Enquanto escrevia sobre o curso técnico fiquei pensando a respeito da vida útil de minhas memórias, que considero mais curta do que deveria ser (tão curta que não percebi que usei exatamente a mesma frase no final da última postagem, mas finge que tá beleza). Tô tentando registrar mais as coisas que acontecem pra que eu não esqueça delas ou, pelo menos, possa ter por onde "ativar" suas lembranças. Por isso tô aqui (apesar de me incomodar com o jeito que as coisas ficam quando tô escrevendo desse jeito).
Em janeiro comecei a ler Roverandom (do Tolkien) mas não me fixei muito à leitura, apesar de ser agradável, e acabou que a primeira coisa que li foi Claro enigma, do Drummond. Gostei bastante dos poemas; já tinha lido outros livros dele – dos quais, naturalmente, já não me lembro muito¹ – e sabia da simpatia por sua escrita, pelo menos. Anotei vários (abaixo tem um trecho de um deles). A questão é: eu não sou de ler poesia com frequência porque dificilmente consigo me concentrar e/ou compreender, e inclusive quero ler mais, mas gosto muito de quando são recitados como nos vídeos do Button Poetry, da Dottie James ou no estilo cater piem (s2).
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Depois li A solidão dos números primos, de Paolo Giordano, livro que tava na minha lista só por causa do título, que me soou interessante, e da capa (à esquerda), que achei bem bonita. É sobre um casal de colegas, cada um marcado de alguma forma, que compartilham essa espécie de solidão. A história não me pareceu muito excepcional; tudo tem uma atmosfera meio "suspensa" e, apesar de várias coisas acontecerem, não me fisguei muito. (Trecho a seguir.)
Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos mas não o bastante para se tocar de verdade. Ele nunca dissera isso a ela. Quando imaginava confessar-lhe essas coisas, a sutil camada de suor das suas mãos evaporava completamente, e durante longos dez minutos não era mais capaz de tocar nenhum objeto.
As meninas, de Lygia Fagundes Telles, foi o que se seguiu. De novo encontrei dificuldade em manter um ritmo de leitura, mas dessa vez a narrativa me atraiu bastante. Tem essas três amigas, extremamente diferentes entre si, e cada hora a história é contada sob a perspectiva de uma delas – uma estuda direito e vive em seu mundinho de sonhos, outra é militante comunista e tá sempre envolvida em suas causas e a outra é viciada em drogas. É um título muito relevante tanto no contexto da ditadura militar quanto na questão feminista; o final me pegou de surpresa mas pensando agora me parece adequado à autora, de quem já li vários contos. Curti a leitura – aqui uma citação de "Lião".
— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera, mas com o sexo do próximo? Cuide do seu próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul. A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.
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| Ted Hugues, o então marido de Sylvia. |
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| Uma vaca descansando no pasto. |
Vi séries e filmes, também. Nunca consegui acompanhar séries porque meu entusiasmo nesse assunto dura pouquíssimo tempo; se eu não consigo assistir tudo em alguns dias já desanimo e deixo de lado. Mas esse ano consegui ver uns episódios de Black Mirror que me recomendaram; Stranger Things; a primeira temporada de Mr. Robot e de Avatar - The Last Airbender (sim) e, pela primeira vez na vida, dois terços de How I Met Your Mother – mas só porque vi as 4 primeiras temporadas em 4 dias. Gostei praticamente de tudo, foi bacana imergir em várias histórias diferentes e pelo menos rende mais que minhas leituras, né. Ainda pretendo continuar Mr. Robot e terminar HIMYM e tenho uma lista grandona de interesses em outras séries, mas vamos devagar com isso.
Quanto a filmes, tô vendo até que bastante (comparado ao pouco que conseguia assistir quando me ocupava com ensino médio e curso técnico). Cuidado que lá vem um monte de comentários breves sobre um bocado de longas-metragens: vi The Lobster, filme bastante inusitado sobre um futuro onde é proibido que as pessoas fiquem solteiras, se não quiserem ser transformadas em animais; Waking life, uma enorme conversa sobre sonhos e estados da consciência movida por discussões filosóficas e religiosas (preciso ver várias vezes pra ir tirando as coisas aos poucos); Estômago, filme muito massa (piada não intencional aqui) sobre um cozinheiro e seus caminhos até parar na prisão; Arrival, um filme de alienígenas (baseado num conto premiado) com uma perspectiva diferente dos demais, tratando de comunicação e do conceito de tempo de uma forma muito legal – e com uma trilha sonora lindona; Moonlight, que ganhou o último Oscar de melhor filme e conta uma história de autoconhecimento e amor num cenário caracterizado por retratos focados em estigmas; Lavoura arcaica, narrativa muito doida e de linguagem poética sobre uma família, os conflitos causados a partir da fuga de um dos filhos e o que o levou a isso (baseado no livro de Raduan Nassar); Nise - O Coração da Loucura, sobre a incrível psiquiatra que lutou pra mudar os caminhos do tratamento de transtornos mentais no Brasil; A monster calls, filme demais de triste sobre um enorme teixo que desperta para ajudar um garoto a passar pelas dificuldades de sua vida (baseado no livro de Patrick Ness); Room, história muito tocante sobre um menininho e sua mãe, que moram por muito tempo num quarto que na verdade é seu cativeiro; Comet, filme que salta entre momentos de um relacionamento de 6 anos para contar sua progressão e regressão; Freeheld, baseado num documentário homônimo que conta a luta pelo reconhecimento da união de duas mulheres nos EUA no começo dos anos 2000; e, enfim, Big Hero 6, animação muito legal (que infelizmente demorei pra ver) sobre uma relação entre dois irmãos, robôs e jovens gênios que acabam virando heróis.
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| A alienígena mais bonita do universo. |
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| Sinceramente... |
O último filme que vi foi Only Lovers Left Alive, que discute, a partir desse casal de vampiros, impressões opostas e complementares acerca da existência, algo meio yin e yang. É bem diferente de qualquer outro filme vampiresco que já vi e a trilha sonora é ótima, por sinal.
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| Uma parte que gostei. |
¹ Em abril de 2014, escrevi o seguinte:
Ontem eu terminei minha leitura de A rosa do povo, do Drummond. As poesias foram escritas entre 1943 e 1945, nos anos decisivos da Segunda Guerra Mundial². É notável a forma que o poeta se expressou diante todo aquele conflito, mostrando a indignação, o medo, a tristeza, a dor de saber que enquanto estava a salvo bem aqui na América, do outro lado do oceano haviam milhares de pessoas sofrendo e morrendo. Os poemas são recheados com melancolia, sentimento de inutilidade, sentimentos humanos... a visão de alguém assistindo àquele show macabro sem poder interferir.
² Acompanhando tinha um comentário sobre outra obra que trata desse momento histórico:
Hoje li Maus, de Art Spiegelman, uma HQ que conta a história do holocausto através das vivências do pai do próprio autor. De uma perspectiva de alguém de fora, passei para a perspectiva de alguém que viveu tudo aquilo e sobreviveu para contar a história. Alemães são retratados como gatos e os judeus, como ratos. Imaginar que todos os episódios retratados aconteceram de fato é se chocar ainda mais, é temer, é se envergonhar por reclamar tanto da vida que levamos. É ter um exemplo literal de como o ser humano pode ser desumano.






AUShauhsaasuh s2 entre parênteses pra vc tbm. gostei mt de saber, além das carinhas, o q vc achou dos filmes e AQUELE BEBÊ RIDÍCULO e eu lembro q tinha muita gente elogiando!!! chega achei q tinha visto errado
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