manhã. sei lá. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016 [...bastante ólgusjór]

eu me senti tão mal por tanto tempo que, num instante em que consegui vencer a correnteza e espiar pela superfície pra tomar um ar, aproveitei pra tomar uma decisão que poderia me empurrar pro fundo definitivamente ou me colocar numa jangada. me senti segura e sensata, terminei. submergi, me coloquei pra dormir entre afogamentos de lágrimas e soluços. solução? desespero. e então, calma. o mar se abrandou e eu senti que podia respirar de novo.

me senti mal por você, pelo jeito que você lidou. mas o que eu podia fazer? fiquei ali, pra caso quisesse que eu te arremessasse um colete salva-vidas. eu não podia te salvar. daí passou, cê nem olhava mais pra mim. olhava assim, de vez em quando, pra saudações, despedidas e ocasionais “fique bem” (nada muito diferente de como estávamos antes, afinal).

daí veio aquela onda. tsunami? me arrastou. não de imediato, é claro, porque eu previ o abalo e me abriguei, mas não foi em terreno firme. eu não sou terreno firme. quando desabei levei tudo no caminho, voltei pra um buraco qualquer no leito das águas e me mantive onde não dava pra piorar.

e então a epifania. eu sei que ela tava esperando por mim, só não tinha encontrado o solo fértil ainda. ela floresceu e eu colhi. contemplei tudo e entendi. sou parte disso, tá tudo onde deve estar. e agora eu não tô tão equilibrada assim, mas eu tô consciente de que a ressaca só molha meus pés, de que eu consigo me segurar e sou capaz de ser minha própria âncora.

ainda dói, e ainda vai doer, mas é assim que tem que ser. e eu sei que consigo mudar, e vou, mesmo com esse pedacinho uniforme que vez ou outra se amplifica. eu sou eu sou eu sou.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016 [dia do policast]

a cor do cachimbo é vermelha igual ao peito que sangra, sangrou e sabe que ainda tem muito o que sangrar. torpor, selecionando o automático e não encontrando a fagulha pra acender o que queimou. já queimou? pensei que tinha queimado tudo mas juntando os nossos restos fiz uma pira nova. pilhada em não falhar tropeço, pilhada em cumprir me impeço, não me meço e arremesso vento demais na chama se corro pra um falso progresso. uma coisa que vi no chão e levei comigo caiu de novo e alguém me avisou, me entregou, “saúde” (obrigada). um retorno à dor que eu escondi malemá e contaminou o visível, mas deixei de me importar: por que aparece e emerge acima de tudo como se fosse membrana seletiva do meu ar? redoma de vidro, tá abafado faz muito tempo e meu grito estourou meu ouvido. ouço com os olhos pois sinto vazar os meios, inteiros, partes e recortes, rasgos, colagens que vou fazendo e vendo onde tudo leva. leva embora o sentimento tóxico, o atentado à realidade, à real idade da consciência que desabrocha após a dormência. ainda tenho hematomas presentes e eles me lembram do necessário: me mudo. por vezes, ainda muda, observando, deletadas as memórias de histórias onde minha voz também conduzia e construía. percebendo que tudo não passou de retalhos retirados das cobertas que se colocavam entre mim e o que tinha no escuro, olhos, palavras sussurradas na orelha se não estivessem tapados os ouvidos, respiração encostada na pele que se arrepia de qualquer jeito - os buracos que foram feitos denunciaram que tudo era só um espelho. o quão fundo afoguei as mãos pra trombar em qualquer solidez? nem filtrei a água salobra. meu palpite é de que foi raso: estive nas margens e das margens tive o relance do erro que é acerto e conserta, tenta e sabe que tudo conta mas arquiva as hipóteses por medo. (desculpa por ser eu mesma quem me afasta.) sentimento de ódio e rancor que mastiga e chupa os ossos do vivo-morto. não respira mesmo: um clube da luta onde são dados e recebidos socos, mas não o suficiente pra pararem de gritar “loucos!”. na minha cabeça retoma-se o ritmo da auto condenação até que me recordo de como as coisas realmente são. sombras na minha pele e na minha mente, essas últimas preenchem o vazio com o barulho do portão se abrindo, das rodas deslizando no piso. todo eco se amplifica através de todas as fitas que tenho gravado, mas sinto que finalmente desloquei minha peça um espaço no tabuleiro. escuto e absorvo, grata por quem sendo o que é se faz luz e me eleva também. perdoo, substituo o ponto pela vírgula.

(ela acha que eu quero distância e tenho nojo de todos os seus pungentes deslizes mas na verdade lamento por cê nunca ter me chamado pra fumar contigo. me envenena os pensamentos, atravessa minhas palavras com lâminas bem cuidadas que ferem sem enxergar. coisas pesam sobre o peito e me enterram onde me deito, ossos se quebram e perfuram o tecido sob eles.)

quinta-feira, 2 de março de 2017 [último texto desse tipo que fiz]

tem um abismo enorme entre onde eu to e onde eu queria estar. não consigo enxergar como isso que eu sou vai alcançar aquilo ali, tão distante. eu fico muito chateada por isso e quero me esconder, ficar invisível pra todas as pessoas do mundo porque tenho vergonha de mim. não olhe pra mim, dê um tempo até eu ser alguém que eu não desgoste tanto, por favor. eu sei que não adianta falar isso, reclamar, me sentir mal o tempo todo – nada vai mudar. eu sei que preciso esperar, ter paciência, viver no presente e entender que eu vou chegar lá quando eu tiver que chegar. que eu não sou outra pessoa e nunca vou ser, que tenho que me conformar com os limites da minha existência da forma que ela é, porque ninguém tem controle sobre isso, afinal. porque podia ser muito pior. é ridículo porque eu sempre trombo com isso, com essa mesma merda, sempre me repito e odeio me ouvir de novo e de novo. é idiota porque não consigo me mover, e só isso vai fazer alguma diferença. sério? desculpa.

acho interessante olhar pra coisas do passado e perceber que não sou mais aquela pessoa, não tenho mais os mesmos sentimentos ou pensamentos nem faria as coisas do mesmo jeito. anos atrás eu jamais preferiria escrever tudo com letra minúscula e até apoiava o he for she. coisa curiosa isso de crescer; rose quartz tinha razão em se fascinar com a capacidade de mudança dos humanos. (será que no futuro vou achar besta citar desenho animado?)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Brilho temporário de uma mente quase sem lembranças

Enquanto escrevia sobre o curso técnico fiquei pensando a respeito da vida útil de minhas memórias, que considero mais curta do que deveria ser (tão curta que não percebi que usei exatamente a mesma frase no final da última postagem, mas finge que tá beleza). Tô tentando registrar mais as coisas que acontecem pra que eu não esqueça delas ou, pelo menos, possa ter por onde "ativar" suas lembranças. Por isso tô aqui (apesar de me incomodar com o jeito que as coisas ficam quando tô escrevendo desse jeito).

Em janeiro comecei a ler Roverandom (do Tolkien) mas não me fixei muito à leitura, apesar de ser agradável, e acabou que a primeira coisa que li foi Claro enigma, do Drummond. Gostei bastante dos poemas; já tinha lido outros livros dele – dos quais, naturalmente, já não me lembro muito¹ – e sabia da simpatia por sua escrita, pelo menos. Anotei vários (abaixo tem um trecho de um deles). A questão é: eu não sou de ler poesia com frequência porque dificilmente consigo me concentrar e/ou compreender, e inclusive quero ler mais, mas gosto muito de quando são recitados como nos vídeos do Button Poetry, da Dottie James ou no estilo cater piem (s2).

O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.

Depois li A solidão dos números primos, de Paolo Giordano, livro que tava na minha lista só por causa do título, que me soou interessante, e da capa (à esquerda), que achei bem bonita. É sobre um casal de colegas, cada um marcado de alguma forma, que compartilham essa espécie de solidão. A história não me pareceu muito excepcional; tudo tem uma atmosfera meio "suspensa" e, apesar de várias coisas acontecerem, não me fisguei muito. (Trecho a seguir.)

Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos mas não o bastante para se tocar de verdade. Ele nunca dissera isso a ela. Quando imaginava confessar-lhe essas coisas, a sutil camada de suor das suas mãos evaporava completamente, e durante longos dez minutos não era mais capaz de tocar nenhum objeto.

As meninas, de Lygia Fagundes Telles, foi o que se seguiu. De novo encontrei dificuldade em manter um ritmo de leitura, mas dessa vez a narrativa me atraiu bastante. Tem essas três amigas, extremamente diferentes entre si, e cada hora a história é contada sob a perspectiva de uma delas – uma estuda direito e vive em seu mundinho de sonhos, outra é militante comunista e tá sempre envolvida em suas causas e a outra é viciada em drogas. É um título muito relevante tanto no contexto da ditadura militar quanto na questão feminista; o final me pegou de surpresa mas pensando agora me parece adequado à autora, de quem já li vários contos. Curti a leitura – aqui uma citação de "Lião".

— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera, mas com o sexo do próximo? Cuide do seu próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul. A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.

Ted Hugues, o então marido de Sylvia.
Mais recentemente assinei o Kindle Unlimited da Amazon, porque me ofereceram uma promoção muito massa e só assim pra eu gastar algum dinheiro sem ter mil receios. Li um pequeno eBook, Desenhos, que trata um pouco da parte artística da Sylvia Plath. Bem bonitas suas ilustrações (abaixo). Outro dia tentei ler Entrevista com o vampiro, de Anne Rice, mas já tava saturada de vampiros (mais pra frente na postagem dá pra entender o porquê); depois ia começar Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, mas com isso do Kindle deixei pra mais tarde. Atualmente tô tentando ler Mayombe, de Pepetela, que tava na lista de leitura de 2016 da Fuvest (não sou muito fã de livros digitais). 

Uma vaca descansando no pasto.







                                                                       
Vi séries e filmes, também. Nunca consegui acompanhar séries porque meu entusiasmo nesse assunto dura pouquíssimo tempo; se eu não consigo assistir tudo em alguns dias já desanimo e deixo de lado. Mas esse ano consegui ver uns episódios de Black Mirror que me recomendaram; Stranger Things; a primeira temporada de Mr. Robot e de Avatar - The Last Airbender (sim) e, pela primeira vez na vida, dois terços de How I Met Your Mother – mas só porque vi as 4 primeiras temporadas em 4 dias. Gostei praticamente de tudo, foi bacana imergir em várias histórias diferentes e pelo menos rende mais que minhas leituras, né. Ainda pretendo continuar Mr. Robot e terminar HIMYM e tenho uma lista grandona de interesses em outras séries, mas vamos devagar com isso.

Quanto a filmes, tô vendo até que bastante (comparado ao pouco que conseguia assistir quando me ocupava com ensino médio e curso técnico). Cuidado que lá vem um monte de comentários breves sobre um bocado de longas-metragens: vi The Lobster, filme bastante inusitado sobre um futuro onde é proibido que as pessoas fiquem solteiras, se não quiserem ser transformadas em animais; Waking life, uma enorme conversa sobre sonhos e estados da consciência movida por discussões filosóficas e religiosas (preciso ver várias vezes pra ir tirando as coisas aos poucos); Estômago, filme muito massa (piada não intencional aqui) sobre um cozinheiro e seus caminhos até parar na prisão; Arrival, um filme de alienígenas (baseado num conto premiado) com uma perspectiva diferente dos demais, tratando de comunicação e do conceito de tempo de uma forma muito legal – e com uma trilha sonora lindona; Moonlight, que ganhou o último Oscar de melhor filme e conta uma história de autoconhecimento e amor num cenário caracterizado por retratos focados em estigmas; Lavoura arcaica, narrativa muito doida e de linguagem poética sobre uma família, os conflitos causados a partir da fuga de um dos filhos e o que o levou a isso (baseado no livro de Raduan Nassar); Nise - O Coração da Loucura, sobre a incrível psiquiatra que lutou pra mudar os caminhos do tratamento de transtornos mentais no Brasil; A monster calls, filme demais de triste sobre um enorme teixo que desperta para ajudar um garoto a passar pelas dificuldades de sua vida (baseado no livro de Patrick Ness); Room, história muito tocante sobre um menininho e sua mãe, que moram por muito tempo num quarto que na verdade é seu cativeiro; Comet, filme que salta entre momentos de um relacionamento de 6 anos para contar sua progressão e regressão; Freeheld, baseado num documentário homônimo que conta a luta pelo reconhecimento da união de duas mulheres nos EUA no começo dos anos 2000; e, enfim, Big Hero 6, animação muito legal (que infelizmente demorei pra ver) sobre uma relação entre dois irmãos, robôs e jovens gênios que acabam virando heróis.

A alienígena mais bonita do universo.
Além desses, vi outros filmes que não tenho muito o que dizer sobre. Vi Moana no cinema com meus primos, bem bonitinho e tal mas não achei "tudo isso" que falaram; Mulan, porque pensava que nunca tinha assistido a ele todo, mas provavelmente ter visto tantos pedaços soltos fez com que eu não aproveitasse tanto; Atlantis - The Lost Empire, que eu queria ver há muito tempo porque passava um trailer do filme antes de algum DVD que eu tenho (gostei mas também não me surpreendeu); Persepolis, cuja HQ li há anos atrás, e que também não foi "aquelas coisas" porque sei lá, é só sobre a vida dela (ok que tem um pano de fundo pesado, mas tirei mais da leitura que do filme); reassisti La Vie d'Àdele, apesar de ser um filme que não acrescenta muito, mas dessa vez captei umas coisas diferentes da primeira vez que vi; reassisti Avatar (Neytiri ali em cima), que mesmo tendo assistido inúmeras vezes numa semana que tive Telecine liberado há anos atrás, gosto muito e nunca me canso; The Secret of Kells, uma animação que me chamou atenção só porque ano passado vi Song of the Sea (do mesmo estúdio/diretor) e gostei demais, mas não aconteceu nem perto do mesmo com essa; e, por fim, Treasure Planet, que também tinha um trailer no comecinho de algum DVD e é adaptação de A Ilha do Tesouro, livro de Robert Louis Stevenson que nunca consegui ler (achei o filme bacana).

Sinceramente...
Também reassisti os filmes da Twilight Saga, porque sou besta – reuni vários livros pra vender/doar e quando peguei os da minha quase-xará fiquei nostálgica e resolvi fazer essa maratona. Meu primeiro contato com os vampiros reluzentes foi através de uma prima muito leitora; ela é bem mais velha que eu mas se empolgou muito quando leu e saíram os filmes e me indicou fortemente. Li todos os livros duas vezes quando era mais nova, ganhei um box de diáriozinhos da saga de presente dessa prima, vi alguns filmes no cinema com minha mãe e uma amiga, imprimi o Sol da Meia-Noite que vazou na internet, comprei revistas especiais sobre a história (#TeamEdward)... Foi uma parte muito grande da minha vida e, mesmo reconhecendo a mediocridade disso tudo, não consigo me desapegar das lembranças e sentimentos bons. Depois de rever os filmes fiz uma pequena crítica: Twilight é terrível, praticamente tudo é bem bostinha e os efeitos/montagens dão agonia; New Moon já começa mostrando que a produção tá muito melhor, as cores são bonitas e as pessoas mais convincentes, mas não entendo como uma pessoa possivelmente pode causar tantos acidentes a si mesma como a Bella; Eclipse é bacana por ter alguma ação mas tem sempre aquilo de não acontecer as coisas direito; Breaking Dawn dá umas agonias também – o que dizer sobre aquele Rio de Janeiro mega carnavalesco, sobre o português do Edward e MEU DEUS AQUELE BEBÊ RIDÍCULO, mas a Bella fica bonitona (eu esqueci que tudo o que acontece era só uma visão da Alice e fiquei muito indignada, mas tudo bem). Fiquei pensando em várias coisas: na falta de representatividade; por que nenhum vampiro tem cabelo colorido?; considerando que vampiros são praticamente mortos, como diabos o rapaz vai ser capaz de engravidar a coitada?; incrível eles terem relacionamentos monogâmicos em mais de 100 anos de "pós-vida"; até onde será que iria o amor eterno?; o cara viveu mais de um século e não desapegou das ideias conservadoras dele, véi; será que os lobos guardavam trocas de roupas enterradas pelos cantos pra quando precisassem se vestir depois de se destransformarem?; tivesse um pouquinho de amor livre ali e resolvia-se o impasse do triângulo amoroso; a pessoa tava mortinha daí de repente aparece vampiruda e ninguém ficou nem um pouquinho emocionado?... Mas enfim, acho que o que mais me marcou ao decorrer disso tudo foi a trilha sonora dos três primeiros filmes (Breaking Dawn só tem coisa melosa) – eu gosto demais das músicas escolhidas, quase de todas, e algumas bandas/cantores conheci graças a isso e ouço até hoje.

O último filme que vi foi Only Lovers Left Alive, que discute, a partir desse casal de vampiros, impressões opostas e complementares acerca da existência, algo meio yin e yang. É bem diferente de qualquer outro filme vampiresco que já vi e a trilha sonora é ótima, por sinal.

Uma parte que gostei.
Acho que falei tudo o que tinha pra anotar, deu mais coisa do que eu esperava. Valeu pra você que leu, um beijo na bunda e até segunda~ (mentira, mas achei engraçado essa frase que ouvi da minha tia)

¹ Em abril de 2014, escrevi o seguinte:
Ontem eu terminei minha leitura de A rosa do povo, do Drummond. As poesias foram escritas entre 1943 e 1945, nos anos decisivos da Segunda Guerra Mundial². É notável a forma que o poeta se expressou diante todo aquele conflito, mostrando a indignação, o medo, a tristeza, a dor de saber que enquanto estava a salvo bem aqui na América, do outro lado do oceano haviam milhares de pessoas sofrendo e morrendo. Os poemas são recheados com melancolia, sentimento de inutilidade, sentimentos humanos... a visão de alguém assistindo àquele show macabro sem poder interferir.

² Acompanhando tinha um comentário sobre outra obra que trata desse momento histórico:
Hoje li Maus, de Art Spiegelman, uma HQ que conta a história do holocausto através das vivências do pai do próprio autor. De uma perspectiva de alguém de fora, passei para a perspectiva de alguém que viveu tudo aquilo e sobreviveu para contar a história. Alemães são retratados como gatos e os judeus, como ratos. Imaginar que todos os episódios retratados aconteceram de fato é se chocar ainda mais, é temer, é se envergonhar por reclamar tanto da vida que levamos. É ter um exemplo literal de como o ser humano pode ser desumano.