quinta-feira, 27 de abril de 2017

Brilho temporário de uma mente quase sem lembranças

Enquanto escrevia sobre o curso técnico fiquei pensando a respeito da vida útil de minhas memórias, que considero mais curta do que deveria ser (tão curta que não percebi que usei exatamente a mesma frase no final da última postagem, mas finge que tá beleza). Tô tentando registrar mais as coisas que acontecem pra que eu não esqueça delas ou, pelo menos, possa ter por onde "ativar" suas lembranças. Por isso tô aqui (apesar de me incomodar com o jeito que as coisas ficam quando tô escrevendo desse jeito).

Em janeiro comecei a ler Roverandom (do Tolkien) mas não me fixei muito à leitura, apesar de ser agradável, e acabou que a primeira coisa que li foi Claro enigma, do Drummond. Gostei bastante dos poemas; já tinha lido outros livros dele – dos quais, naturalmente, já não me lembro muito¹ – e sabia da simpatia por sua escrita, pelo menos. Anotei vários (abaixo tem um trecho de um deles). A questão é: eu não sou de ler poesia com frequência porque dificilmente consigo me concentrar e/ou compreender, e inclusive quero ler mais, mas gosto muito de quando são recitados como nos vídeos do Button Poetry, da Dottie James ou no estilo cater piem (s2).

O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.

Depois li A solidão dos números primos, de Paolo Giordano, livro que tava na minha lista só por causa do título, que me soou interessante, e da capa (à esquerda), que achei bem bonita. É sobre um casal de colegas, cada um marcado de alguma forma, que compartilham essa espécie de solidão. A história não me pareceu muito excepcional; tudo tem uma atmosfera meio "suspensa" e, apesar de várias coisas acontecerem, não me fisguei muito. (Trecho a seguir.)

Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos mas não o bastante para se tocar de verdade. Ele nunca dissera isso a ela. Quando imaginava confessar-lhe essas coisas, a sutil camada de suor das suas mãos evaporava completamente, e durante longos dez minutos não era mais capaz de tocar nenhum objeto.

As meninas, de Lygia Fagundes Telles, foi o que se seguiu. De novo encontrei dificuldade em manter um ritmo de leitura, mas dessa vez a narrativa me atraiu bastante. Tem essas três amigas, extremamente diferentes entre si, e cada hora a história é contada sob a perspectiva de uma delas – uma estuda direito e vive em seu mundinho de sonhos, outra é militante comunista e tá sempre envolvida em suas causas e a outra é viciada em drogas. É um título muito relevante tanto no contexto da ditadura militar quanto na questão feminista; o final me pegou de surpresa mas pensando agora me parece adequado à autora, de quem já li vários contos. Curti a leitura – aqui uma citação de "Lião".

— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera, mas com o sexo do próximo? Cuide do seu próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul. A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.

Ted Hugues, o então marido de Sylvia.
Mais recentemente assinei o Kindle Unlimited da Amazon, porque me ofereceram uma promoção muito massa e só assim pra eu gastar algum dinheiro sem ter mil receios. Li um pequeno eBook, Desenhos, que trata um pouco da parte artística da Sylvia Plath. Bem bonitas suas ilustrações (abaixo). Outro dia tentei ler Entrevista com o vampiro, de Anne Rice, mas já tava saturada de vampiros (mais pra frente na postagem dá pra entender o porquê); depois ia começar Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, mas com isso do Kindle deixei pra mais tarde. Atualmente tô tentando ler Mayombe, de Pepetela, que tava na lista de leitura de 2016 da Fuvest (não sou muito fã de livros digitais). 

Uma vaca descansando no pasto.







                                                                       
Vi séries e filmes, também. Nunca consegui acompanhar séries porque meu entusiasmo nesse assunto dura pouquíssimo tempo; se eu não consigo assistir tudo em alguns dias já desanimo e deixo de lado. Mas esse ano consegui ver uns episódios de Black Mirror que me recomendaram; Stranger Things; a primeira temporada de Mr. Robot e de Avatar - The Last Airbender (sim) e, pela primeira vez na vida, dois terços de How I Met Your Mother – mas só porque vi as 4 primeiras temporadas em 4 dias. Gostei praticamente de tudo, foi bacana imergir em várias histórias diferentes e pelo menos rende mais que minhas leituras, né. Ainda pretendo continuar Mr. Robot e terminar HIMYM e tenho uma lista grandona de interesses em outras séries, mas vamos devagar com isso.

Quanto a filmes, tô vendo até que bastante (comparado ao pouco que conseguia assistir quando me ocupava com ensino médio e curso técnico). Cuidado que lá vem um monte de comentários breves sobre um bocado de longas-metragens: vi The Lobster, filme bastante inusitado sobre um futuro onde é proibido que as pessoas fiquem solteiras, se não quiserem ser transformadas em animais; Waking life, uma enorme conversa sobre sonhos e estados da consciência movida por discussões filosóficas e religiosas (preciso ver várias vezes pra ir tirando as coisas aos poucos); Estômago, filme muito massa (piada não intencional aqui) sobre um cozinheiro e seus caminhos até parar na prisão; Arrival, um filme de alienígenas (baseado num conto premiado) com uma perspectiva diferente dos demais, tratando de comunicação e do conceito de tempo de uma forma muito legal – e com uma trilha sonora lindona; Moonlight, que ganhou o último Oscar de melhor filme e conta uma história de autoconhecimento e amor num cenário caracterizado por retratos focados em estigmas; Lavoura arcaica, narrativa muito doida e de linguagem poética sobre uma família, os conflitos causados a partir da fuga de um dos filhos e o que o levou a isso (baseado no livro de Raduan Nassar); Nise - O Coração da Loucura, sobre a incrível psiquiatra que lutou pra mudar os caminhos do tratamento de transtornos mentais no Brasil; A monster calls, filme demais de triste sobre um enorme teixo que desperta para ajudar um garoto a passar pelas dificuldades de sua vida (baseado no livro de Patrick Ness); Room, história muito tocante sobre um menininho e sua mãe, que moram por muito tempo num quarto que na verdade é seu cativeiro; Comet, filme que salta entre momentos de um relacionamento de 6 anos para contar sua progressão e regressão; Freeheld, baseado num documentário homônimo que conta a luta pelo reconhecimento da união de duas mulheres nos EUA no começo dos anos 2000; e, enfim, Big Hero 6, animação muito legal (que infelizmente demorei pra ver) sobre uma relação entre dois irmãos, robôs e jovens gênios que acabam virando heróis.

A alienígena mais bonita do universo.
Além desses, vi outros filmes que não tenho muito o que dizer sobre. Vi Moana no cinema com meus primos, bem bonitinho e tal mas não achei "tudo isso" que falaram; Mulan, porque pensava que nunca tinha assistido a ele todo, mas provavelmente ter visto tantos pedaços soltos fez com que eu não aproveitasse tanto; Atlantis - The Lost Empire, que eu queria ver há muito tempo porque passava um trailer do filme antes de algum DVD que eu tenho (gostei mas também não me surpreendeu); Persepolis, cuja HQ li há anos atrás, e que também não foi "aquelas coisas" porque sei lá, é só sobre a vida dela (ok que tem um pano de fundo pesado, mas tirei mais da leitura que do filme); reassisti La Vie d'Àdele, apesar de ser um filme que não acrescenta muito, mas dessa vez captei umas coisas diferentes da primeira vez que vi; reassisti Avatar (Neytiri ali em cima), que mesmo tendo assistido inúmeras vezes numa semana que tive Telecine liberado há anos atrás, gosto muito e nunca me canso; The Secret of Kells, uma animação que me chamou atenção só porque ano passado vi Song of the Sea (do mesmo estúdio/diretor) e gostei demais, mas não aconteceu nem perto do mesmo com essa; e, por fim, Treasure Planet, que também tinha um trailer no comecinho de algum DVD e é adaptação de A Ilha do Tesouro, livro de Robert Louis Stevenson que nunca consegui ler (achei o filme bacana).

Sinceramente...
Também reassisti os filmes da Twilight Saga, porque sou besta – reuni vários livros pra vender/doar e quando peguei os da minha quase-xará fiquei nostálgica e resolvi fazer essa maratona. Meu primeiro contato com os vampiros reluzentes foi através de uma prima muito leitora; ela é bem mais velha que eu mas se empolgou muito quando leu e saíram os filmes e me indicou fortemente. Li todos os livros duas vezes quando era mais nova, ganhei um box de diáriozinhos da saga de presente dessa prima, vi alguns filmes no cinema com minha mãe e uma amiga, imprimi o Sol da Meia-Noite que vazou na internet, comprei revistas especiais sobre a história (#TeamEdward)... Foi uma parte muito grande da minha vida e, mesmo reconhecendo a mediocridade disso tudo, não consigo me desapegar das lembranças e sentimentos bons. Depois de rever os filmes fiz uma pequena crítica: Twilight é terrível, praticamente tudo é bem bostinha e os efeitos/montagens dão agonia; New Moon já começa mostrando que a produção tá muito melhor, as cores são bonitas e as pessoas mais convincentes, mas não entendo como uma pessoa possivelmente pode causar tantos acidentes a si mesma como a Bella; Eclipse é bacana por ter alguma ação mas tem sempre aquilo de não acontecer as coisas direito; Breaking Dawn dá umas agonias também – o que dizer sobre aquele Rio de Janeiro mega carnavalesco, sobre o português do Edward e MEU DEUS AQUELE BEBÊ RIDÍCULO, mas a Bella fica bonitona (eu esqueci que tudo o que acontece era só uma visão da Alice e fiquei muito indignada, mas tudo bem). Fiquei pensando em várias coisas: na falta de representatividade; por que nenhum vampiro tem cabelo colorido?; considerando que vampiros são praticamente mortos, como diabos o rapaz vai ser capaz de engravidar a coitada?; incrível eles terem relacionamentos monogâmicos em mais de 100 anos de "pós-vida"; até onde será que iria o amor eterno?; o cara viveu mais de um século e não desapegou das ideias conservadoras dele, véi; será que os lobos guardavam trocas de roupas enterradas pelos cantos pra quando precisassem se vestir depois de se destransformarem?; tivesse um pouquinho de amor livre ali e resolvia-se o impasse do triângulo amoroso; a pessoa tava mortinha daí de repente aparece vampiruda e ninguém ficou nem um pouquinho emocionado?... Mas enfim, acho que o que mais me marcou ao decorrer disso tudo foi a trilha sonora dos três primeiros filmes (Breaking Dawn só tem coisa melosa) – eu gosto demais das músicas escolhidas, quase de todas, e algumas bandas/cantores conheci graças a isso e ouço até hoje.

O último filme que vi foi Only Lovers Left Alive, que discute, a partir desse casal de vampiros, impressões opostas e complementares acerca da existência, algo meio yin e yang. É bem diferente de qualquer outro filme vampiresco que já vi e a trilha sonora é ótima, por sinal.

Uma parte que gostei.
Acho que falei tudo o que tinha pra anotar, deu mais coisa do que eu esperava. Valeu pra você que leu, um beijo na bunda e até segunda~ (mentira, mas achei engraçado essa frase que ouvi da minha tia)

¹ Em abril de 2014, escrevi o seguinte:
Ontem eu terminei minha leitura de A rosa do povo, do Drummond. As poesias foram escritas entre 1943 e 1945, nos anos decisivos da Segunda Guerra Mundial². É notável a forma que o poeta se expressou diante todo aquele conflito, mostrando a indignação, o medo, a tristeza, a dor de saber que enquanto estava a salvo bem aqui na América, do outro lado do oceano haviam milhares de pessoas sofrendo e morrendo. Os poemas são recheados com melancolia, sentimento de inutilidade, sentimentos humanos... a visão de alguém assistindo àquele show macabro sem poder interferir.

² Acompanhando tinha um comentário sobre outra obra que trata desse momento histórico:
Hoje li Maus, de Art Spiegelman, uma HQ que conta a história do holocausto através das vivências do pai do próprio autor. De uma perspectiva de alguém de fora, passei para a perspectiva de alguém que viveu tudo aquilo e sobreviveu para contar a história. Alemães são retratados como gatos e os judeus, como ratos. Imaginar que todos os episódios retratados aconteceram de fato é se chocar ainda mais, é temer, é se envergonhar por reclamar tanto da vida que levamos. É ter um exemplo literal de como o ser humano pode ser desumano.

Um comentário:

  1. AUShauhsaasuh s2 entre parênteses pra vc tbm. gostei mt de saber, além das carinhas, o q vc achou dos filmes e AQUELE BEBÊ RIDÍCULO e eu lembro q tinha muita gente elogiando!!! chega achei q tinha visto errado

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