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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

ainda aqui

não sei se em algum momento de abril pra cá eu realmente consegui retomar o hábito de ler regularmente, mas ter perdido o ritmo assim que as maratonas literárias foram ficando maiores e mais espaçadas não foi surpresa nenhuma. mesmo os livros remanescentes da asian readathon, de maio, foram ficando de lado; eu sou malala ainda me interessa, então ainda quero terminar (tá indo pra seis meses que não toco nesse livro, mas tudo bem), só que judas não vi muito sentido em continuar lendo, então preferi desistir e deixar espaço pra leituras que realmente quero fazer. durante junho, por causa do material movimentado com os protestos antirracistas, comecei a ler sister outsider: essays and speeches, de audre lorde, e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça, de reni eddo-lodge. o primeiro ainda tô lendo e o segundo só fui terminar em agosto, mas já entendi que preciso e prefiro ler essas coisas devagar mesmo, pra tomar o tempo de reflexão que isso merece e pra digerir melhor. de qualquer forma, já que sempre que tenho algo chato pra fazer eu invento "missõezinhas" que eu me sinto obrigada a terminar até não sobrar nada pra onde fugir, vim aqui deixar registrado o restante das maratonas de que participei nesse ano.

maratona literária de inverno (booktubatona)

livros da pretatona que encaixei na mli
dia 20 de junho começou a maratona literária de inverno que já comentei anteriormente, a tal booktubatona, e ela foi até dia 4 de julho. pensava que iam usar bastante o instagram, mas em vez disso foi o twitter; teve muita interação por lá, com sprints de leitura, lives e sorteios todo dia. não sei se por ter sido assim movimentadíssimo, por não me identificar com os booktubers, por estar desanimada ou por tudo isso junto, mas não fui capaz de ler quase nada nas duas semanas da maratona; li só um dos contos YA que baixei gratuitamente por causa do mês do orgulho LGBT e uma novela que já tinha baixado (pirata) por outro motivo. o conto se chama a primeira vez de natan & lino e é de henri b. neto, que é um booktuber também. vi vários defeitos, me incomodei com a escrita, não me cativei com a história; por fim admiti que esse gênero literário não é pra mim. a novela, the deep, foi o contrário, pelo menos; achei muito especial a maneira de falar sobre trauma, memória e resistência através de um povo que vive nas profundezas do oceano, descendente das mulheres africanas jogadas dos navios que traficavam escravos. bem interessante o fato de que a própria história foi construída pelo encontro de diferentes perspectivas, pela recriação a partir de outras vozes – quem escreveu foi rivers solomon, inspirade em uma música com o mesmo nome do grupo musical clipping., de daveed diggs, william hutson e jonathan snipes, que por sua vez se inspiraram num álbum da dupla de música eletrônica drexciya. mas voltando à maratona: ela tinha 27 desafios possíveis, cada um proposto por um booktuber, e the deep correspondia a dois (livro recomendado por um booktuber – acho que foi seji – e livro em outra língua). a primeira vez de natan & lino nem tinha sido planejado, mas acabou servindo pra um monte: livro LGBTQIA+ lançado nos últimos 4 anos, livro de um gênero que você não lê com frequência, livro que faz parte de uma série, livro nacional de um autor LGBTQIA+ e livro nacional de autor independente ou de editora pequena. eu tinha encaixado sister outsider e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça em alguns desafios também, pra tentar avançar na leitura, mas obviamente não rolou.

pretatona

outros livros escolhidos pra pretatona
de 23 de junho a 30 de julho teve a pretatona, criada pelo clã das pretas (instagram) nesse contexto do debate antirracista pra promover a leitura de histórias negras escritas por pessoas negras. cada semana tinha um genêro literário diferente como proposta de leitura, além da recomendação de um filme/documentário dentro da temática, e na verdade eu parti dela pra escolher the deep, que correspondia à primeira semana e coincidiu com a mli: ficção especulativa (fantasia, ficção científica e terror/horror). o tema da segunda semana era nacional (se possível, priorizando norte/nordeste), e li vozes negras, de amanda condasi, flor, priscila, isa souza, maria ferreira e pétala souza – dos 4 contos do livro, me chamaram a atenção "carimbos e memórias" (de flor, priscila) e "não existem sinônimos suficientes para futuro" (de isa souza e pétala souza). o primeiro fala sobre o sonho de escrever histórias e viajar o mundo de glória maria, que escreve um poema lindo onde noémia de sousa, carolina maria de jesus e maya angelou são referências; o segundo é uma história de ficção científica bizarramente próxima da realidade atual, onde a pandemia de um vírus e o isolamento decorrente escancaram políticas de controle e segregação. na terceira semana o tema era young adult, pro que escolhi dois garotos num navio, de slaeff, um conto curtinho onde sonho e realidade se confundem e o naufrágio do titanic representa uma perda tão grandiosa quanto. na quarta era quadrinho, e finalmente li angola janga, de marcelo d'salete, que emprestei da biblioteca no último dia de aulas presenciais, lá em março (fiquei enrolando porque não queria ficar sem, mas ler durante a pretatona foi especial – e se eu tivesse lido antes não teria um livro pra preencher essa categoria, né). grande quadrinho contando uma história de palmares, de tantas possíveis: as picadas pra pequena angola, o acordo e a queda de cucaú, a liderança de zumbi, o anguêri branco, a permanência dos quilombos... mais de uma década de pesquisa do autor, que também escreveu histórias de resistência negra no brasil colonial em cumbe, que li no começo do ano na casa de thiago. depois teve literaturas africanas, pro qual escolhi hibisco roxo, de chimamanda ngozi adichie, que me surpreendeu demais, me tocou demais. muito forte, sensível e de uma escrita maravilhosa, e ainda por cima leitores brasileiros podem se identificar com os temas de colonialismo e cristianismo... tudo isso com o pano de fundo de um golpe militar, também. tinha um desafio extra, que podia ser não-ficção ou infantil – achei mais fácil preencher não-ficção e li pequeno manual antirracista, de djamila ribeiro, que é conciso mas muito completo, tratando dos diferentes âmbitos atravessados pelo racismo e dando orientações de como tomar atitudes antirracistas diantes deles. um grande material de consulta, também, cheio de referências a escritores negros e trabalhos importantes, sendo leitura fundamental pra introduzir essas discussões. gostei bastante de participar, e ainda tenho vontade de ver os filmes e documentários recomendados pra cada tema – branco sai, preto fica; café com canela; o ódio que você semeia; homem-aranha no aranhaverso (esse já vi!); rafiki (lembro de descobrir esse quando procurava filmes lésbicos produzidos fora do eixo eua-europa pra passar na escola de inglês onde eu trabalhei; assisti em agosto, achei muito doce e, ao mesmo tempo, muito triste); a 13ª emenda (já vi também, pesadíssimo); e cada um na sua casa. muitas indicações pra consulta, também.

intersecção de pretatona e reading rush, agora
the reading rush

a edição de 2020 da reading rush foi de 20 a 26 de julho, e de novo aproveitei o que já tava escolhido pra pretatona: coloquei pequeno manual antirracista e hibisco roxo nos desafios um livro de um gênero que te dá medo ou do gênero que você menos lê e um livro que se passa num continente diferente do seu, respectivamente (leio pouco não-ficção e hibisco roxo se passa na nigéria). os outros eram um livro cuja capa combine com a cor da pedra do seu signo, um livro que comece com "o"/"a" ("the"), um livro que inspirou um filme que você viu, o primeiro livro que você tocar e ler um livro completamente "não em casa". tentei combinar o máximo que eu pude, então usei the ones who walk away from omelas, de ursula k. le guin, pra três (foi o papelzinho que eu peguei num sorteio entre três livros que começavam com "the", e por ser um conto pude ler ele inteiro estando no quintal); o livro consegue ser super impactante em poucas páginas, daquelas histórias que vão muito além da experiência de leitura e que reverberam nos pensamentos por muito tempo. pros outros desafios dois não teve jeito: coloquei por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (de novo) nesse da pedra do signo, porque a pedra de abril é diamante e esse livro tem uma capa branca/limpa, e howl's moving castle, de diana wynne jones no da adaptação pra filme, porque era a única coisa que eu tinha comigo e se encaixava. mas no fim não consegui ler nenhum deles e tudo bem, acho que não tem como forçar certas coisas só por causa de uma "maratona", né. vi umas postagens questionando esse ritmo de leitura acelerado, que é mais um desdobramento do sistema em que a gente vive, e acho massa repensar isso também. tô lendo howl's moving castle agora, na verdade, e tô sentindo uma sensação tão gostosinha, de um jeito que nunca mais tive com livro nenhum, que tô até indo devagar de propósito.

esforço mínimo em desafios? temos
o que a reading rush tem são desafios fotográficos, e dos sete participei de três: recriar a capa de um livro, fazer cosplay de um personagem literário e tirar foto da minha leitura atual com um animal de estimação. pro primeiro achei esse livro de joão ubaldo que tem uma capa muito parecida com as paredes externas daqui de casa: tijolinhos e concreto rachado. não foi bem uma criação, né, só aproveitei o que já tinha, mas ok. pro segundo mirei baixo, porque não tinha como ser muito elaborado: me vesti de u-235, personagem de ing lee em cápsula, que li lá na reading rush de abril (usar essas roupas é bem comum pra mim). no último dia da maratona deu umas tretas de ariel e raeleen não terem feito a leitura pro clube do livro e terem mudado a discussão sobre ele pra um q&a aleatório, sendo que o livro era exatamente sobre performative allyship, além de terem deixado o desafio de ler fora de casa sendo que o mundo tá no meio de uma pandemia... uma bosta, realmente, e espero ações melhores delas pra realmente mudar, não só prometer. mas o que ia falar é que no meio disso tudo vi gente falando sobre pessoas brancas terem representado/vencido o desafio de cosplay se vestindo de personagens de cor, o que é claramente problemático, e fiquei pensando se foi errado eu me vestir de uma personagem asiático-brasileira. não mostrei minha cara e não ganhei nada, pelo menos, nem nunca tive a pretensão de receber atenção (apesar de ing lee ter visto, comentado e compartilhado feliz). foda, né. pro último desafio tirei foto de elvira (não tenho pet, mas compartilhamos a casa) dormindo na cadeira, junto com pequeno manual antirracista, e fim. os outros desafios eram menos interessantes pra mim, tipo fotografar uma pilha de livros ou meu "combustível de leitura" (comidas ou bebidas). mas foi legal ver a participação dos outros.



depois de julho só teve mais uma maratona legal: a fortnight frights, durante as duas últimas semanas (por isso fortnight) de outubro, organizada por seji do the artisan geek. a proposta era ler horror e gêneros relacionados, em preparação pro halloween, mas de forma mais diversificada e inclusiva. tinha um bingo com 16 desafios, dos quais você podia combinar 2 em uma leitura só ou então tentar completar tudo, e ao longo da maratona teve discussões de alguns livros selecionados e sessões de cinema. eu até baixei dois dos livros que teriam discussões, the year of the witching, de alexis henderson (escrito por um/a autor/a negro/a) e the only good indians, de stephen graham jones (escrito por um/a autor/a indígena), mas só li um pouquinho do primeiro e não consegui acompanhar nada. a própria seji teve dificuldades de cumprir as propostas que tinha, porque uma amiga dela faleceu :( mas gosto tanto do conteúdo dela, vou ficar atenta às próximas coisas que ela faz.

acho que tá bom de maratona pra quem nunca mais tinha participado de nada, né. não sei de mais nenhuma e também não tô em condições de arrumar mais coisas pra cabeça a essa altura do campeonato, com inúmeros trabalhos atrasados e seis disciplinas pra equilibrar. percebo que maratonas com temas mais bem definidos (como a maratona de literatura asiática, a pretatona e a fortnight frights) fazem mais sentido pra mim, e felizmente divido a casa com gente que tem livros o suficiente pra compor várias listas de leitura, além de que agora tenho a praticidade de um leitor digital onde posso colocar meus ebooks piratas. sempre que penso em comprar livros (alô festa do livro da usp) percebo que não faz sentido, tendo tantos à disposição e podendo emprestar das inúmeras bibliotecas aqui do meu lado, na universidade onde estudo (ainda não fui ver isso, mas sei que dá pra marcar horário por email pra devolver/pegar livros, agora). teve um momento, nesses meses, que me veio uma vontade grande de ir naqueles sebos caóticos com preços bem baixos... pena que não vai rolar tão cedo, né. mas enfim, coisa de pandemia, e nem tenho do que reclamar. seguimos.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

o isolamento e as maratonas

fazia tempo que eu não me informava sobre maratonas de leitura ou participava de alguma. mas também fazia tempo que eu não lia direito, sentindo prazer e vontade de voltar pro livro em vez de perder tempo com qualquer outra coisa. o ápice foi levar três livros pra bahia e voltar pra casa com nem sequer um avanço em algum deles. isso em dois meses de viagem. o som e a fúria mesmo eu só terminei no finzinho de abril, e olhando o skoob descobri que tinha começado em outubro. tava feia a coisa.

e então veio o vírus, a suspensão de atividades da universidade, a quarentena com as meninas, o isolamento social. fiquei muito mal no começo, talvez pela coincidência de problemas na cabeça além de toda a tensão do que tava acontecendo. agora a ansiedade já é esperada, mas claro que isso não significa estar acostumada; as coisas tão piores, na verdade, né. nunca mais tive controle da minha rotina, porque cada dia é uma coisa, que nem uma montanha-russa. e acabou que esses projetos de leitura foram servindo pra dar um mínimo de propósito e motivação pra fazer algo diferente.

teve uma em abril e outra em maio, e até criei um perfil no instagram pra poder participar mais ativamente. dois amigos me acharam lá e me seguiram, o que me deixou nervosa, porque a intenção era ficar o mais anônima possível e postar só o necessário. apesar de sempre ter gostado de ler e acompanhado alguns canais literários no youtube, não tenho vontade de produzir esse tipo de coisa, principalmente porque sei que minha existência online não seria nada novo ou importante pra comunidade. não faltam referências do que posso representar, no sentido mulher branca, do sudeste, classe média. minha visão não contribui pra nenhuma discussão; pelo contrário, uma das coisas que eu quero desenvolver lendo mais é justamente ser capaz de resumir melhor o que consumo, relacionar diferentes obras e construir críticas mais elaboradas. então nem vejo muito sentido em ter um perfil no instagram, mas por enquanto tô usando só pra maratonas literárias e desafios de leitura. essas foram as maratonas de que participei até agora:

stay home reading rush

cheguei a mencionar a booktube-a-thon da última vez que participei de uma maratona literária, que conheci por acompanhar ariel bissett, dizendo que antes tinha tido a intenção de participar dela mas tinha desistido por causa dos muitos desafios e exageros. em algum momento a booktube-a-thon virou the reading rush, e em abril fizeram essa edição especial por conta do isolamento social. eram só 4 dias, de 16 a 19 de abril, e foram 4 propostas: ler um livro com uma casa na capa, ler um livro que se passa num lugar que eu gostaria de visitar, ler um livro que vai me fazer sorrir e ler um livro no mesmo cômodo o tempo todo. não interpretei essa última como um 4º livro a ser escolhido, mas acabei juntando 4 de qualquer forma: o vilarejo (de raphael montes) por ter uma casa sombria na capa, todas as cores do céu (de amita trasi) porque aparentemente tem uma parte que se passa na índia, cápsula (hq de um monte de artistas que eu gosto) justamente por ser de artistas brasileiros que eu acompanho e los once (de miguel jiménez, josé luis jiménez & andrés cruz) como um extra, mas que acabei lendo inteiro e de uma vez ali na frente de casa.
acabei comprando um kindle nesse período, principalmente pra ler em inglês. mas só baixo livro gratuito ou pirata

mais tarde substituí todas as cores do céu por bloodchild (de octavia e. butler), pensando em usar o primeiro numa maratona que viria em seguida, e acabou que nem isso fiz. mas foi mais sensato trocar um livro de mais de 300 páginas por um conto, também, já que eu com certeza não ia ser capaz de terminar tudo isso nos dias da maratona.


a primeira coisa que li foi o vilarejo, que é uma coleção de contos que se passam nessa tal vila em algum lugar da europa (não é explícito, mas tem horas que falam sobre "ir para as américas" e os personagens têm nomes do tipo helga, ivan, mikhail etc). cada um dos 7 contos corresponde a um dos reis demônios do inferno, um pra cada pecado capital. dá pra ler em qualquer ordem mas tudo se encaixa de alguma forma, com os mesmos personagens e eventos em comum. o autor alega ser só o tradutor de uns cadernos escritos por uma senhora que morreu numa língua que não existe mais, e faz o prólogo e o posfácio serem parte da história, o que achei interessante, diferente. foi uma leitura sangrenta bacana, mas o estilo de escrita me dá a sensação de que qualquer pessoa poderia ter feito os contos, seguindo essa proposta de pecados capitais e um só cenário. se a escrita fosse mais cativante eu teria gostado mais.

em seguida li bloodchild, porque pouco antes tinha lido e gostado bastante de outro conto de octavia butler e, já que esse era gratuito pra baixar no kindle, aproveitei a oportunidade de ler mais dela. a história acontece em outro planeta, então achei engraçado usar pra preencher a categoria de "livro que se passa num lugar que eu gostaria de visitar", mas se eu soubesse os detalhes da vida dos terrans entre os tlic eu teria pensado duas vezes, hein. é um conto curto, então prefiro ir direto pra recomendação em vez de tentar resenhar, mas posso dizer que achei massa demais como a autora tirou inspiração das larvas parasitas de uma mosca da amazônia pra criar uma história de "gravidez masculina", escolhas, retribuição... gosto de como ela fala sobre o processo da escrita depois dos contos. um dos gêneros literários que quero começar a ler mais é ficção científica, e com certeza octavia butler é uma autora cuja produção me chama a atenção. quero ler mais mulheres e autoras negras, também, e de novo o nome dela é um dos grandes nessa.

depois li cápsula, que é uma antologia de histórias inspiradas por akira, de katsuhiro otomo. todos os autores são artistas e ilustradores brasileiros, alguns meus favoritos (puiupo, ing lee, amanda miranda, monge han, mas também tais koshino, d0rts, marco sem s, grazi fonseca e fernanda garcia). cada história assume um formato; algumas são prolongamentos do mangá, outras trazem pensamentos sobre tragédias e medos, e de alguma forma todas têm reflexões sobre identidade, o estado do mundo e a distopia pra onde parecemos estar caminhando. essa atmosfera cyberpunk, apocalíptica. arte e composições muito boas, criativas, inspiradoras. comprei com aquele pensamento de apoiar artistas independentes, aproveitando a promoção do quadrinho com o calendário feito pelo selo editorial da ing lee.

por último li los once, que é sobre os dois dias de cerco do palácio da justiça da colômbia, em bogotá, em novembro de 1985, quando guerrilheiros o ocuparam e foram atacados por forças militares. a história é contada pela perspectiva de uma mãe/avó que cuida da neta e espera o retorno do filho, que trabalha no palácio. parece que os fatos nunca foram esclarecidos e que existem várias versões, mas os "onze" do título fazem referência a essas pessoas que desapareceram no incidente e eram trabalhadores da cafeteria ou visitantes. bem construída a estrutura intercalando cenas da avó e dos onze, e muito forte a representação dos personagens como animais (os militares eram bestas que pareciam javalis, os onze desaparecidos são ratos e os guerrilheiros que os prestam ajuda são pombas).


além das propostas de leitura, cada dia tinha um desafio pro instagram, e no final da maratona haveria 4 vencedores que receberiam uma caixa desses clubes de assinatura de livros da vida. o primeiro era uma fotografia do meu lugar favorito pra ler, que por um tempo pareceu ser um dos lugares favoritos de velma também: a poltrona verde-sujo-praticamente-preta que fazia parte da edícula e agora fica na sala. gosto de ficar nela, em frente à janela e perto dos livros compartilhados (que na verdade são só meus ou de talita), onde é bem iluminado e fresco e nunca fica desconfortável. já era pra essa poltrona ter sido doada porque ninguém gosta (e velma mijou nela), mas fico feliz que ainda esteja em casa. e agora elvira usa ela bastante também, então somos três na defesa.

foto atual ilustrativa de como geralmente fico na poltrona (e onde elvira gosta de se enfiar)

o segundo desafio era fotografar meu marca-páginas favorito, mas pulei esse porque não ligo pra isso nem uso direito. o terceiro era uma foto da minha estante de livros, e como raramente vou pra casa dos meus pais (e nunca mais fui, por causa das atuais circunstâncias), tirei foto dos livros que ficam no meu quarto aqui em casa. minha estante são caixotes de madeira achados na rua e lixados, e tenho muito menos coisas nela do que na minha estante original, mas gosto assim. materiais de desenho e papelaria na caixa verde em cima do caixote, leituras em andamento embaixo da luminária, o som e a fúria sendo meu mousepad na mesa... também tenho livros na sala, aqueles supostamente compartilhados, mas juntando tudo deve dar só dois caixotes, e a maior parte ainda não li. já faz vários anos que não vejo mais sentido em comprar nada, então acho que vai continuar assim por um bom tempo.


o último desafio era fotografar um livro ao ar livre, e acabei combinando isso e o lugar onde estive durante a leitura de los once. na verdade comecei a ler de tarde e foi ficando escuro demais pra continuar nessa cadeira desconjuntada, então fiquei de pé perto da lâmpada, me mexendo pra não levar mordida de inseto. no geral gostei das minhas fotos, principalmente dessas duas últimas, e queria ter visto menos fotos padrãozinho de bookstagram nas hashtags de cada dia. as fotos vencedoras foram boas, mas vi melhores, também. de qualquer forma, esses desafios foram o que mais me animou a ver outros perfis e conhecer outras pessoas participando, o que foi massa.


apesar de eu ter lido 4 livros, nem foi tanto assim (deu 357 páginas no total), mas proporcionalmente é bem mais do que tenho lido nos últimos meses. ter uma carga de leitura extensa na faculdade acaba diminuindo minha vontade de ler no tempo livre, e estar em casa o tempo todo afetou demais minha concentração e motivação pra qualquer coisa, como eu sei que muita gente tá se sentindo igual. foi bom ter participado de uma maratona grande e conhecida pra sentir que não tô sozinha e pra me divertir com a sensação de estar num jogo, com os desafios e tal. a versão oficial da reading rush é em julho, então quem sabe eu emende tudo isso também.

asian readathon

recentemente comecei a acompanhar uma youtuber chamada cindy pham, e através dela soube da asian readathon, uma maratona em celebração ao mês do patrimônio asiático-americano e das ilhas do pacífico (maio). cindy tem descendência vietnamita e esse ano é a segunda vez que ela promove essa maratona, cuja proposta é justamente ler autores asiáticos ou de herança asiática durante o mês. junto com outros produtores de conteúdo e colaboradores voluntários ela montou um compilado muito massa de indicações de livros e autores, que dá pra usar em qualquer ocasião, não só nesse projeto. fui levantando as origens dos autores que temos aqui em casa e com carolzinha tinha índia, israel, paquistão... e de graça pro kindle achei china e turquia, também. mas os desafios eram 4: ler qualquer livro de um/a autor(a) asiático(a), ler um livro com um personagem asiático ou de um(a) autor(a) asiático(a) com quem posso me identificar, ler um livro com um personagem asiático ou de um(a) autor(a) asiático(a) que é diferente de mim e ler um livro recomendado por um(a) asiático(a). sempre é permitido combinar categorias em um livro só, mas a ideia era ler autores de nacionalidades diferentes pra cada livro. no começo eu tinha reunido, respectivamente pra cada uma, judas (de amós oz, israelense), babyji (de abha dawesar, indiana), eu sou malala (de malala yousafzai, paquistanesa) e o mangá otouto no otto ("o marido do meu irmão", de gengoroh tagame, japonês), mas acabei não seguindo isso. também teve a leitura conjunta de little fires everywhere (de celeste ng, sino-americana), seguida por uma watchalong da adaptação pra série de TV, ambas acompanhadas por discussões online em lives no youtube, e fiz a mesma coisa de participar sem ter planejado.
o mangá eu li online, tem 2 ou 3 volumes e 28 capítulos, só.
comecei lendo babyji, porque dia 10 ia ter uma discussão online promovida pelo clube lesbos curitiba, já que a história gira em torno de relacionamentos entre mulheres. lá atrás comentei que tirei todas as cores do céu da stay home reading rush com a intenção de deixar esse livro pro mês de maio, que teria a asian readathon e seria mais tempo pra ler, mas acabou que troquei ele de novo pra não repetir nacionalidades. o clube lesbos tinha disponibilizado babyji pra baixar de graça também, então pareceu uma boa oportunidade, mas no fim foi uma grande decepção. a protagonista, anamika, é uma estudante de 16 anos que arruma um caso com uma mulher quase 3x mais velha, outro com a criada também mais velha que ela e mais outro com uma colega de escola. zero simpatia por anamika, que apesar de ser adolescente é extremamente pretensiosa e arrogante, e zero desenvolvimento de qualquer personagem ou do enredo. não dava nem pra criar algum interesse em alguém porque nenhuma personalidade era explorada a fundo, nenhum conflito gerou grandes problemas, nada pareceu realista e por isso não dava pra levar as coisas a sério. anamika força a criada a fazer sexo e estupra a colega, ainda por cima, e em nenhum momento isso é discutido pra além de "só acelerei uma coisa que ela queria fazer" ou "eu reagi exageradamente". simplesmente sem sentido e potencialmente prejudicial, na minha opinião, e fiquei indignada que só mais uma mulher além de mim desgostou do livro no encontro do clube, que tinha umas 17 pessoas. tem sim algumas questões que dá pra trabalhar, como a visão sobre as "contradições da índia", a protagonista perpetuando comportamentos merda ao se relacionar com mulheres porque é isso que tem como referência, ou então se identificando com figuras masculinas já que não se vê no que é "ser mulher" na sociedade em que vive. ainda assim sinto que tudo poderia ter sido abordado de maneira mais complexa e completa, além de que o único suposto crescimento de anamika foi em benefício próprio (e ela ainda acaba o livro fazendo uma menção muito questionável a meritocracia, véi).

depois dessa raiva encontrei little fires everywhere em formato pra kindle no piratebay e, lendo despretensiosamente, me surpreendi com a escrita e acabei indo até o fim. foi um bálsamo pra leitura anterior; a história é instigante, as reviravoltas são inesperadas, os personagens têm muitas facetas, a escrita é maravilhosa. tudo se passa em shaker heights, um lugar guiado pela ordem e pelo planejamento, representados fortemente pela família richardson, mas que começa a sofrer pequenas faíscas de mudança que questionam essa imagem de perfeição quando mia warren se muda pra lá com a filha pearl. críticas ótimas aos brancos ricos agindo como bons samaritanos e salvadores mas reproduzindo os mesmos preconceitos e erros de sempre, e a esses ideais ilusórios de segurança que guiam muitas pessoas e oprimem tantas outras. gostei de como tudo e todos têm muitos lados, de como nada é simplesmente uma coisa ou outra, o que faz a gente ser obrigado a aceitar a incerteza e o relativismo característicos de quase tudo no mundo. na live pra discutir o livro comentaram sobre alguns personagens terem ficado um pouco de lado conforme as coisas se desenrolavam, e é verdade, apesar de tudo. o núcleo antagonista foi representado na série por mulheres negras, apesar do livro não deixar claro nada sobre sua cor, então houve uma atenção em especial à questão do racismo na adaptação, que foi bastante pertinente e incisiva. além disso e do final diferente, não teve muita coisa de que eu gostei na série; senti que a personagem de mia perdeu o ar de mistério e sabedoria que ela tem no livro e que a rivalidade entre ela e elena ofuscou os outros conflitos. mas pra quem não leu deve ser mais interessante.


por último li otouto no otto, apesar de ter começado eu sou malala antes (acabei o mês tendo lido pouco mais de 30% do livro). yaichi vive no japão com sua filhinha kana e eles são surpreendidos pela visita de mike, canadense que foi casado com o irmão gêmeo falecido dele, ryouji. ao longo das três semanas que mike passa em sua casa, yaichi vai repensando e lidando com seus próprios preconceitos, e passa a entender melhor e fazer as pazes com essa parte da vida do irmão de que não fez parte. achei massa mostrar essa transformação em yaichi, que acaba vendo na própria vida aspectos igualmente não-convencionais (pai solo, divorciado) que também não merecem ser invalidados ou discriminados; uma boa abordagem, de uma perspectiva diferente. achei desnecessário e repetitivo as conversas sobre refeição e o próprio foco que a comida recebe, só, e não tava esperando a menção às bandeiras lgbt pra furries e bdsm, mas legal. descobri que fizeram uma adaptação em live-action com 3 episódios, e os atores são bem iguais aos personagens. deve ser bacana.

comecei judas outro dia também mas não li muito, então encerrei a maratona tendo lido só isso, mesmo. mas foi bom pra eu ver que não faz sentido querer ler tanto se meu normal tem sido muito menos, né. o booktube e o bookstagram forçam muito a barra na quantidade, quando o que deveria ser priorizado é a qualidade, e tô enxergando isso. hábito se cria mirando baixo pra aumentar os objetivos bem devagar, conforme a gente se acostuma e seguindo o que funciona pra cada um, afinal. também sei que não consigo seguir planejamentos de leitura, e tudo bem, qualquer avanço ainda é um avanço. tô aprendendo a respeitar meu ritmo e olhar pro que realmente importa nesses tempos.

foi massa participar de uma maratona com um tema específico e ver as conversas em torno do assunto, que foram muito além de onde vi começar. tudo o que vi de lá fora valeu pra me fazer pensar na produção literária de autores brasileiros de descendência asiática, também, que acho que não conheço nada. e apesar de não ter conseguido ler os 4 livros que designei pra cada desafio, o que eu li conseguiu preencher tudo: babyji como o livro com um personagem asiático diferente de mim (anamika é estudante do ensino médio e eu tô na faculdade), little fires everywhere como o livro qualquer de uma autora asiática, além de ter sido a leitura conjunta proposta, e otouto no otto como o livro com um personagem com quem posso me identificar (tanto mike quanto eu somos lgbt) e como recomendação de uma pessoa asiática (no caso, de @simoneandherbooks). e ainda fiquei com muitas outras recomendações de pessoas do mundo todo, então valeu muito a pena.

esquema de livros de autoras asiáticas elaborado pelo club de té, uma organização feminista chilena que achei no instagram

de junho a julho vai ter uma maratona brasileira, dessa vez, que coincide de ser a última maratona de que eu tinha participado antes dessas duas recentes: a maratona literária de inverno do canal geek freak (do victor almeida, que antes era do olhos de ressaca). aparentemente a mli desse ano vai ser uma versão 2.0 de uma tal booktubatona, que não sei quando teve a primeira edição mas com certeza esse nome foi inspirado na booktube-a-thon gringa. relendo a postagem de 2017 sobre a edição que eu participei vi que na época usaram o aplicativo amino pra reunir os participantes e promover interações, mas acredito que não vá acontecer o mesmo agora. tudo tá girando muito em torno do instagram, né, e não sei se isso é bom ou ruim. aquele sentimento incômodo de ver "facebook" escrito abaixo do nome do aplicativo quando abro ele no celular. acho que tô deixando minha participação registrada aqui porque sei que posso desistir de ter um perfil lá a qualquer momento, afinal. já sinto que tô perdendo o ritmo de leitura e o interesse em continuar, mas sei que montar listas e planejamentos me anima, então pelo menos isso devo fazer.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Artistonas da zorra (postagem incompleta)

Eu tô pra publicar isso aqui faz uns meses, mas (como faço com tudo que tem grande importância pra mim) eu fui deixando, deixando, já que não me sentia na posição de falar sobre essas coisas do jeito que elas merecem. Mas enfim, tá aqui agora, né.

Dia 1º de abril teve a abertura de uma exposição que vem ocorrendo anualmente desde 2015 na biblioteca da minha cidade, e lá pude comprar algumas coisas de artistas locais cujos trabalhos ficariam exibidos durante o mês. Eu já os admirava bastante pela internet (em especial a Amanda Paschoal e a Isadora Fernandes) e foi muito legal poder fazer isso pessoalmente.

Desenhos de Amanda (esquerda) e Isadora (direita).
Zine da recém criada editora Fim de Feira, com pequenos poemas e histórias de vários autores.
De aniversário ganhei parabéns pra vc sua família amigos & eu, compilação de prints de parabéns no Facebook escritos por Talita Dias, também conhecida pelo alter ego poético cater piem. Encontrei seus vídeos através de um tweet entusiasmado e dali a pouco eu já tava maratonando loucamente todo o conteúdo de seu canal, tumblr e todo o resto de redes sociais onde havia perfis. De alguma forma ela gostou de minhas fotos no Instagram e por aí começamos a conversar, e digo (digito) com um sorriso no rosto que hoje somos amigas virtuais e por isso recebi esse presente haushahs2 (acho que só ela lê esse blog, obrigada amo vc)

Deu uma amassadinha porque o carteiro enfiou de qualquer jeito na caixa de correio.
[aqui a postagem se interrompe. tinha deixado reunido todos os links abaixo sobre/relacionados aos livros e zines em questão. com isso também se encerravam as postagens neste blog de maneira definitiva, ao menos pelo que parecia em 19/10/18, quando tirei isso dos rascunhos pra deixar de sentir angústia com algo que parecia estar me esperando pra ser concluído.]

TOPOGRAFIAS
http://www.vitralizado.com/hq/papo-com-as-autoras-de-topografias-todas-nos-possuimos-uma-certa-inquietacao-na-forma-de-narrar
http://ovelhamag.com/os-universos-das-autoras-de-topografias
http://minasnerds.com.br/2016/07/05/em-topografias-seis-autoras-criam-um-mapa-fantastico-de-seus-universos-particulares
http://collantsemdecote.com.br/as-relacoes-entre-mulheres-no-quadrinho-topografias
https://oquadroeorisco.com.br/2017/07/26/topografias-uma-amostra-do-quadrinho-experimental-feminino-no-brasil/


PRA LER
http://minasnerds.com.br/2016/12/19/vida-e-aqui-singh-bean
https://www.ideafixa.com/post/linha-de-frente
http://www.metropoles.com/vida-e-estilo/comportamento/mulheres-nas-quatro-linhas-cinco-quadrinistas-de-brasilia-para-seguir
https://soundcloud.com/visualmente/48-mulheres-nos-quadrinhos (ouvi até os 44min)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Maratona Literária de Inverno 2017

Fazia muito tempo desde que eu participara de algum desafio de leitura pela última vez, e por isso resolvi que faria a MLI2017. Inicialmente a maratona era do dia 16 ao dia 30 de julho, mas depois acrescentaram quase uma semana para que terminasse dia 5 de agosto (dia que booktubers que eu não acompanho iam fazer uma live pra conversar sobre uma leitura conjunta de que não participei). Fizeram três níveis diferentes – iniciante, intermediário e hardcore – com três desafios cada; escolhi o intermediário e esses foram os livros que encaixei nos desafios:


• livro com a capa azul → Família Schürmann - Um mundo de aventuras (Heloisa Schürmann)
• livro com menos de 200 páginas/livro escrito por uma mulher → Uma duas (Eliane Brum)
• livro que você comprou pela capa → Cyrano de Bergerac (Edmond Rostand)
• livro sem saber a sinopse ou do que se trata/livro nacional → Caminhos cruzados (Érico Veríssimo)

Aproveitei pra usar livros em mais de um desafio porque não quis pegar pesado. (Aliás, não comprei Cyrano de Bergerac só pela capa porque nunca faço isso; reconheci o título quando o encontrei num sebo, descobri que era um clássico francês e decidi adquirir.) Devo dizer que acho meio desanimador essas maratonas e TAGs que têm sempre as mesmas propostas; considerando a única outra maratona de que participei achei essa meio meh, mas ok. Ao todo ficou 1130 páginas, o que daria cerca de 80 páginas por dia se fossem duas semanas de maratona (mas obviamente não consegui seguir uma meta de leitura diária). O resultado desses 20 dias foi o seguinte:

• 5 livros concluídos
• 1022 páginas lidas
• 5 desafios cumpridos

Dos livros que me propus a ler não completei Família Schürmann (faltaram 260 páginas) e dos desafios, o de livro com capa azul. Também li duas coisas pequenas que não estavam na TBR – Sejamos todos feministas (de Chimamanda Ngozi Adichie) e Ou isto ou aquilo (de Cecília Meireles). Usei a comunidade que fizeram no aplicativo Amino para quem estava participando e me desesperou um pouco ver gente lendo 9 livros, 2000 e poucas páginas nesse período... Demorei muito pra conseguir ler o segundo livro e confesso que fiquei triste por não ter sido capaz de me planejar pra fazer tudo o que queria, uma vez que estive estudando na maior parte do tempo (comecei a correr atrás do prejuízo no mês de julho e ainda preciso melhorar na organização). Apesar de qualquer desânimo, isso serviu pra eu aceitar que não tenho mais um ritmo rápido de leitura e que isso não é necessariamente um problema; penso que existe grande competitividade nesses ambientes e sinto que muita gente leva a urgência do mundo globalizado pras leituras também. Vi um vídeo que questiona esse aspecto e concordei com os pontos levantados, sobre os quais eu nem tinha parado pra pensar.

Quanto aos livros da TBR, esta é minha opinião sobre eles:

• Uma duas trata do relacionamento nada saudável entre uma mãe e uma filha, que acabam se sobrepondo à medida que se aprofunda na narrativa – "Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre." A história é muito intensa, extremamente visceral e assustadora, com certeza passando longe de qualquer comparação enquanto me forçava a continuar pra fazer aquilo tudo passar de uma vez. Achei incrível, fiquei pensando em muita coisa e cuidando pra não cair em buracos cavados na minha mente pelos assuntos tocados.
• Caminhos cruzados começou me fazendo sentir um sono absurdo sempre que tentava ler por mais de cinco minutos. Não sei em que momento exato a coisa engatou, mas me encantei com a construção da história abordando tantos núcleos diferentes, cada um com sua perspectiva e seus rumos que se trombavam e expunham tantas críticas que continuam atuais. Achei muito engenhoso esse tipo de narrativa e gostei bastante do final, embora não seja um "final".
• Cyrano de Bergerac também me surpreendeu com um humor agradável, um belo lirismo e um ótimo desenrolar da história. É um verdadeiro herói romântico que, para bem além de seu nariz, tem um grande espírito e não hesita em se sacrificar pela felicidade de outros. Tudo encaixa muito bem, gostei bastante dos personagens e das rimas (apesar de não ter costume de ler teatro). E não sabia que o protagonista tinha existido de verdade!

No mais, foi legal poder me sentir parte de alguma coisa bacaninha. Pude encerrar bem a experiência com o Kindle Unlimited, adiantar um dos livros da lista de leitura dos vestibulares que vou fazer e diminuir a lista de livros na estante que ainda não li (Cyrano tava esquecido aqui há anos, por sinal). Gostei de interagir com tanta gente que gosta de ler e foi até que bem divertido. Gostaria de fazer mais coisas pra dar incentivo à leitura, o que nunca é ruim.

É isso, fim.

sábado, 15 de julho de 2017

eBooks e etc

(14/07. Mundo de tinta é gratuito e não li.)
Há algum tempo atrás adquiri o Kindle Unlimited da Amazon e desde então tenho lido vários livros digitais, em sua maioria curtos, já que não sou tão acostumada a ler pelo celular. Dia 21 acaba a promoção que tô usando e reuni opiniões sobre minhas leituras pra deixar registrado aqui e, quem sabe, ser útil pra alguém. (Aqui falei brevemente sobre o primeiro eBook que emprestei.)

Uma das primeiras coisas que li foi salt, de Nayyirah Waheed. São poemas curtos e muito impactantes sobre uma variedade de temas, mas principalmente racismo, autoimagem e feminismo. São simples e diretos como socos no estômago, tendo essa dualidade de serem agressivos apesar de delicados e serem difíceis de engolir mesmo sendo fáceis de ler (penso que na mesma linha dos poemas de Rupi Kaur, que tem sido popular por esses tempos). Gostei de tantos que não consigo ficar sem compartilhar alguns:

there
are feelings.
you haven't felt yet.
give them time.
they are almost here.
– fresh
racism is a translucent skin.
it defends itself
by
attacking itself.
– reverse racism
i lost a whole continent.
a whole continent from my memory.
unlike all other hyphenated americans
my hyphen is made of blood. feces. bone.
when africa says hello
my mouth is a heartbreak.
because i have nothing in my tongue
to answer her.
i do not know how to say hello to my mother.
– african american ii
for me
there is no other.
because there is no default.
everyone
is
a variation of life.
– the human being | the human gender | the human sex

Depois, explorando um canal do YouTube por causa de um tweet, cheguei a um vídeo sobre despedidas que achei muito massa. Em um momento o cara comenta sobre um livro de contos que escreveu com várias outras pessoas chamado Destino e resolvi ler – todos abordam esse tema, alguns são mais breves e outros se desenvolvem bastante, tendo até mesmo realismo fantástico. Gostei mais dos primeiros mas achei bacana a ideia e foi uma leitura leve.

A verdade é que talvez, mas só talvez, haja milhões de maneiras certas e esses fios vermelhos estejam nos amarrando a todos e a qualquer um.
Minha dor não é e nunca foi inútil. (...) talvez, pela minha própria dor, eu possa ter encontrado um pedacinho do meu ser.

Também li Os meninos morenos, do Ziraldo. São memórias de sua infância despertadas após uma viagem à Guatemala, onde conheceu o poeta de origem maia Humberto Ak'abal (que tem alguns poemas inseridos no livro também) – sua poesia trata de seu pueblo e dos meninos cuja identidade tanto se assemelha aos meninos de Ziraldo, além de que são "filhos da mesma floresta". Foi uma leitura bastante agradável: pequenos trechos, desenhos e poemas que quase sempre puxam um sorrisinho. Bastante simples e curto mas, como fez salt, dá brecha a vários pensamentos que perduram. Abaixo vários trechos.

Foi cheia de adjetivos inadequados a noite que está na minha memória com todos os seus detalhes: o cerimonial do nascimento do meu segundo irmão. Mesmo assim continuei, por muito tempo, acreditando que as crianças chegavam à vida trazidas no bico de uma cegonha. Até o dia em que, diante de alguém tentando me contar mais uma vez a velha história, ouvi meu estabanado avô berrar: "Que cegonha, coisa nenhuma! Conta a verdade  pro menino! No país que tem passarinho de tudo quanto é jeito voando nessas matas, o povo vem inventar uma desgraça duma ave que nunca voou por aqui!". Eu perguntei, então, que passarinho era o portador dos bebês. O velho ferreiro berrou mais alto: "O passarinho é o que entrou na barriga da sua mãe, sô, um homem dest'amanho!".
Todas as comidas feitas de véspera, as camas desfeitas, a casa sem varrer, nem brincar, nem falar alto, ruído nenhum. Qualquer barulho aumentaria a dor nas chagas de Cristo. Era sexta-feira da Paixão e meu pai, cedinho, nos acordava e, bem baixinho, explicava pra gente como devíamos agir naquele dia e dissertava sobre o que era respeito, e a gente achava sensacional o desafio de ficar quietinho um dia inteiro.
A gente não estudava. Não tinha tempo. A gente brincava. Quando chegava, porém, a época das provas, tome angústia. A noite inteira acordado, o abajur aceso sobre o livro de Ciências, a lista dos pontos, os pés dentro de uma bacia de água para não dormir (como fazia Machado de Assis, coisa que a gente aprendeu lendo e não estudando).

Singh Bean cita Cartas a um jovem poeta (de Rainer Maria Rilke) em Život je tady, que li há pouco tempo, e peguei pra ler pois vi que era um livro disponível no Kindle Unlimited. É composto por conselhos em forma de correspondências para Franz Kappus, jovem que aspira à profissão artística e pede orientação do escritor, que discorre sobre solidão, tristeza, amor, deus, arte e etc. Achei muitas coisas bastante inspiradoras e interessantes, embora algumas vezes tenha tido que reler trechos pra fazer passar a sensação de "cê tá se achando o sabedor de tudo, não é bem assim" (compreendendo melhor acabava até que concordando).

As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou.
Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Se Ele é o mais perfeito, não deve ter havido algo menor antes d'Ele para que Ele se pudesse escolher a si mesmo dentro da plenitude e abundância? Não deverá ser Ele o último, para encerrar tudo em si? Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse sido?
Sua dúvida por tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora. talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.

O eBook tem duas partes, na verdade, e a segunda chama-se A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. É uma pequena história protagonizada por esse jovem, em algum momento do século XVII, a serviço de uma cavalaria austríaca; ele se envolve brevemente com uma condessa no castelo onde se hospedam, acontece um incêndio do lado de fora e ele acaba morrendo (não é spoiler se tá no título, né?).

As altas chamas tremulavam, as vozes estrugiam, confusas canções jorravam dos cristais e das luzes; e finalmente dos ritmos amadurecidos brotou a dança. E a todos arrastou. Era um bater de vagas pela sala – um encontrar-se e um escolher-se, um despedir-se e um reencontrar-se, um embriagar-se de brilho e um cegar-se de luz, e um embalar-se no vento estival que mora nas roupagens das cálidas mulheres.
A câmara da torre está apagada. Mas eles iluminam seus rostos com sorrisos. Tateiam diante de si como cegos e encontram o outro como uma porta. Quase como crianças assustadas diante da noite, apertam-se um ao outro. No entanto nada temem. Não há nada contra eles: nenhum ontem e nenhum amanhã, pois o tempo se desmoronou. E eles florescem das suas próprias ruínas.

Também li Mayombe, de Pepetela, e gostei demais. A história se desenvolve durante a guerra de independência da Angola contra Portugal, tendo como personagens os guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Todos têm apelidos de acordo com sua personalidade e/ou atitudes: Sem Medo é o comandante muito valente, Mundo Novo é bem estudado nas tendências europeias marxistas, Milagre é o melhor bazukeiro, Teoria é o professor do grupo e assim por diante. O livro é muito real, mostrando o cotidiano dos que faziam a luta revolucionária, bem como seus sentimentos, reflexões, contradições e conflitos – coisa que recebeu até críticas na época que foi lançado, já que exibia suas falhas e divisões internas, uma vez que o tribalismo continuava tendo voz. Cada pessoa tem sua razão para estar ali e isso fica claro nos trechos onde personagens tomam frente da narrativa, já que através desse recurso conhecemos a origem e as experiências de diferentes elementos do movimento. O que mais se destaca é Sem Medo, que tece a história com muitos ideais interessantíssimos à medida que conta sua jornada, aconselha seu companheiro Comissário e gerencia a frente libertadora. Esse vídeo é um ótimo complemento.

Os guerrilheiros encavalitaram-se num enorme tronco caído. Deixara de respirar, monstro decepado, e os ramos cortados juncavam o solo. Depois de a serra lhe cortar o fluxo vital, os machados tinham vindo separar as pernas, os braços, os pelos; ali estava, lívido na sua pele branca, o gigante que antes travava o vento e enviava desafios às nuvens. Imóvel mas digno. Na sua agonia, arrastara os rebentos, os arbustos, as lianas, e seu ronco de morte fizera tremer o Mayombe, fizera calar os gorilas e os leopardos.
— (...) As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar.
— (...) Isso é que me enraivece. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nosso desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las connosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus.

Depois foi a vez de Viagem solitária, de João W. Nery, que eu nem esperava que tivesse no Kindle Unlimited. É uma autobiografia do primeiro homem trans brasileiro de que se teve notícia, narrando as angústias presentes desde a infância pela incompatibilidade que sua mente encontrava em seu corpo. Ele percorre por todos os pontos que construíram sua jornada – o bullying, a depressão, os relacionamentos, a autoafirmação, as cirurgias, o recomeço, a paternidade –, bem como vários nomes que tiveram algum impacto em sua vida. Pelo que parece é uma espécie de atualização/complemento de sua primeira obra, Erro de pessoa: Joana ou João?, publicada em 1984. Pra citar Simone Ávila, que no final do livro fala um pouco sobre o autor: Ele se pergunta: "em que grupo existente eu me enquadraria?". Ou, dito de outro modo, "quem inventou essa coisa de que temos de nos enquadrar no que já existe?!? Por que não podemos simplesmente ser o que queremos ou quisermos?!? Por que eu tenho de seguir normas que não são minhas?!?" É doloroso pensar no tanto de pessoas incompreendidas que precisaram encarar tanto sofrimento numa época de repressão onde ainda faltava muito avanço, e ainda há um longo caminho a se percorrer nos dias de hoje.

"Você nasce e morre dentro de caixas. Caixa da família, da escola, do casamento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você já é estigmatizado. Tem que ter muita estrutura para segurar a peteca da marginalidade."
Quando sentia medo, pelo menos pressupunha um objeto, uma ameaça, algo que eu pudesse de algum modo contornar ou dele fugir. Porém, nessa angústia nada me ameaçava claramente. Não havia um objeto a ser enfrentado para prosseguir minha estranha caminhada existencial. Percebi, então, que o "sem sentido" e o "sem valor" da minha angústia me tornavam um estrangeiro nesse mundo tão cheio de categorias. A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir.
Depois de lhe contar a última com meus amigos trans, sobre o homem grávido, perguntei a opinião dele. Respondeu sem pestanejar:
— Acho que precisamos ser mais tolerantes.

Frigg tecendo as nuvens (John Charles Dollman, 1909)
Então li Edda em prosa - Gylfaginning e Skáldskaparmál, de Snorri Sturluson, escrito por volta de 1220. Esse cara foi famoso por defender a ideia de que os deuses mitológicos surgiram através de reis e figuras históricas que eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e os relaciona com personalidades troianas e com o cristianismo. Tem de tudo sobre mitologia nórdica, com muitos detalhes e ilustrações. Gostei mais da primeira parte, que se traduz como "a ilusão de Gylfi" e se concentra mais nas proezas de deuses e outros personagens, enquanto que a outra ("poesia dos escaldos") se demora em metáforas e trechos de diferentes poetas sobre elas. Acho engraçado como mitologias sempre têm elementos absurdos, e alguns deles me chamaram a atenção neste livro – de um bloco de gelo lambido por uma vaca surge o homem que viria a ser avô de Odin; Heimdallr é filho de nove damas, todas irmãs; Loki deu à luz a um potro após se transformar em égua e ter certas relações com um cavalo... Mas é muito legal lembrar de coisas que fazem referência às diversas histórias e nomes: O Anel dos Nibelungos (ópera alemã), nomes de anões de O Senhor dos Anéis, crenças dos personagens de Vikings (seriado do History), o "feitiço"/espada Brisingr (livro de Christopher Paolini) e Gjallarhorn (banda finlandesa que fala sueco). Sempre gosto de saber sobre isso e foi uma leitura válida, além de ter sido a primeira coisa islandesa que eu leio, provavelmente (considerando que admiro muito esse país).

Há uma terceira coisa sobre a terra: quando sua superfície é revirada e desenterrada, a grama cresce no solo. Montanhas e rochedos foram associados aos dentes e ossos de criaturas vivas, e assim eles viam a terra de alguma forma como um ser com vida própria. Eles sabiam que era inconcebivelmente antiga em idade, e por natureza, poderosa; ela deu origem a todas as coisas e possuía tudo o que morria, e por isso deram-lhe um nome e reconheceram sua descendência dela.

Por último, ainda vou ler Uma duas (de Eliane Brum), mas isso é assunto pra outra postagem.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Brilho temporário de uma mente quase sem lembranças

Enquanto escrevia sobre o curso técnico fiquei pensando a respeito da vida útil de minhas memórias, que considero mais curta do que deveria ser (tão curta que não percebi que usei exatamente a mesma frase no final da última postagem, mas finge que tá beleza). Tô tentando registrar mais as coisas que acontecem pra que eu não esqueça delas ou, pelo menos, possa ter por onde "ativar" suas lembranças. Por isso tô aqui (apesar de me incomodar com o jeito que as coisas ficam quando tô escrevendo desse jeito).

Em janeiro comecei a ler Roverandom (do Tolkien) mas não me fixei muito à leitura, apesar de ser agradável, e acabou que a primeira coisa que li foi Claro enigma, do Drummond. Gostei bastante dos poemas; já tinha lido outros livros dele – dos quais, naturalmente, já não me lembro muito¹ – e sabia da simpatia por sua escrita, pelo menos. Anotei vários (abaixo tem um trecho de um deles). A questão é: eu não sou de ler poesia com frequência porque dificilmente consigo me concentrar e/ou compreender, e inclusive quero ler mais, mas gosto muito de quando são recitados como nos vídeos do Button Poetry, da Dottie James ou no estilo cater piem (s2).

O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.

Depois li A solidão dos números primos, de Paolo Giordano, livro que tava na minha lista só por causa do título, que me soou interessante, e da capa (à esquerda), que achei bem bonita. É sobre um casal de colegas, cada um marcado de alguma forma, que compartilham essa espécie de solidão. A história não me pareceu muito excepcional; tudo tem uma atmosfera meio "suspensa" e, apesar de várias coisas acontecerem, não me fisguei muito. (Trecho a seguir.)

Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos mas não o bastante para se tocar de verdade. Ele nunca dissera isso a ela. Quando imaginava confessar-lhe essas coisas, a sutil camada de suor das suas mãos evaporava completamente, e durante longos dez minutos não era mais capaz de tocar nenhum objeto.

As meninas, de Lygia Fagundes Telles, foi o que se seguiu. De novo encontrei dificuldade em manter um ritmo de leitura, mas dessa vez a narrativa me atraiu bastante. Tem essas três amigas, extremamente diferentes entre si, e cada hora a história é contada sob a perspectiva de uma delas – uma estuda direito e vive em seu mundinho de sonhos, outra é militante comunista e tá sempre envolvida em suas causas e a outra é viciada em drogas. É um título muito relevante tanto no contexto da ditadura militar quanto na questão feminista; o final me pegou de surpresa mas pensando agora me parece adequado à autora, de quem já li vários contos. Curti a leitura – aqui uma citação de "Lião".

— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera, mas com o sexo do próximo? Cuide do seu próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul. A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.

Ted Hugues, o então marido de Sylvia.
Mais recentemente assinei o Kindle Unlimited da Amazon, porque me ofereceram uma promoção muito massa e só assim pra eu gastar algum dinheiro sem ter mil receios. Li um pequeno eBook, Desenhos, que trata um pouco da parte artística da Sylvia Plath. Bem bonitas suas ilustrações (abaixo). Outro dia tentei ler Entrevista com o vampiro, de Anne Rice, mas já tava saturada de vampiros (mais pra frente na postagem dá pra entender o porquê); depois ia começar Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, mas com isso do Kindle deixei pra mais tarde. Atualmente tô tentando ler Mayombe, de Pepetela, que tava na lista de leitura de 2016 da Fuvest (não sou muito fã de livros digitais). 

Uma vaca descansando no pasto.







                                                                       
Vi séries e filmes, também. Nunca consegui acompanhar séries porque meu entusiasmo nesse assunto dura pouquíssimo tempo; se eu não consigo assistir tudo em alguns dias já desanimo e deixo de lado. Mas esse ano consegui ver uns episódios de Black Mirror que me recomendaram; Stranger Things; a primeira temporada de Mr. Robot e de Avatar - The Last Airbender (sim) e, pela primeira vez na vida, dois terços de How I Met Your Mother – mas só porque vi as 4 primeiras temporadas em 4 dias. Gostei praticamente de tudo, foi bacana imergir em várias histórias diferentes e pelo menos rende mais que minhas leituras, né. Ainda pretendo continuar Mr. Robot e terminar HIMYM e tenho uma lista grandona de interesses em outras séries, mas vamos devagar com isso.

Quanto a filmes, tô vendo até que bastante (comparado ao pouco que conseguia assistir quando me ocupava com ensino médio e curso técnico). Cuidado que lá vem um monte de comentários breves sobre um bocado de longas-metragens: vi The Lobster, filme bastante inusitado sobre um futuro onde é proibido que as pessoas fiquem solteiras, se não quiserem ser transformadas em animais; Waking life, uma enorme conversa sobre sonhos e estados da consciência movida por discussões filosóficas e religiosas (preciso ver várias vezes pra ir tirando as coisas aos poucos); Estômago, filme muito massa (piada não intencional aqui) sobre um cozinheiro e seus caminhos até parar na prisão; Arrival, um filme de alienígenas (baseado num conto premiado) com uma perspectiva diferente dos demais, tratando de comunicação e do conceito de tempo de uma forma muito legal – e com uma trilha sonora lindona; Moonlight, que ganhou o último Oscar de melhor filme e conta uma história de autoconhecimento e amor num cenário caracterizado por retratos focados em estigmas; Lavoura arcaica, narrativa muito doida e de linguagem poética sobre uma família, os conflitos causados a partir da fuga de um dos filhos e o que o levou a isso (baseado no livro de Raduan Nassar); Nise - O Coração da Loucura, sobre a incrível psiquiatra que lutou pra mudar os caminhos do tratamento de transtornos mentais no Brasil; A monster calls, filme demais de triste sobre um enorme teixo que desperta para ajudar um garoto a passar pelas dificuldades de sua vida (baseado no livro de Patrick Ness); Room, história muito tocante sobre um menininho e sua mãe, que moram por muito tempo num quarto que na verdade é seu cativeiro; Comet, filme que salta entre momentos de um relacionamento de 6 anos para contar sua progressão e regressão; Freeheld, baseado num documentário homônimo que conta a luta pelo reconhecimento da união de duas mulheres nos EUA no começo dos anos 2000; e, enfim, Big Hero 6, animação muito legal (que infelizmente demorei pra ver) sobre uma relação entre dois irmãos, robôs e jovens gênios que acabam virando heróis.

A alienígena mais bonita do universo.
Além desses, vi outros filmes que não tenho muito o que dizer sobre. Vi Moana no cinema com meus primos, bem bonitinho e tal mas não achei "tudo isso" que falaram; Mulan, porque pensava que nunca tinha assistido a ele todo, mas provavelmente ter visto tantos pedaços soltos fez com que eu não aproveitasse tanto; Atlantis - The Lost Empire, que eu queria ver há muito tempo porque passava um trailer do filme antes de algum DVD que eu tenho (gostei mas também não me surpreendeu); Persepolis, cuja HQ li há anos atrás, e que também não foi "aquelas coisas" porque sei lá, é só sobre a vida dela (ok que tem um pano de fundo pesado, mas tirei mais da leitura que do filme); reassisti La Vie d'Àdele, apesar de ser um filme que não acrescenta muito, mas dessa vez captei umas coisas diferentes da primeira vez que vi; reassisti Avatar (Neytiri ali em cima), que mesmo tendo assistido inúmeras vezes numa semana que tive Telecine liberado há anos atrás, gosto muito e nunca me canso; The Secret of Kells, uma animação que me chamou atenção só porque ano passado vi Song of the Sea (do mesmo estúdio/diretor) e gostei demais, mas não aconteceu nem perto do mesmo com essa; e, por fim, Treasure Planet, que também tinha um trailer no comecinho de algum DVD e é adaptação de A Ilha do Tesouro, livro de Robert Louis Stevenson que nunca consegui ler (achei o filme bacana).

Sinceramente...
Também reassisti os filmes da Twilight Saga, porque sou besta – reuni vários livros pra vender/doar e quando peguei os da minha quase-xará fiquei nostálgica e resolvi fazer essa maratona. Meu primeiro contato com os vampiros reluzentes foi através de uma prima muito leitora; ela é bem mais velha que eu mas se empolgou muito quando leu e saíram os filmes e me indicou fortemente. Li todos os livros duas vezes quando era mais nova, ganhei um box de diáriozinhos da saga de presente dessa prima, vi alguns filmes no cinema com minha mãe e uma amiga, imprimi o Sol da Meia-Noite que vazou na internet, comprei revistas especiais sobre a história (#TeamEdward)... Foi uma parte muito grande da minha vida e, mesmo reconhecendo a mediocridade disso tudo, não consigo me desapegar das lembranças e sentimentos bons. Depois de rever os filmes fiz uma pequena crítica: Twilight é terrível, praticamente tudo é bem bostinha e os efeitos/montagens dão agonia; New Moon já começa mostrando que a produção tá muito melhor, as cores são bonitas e as pessoas mais convincentes, mas não entendo como uma pessoa possivelmente pode causar tantos acidentes a si mesma como a Bella; Eclipse é bacana por ter alguma ação mas tem sempre aquilo de não acontecer as coisas direito; Breaking Dawn dá umas agonias também – o que dizer sobre aquele Rio de Janeiro mega carnavalesco, sobre o português do Edward e MEU DEUS AQUELE BEBÊ RIDÍCULO, mas a Bella fica bonitona (eu esqueci que tudo o que acontece era só uma visão da Alice e fiquei muito indignada, mas tudo bem). Fiquei pensando em várias coisas: na falta de representatividade; por que nenhum vampiro tem cabelo colorido?; considerando que vampiros são praticamente mortos, como diabos o rapaz vai ser capaz de engravidar a coitada?; incrível eles terem relacionamentos monogâmicos em mais de 100 anos de "pós-vida"; até onde será que iria o amor eterno?; o cara viveu mais de um século e não desapegou das ideias conservadoras dele, véi; será que os lobos guardavam trocas de roupas enterradas pelos cantos pra quando precisassem se vestir depois de se destransformarem?; tivesse um pouquinho de amor livre ali e resolvia-se o impasse do triângulo amoroso; a pessoa tava mortinha daí de repente aparece vampiruda e ninguém ficou nem um pouquinho emocionado?... Mas enfim, acho que o que mais me marcou ao decorrer disso tudo foi a trilha sonora dos três primeiros filmes (Breaking Dawn só tem coisa melosa) – eu gosto demais das músicas escolhidas, quase de todas, e algumas bandas/cantores conheci graças a isso e ouço até hoje.

O último filme que vi foi Only Lovers Left Alive, que discute, a partir desse casal de vampiros, impressões opostas e complementares acerca da existência, algo meio yin e yang. É bem diferente de qualquer outro filme vampiresco que já vi e a trilha sonora é ótima, por sinal.

Uma parte que gostei.
Acho que falei tudo o que tinha pra anotar, deu mais coisa do que eu esperava. Valeu pra você que leu, um beijo na bunda e até segunda~ (mentira, mas achei engraçado essa frase que ouvi da minha tia)

¹ Em abril de 2014, escrevi o seguinte:
Ontem eu terminei minha leitura de A rosa do povo, do Drummond. As poesias foram escritas entre 1943 e 1945, nos anos decisivos da Segunda Guerra Mundial². É notável a forma que o poeta se expressou diante todo aquele conflito, mostrando a indignação, o medo, a tristeza, a dor de saber que enquanto estava a salvo bem aqui na América, do outro lado do oceano haviam milhares de pessoas sofrendo e morrendo. Os poemas são recheados com melancolia, sentimento de inutilidade, sentimentos humanos... a visão de alguém assistindo àquele show macabro sem poder interferir.

² Acompanhando tinha um comentário sobre outra obra que trata desse momento histórico:
Hoje li Maus, de Art Spiegelman, uma HQ que conta a história do holocausto através das vivências do pai do próprio autor. De uma perspectiva de alguém de fora, passei para a perspectiva de alguém que viveu tudo aquilo e sobreviveu para contar a história. Alemães são retratados como gatos e os judeus, como ratos. Imaginar que todos os episódios retratados aconteceram de fato é se chocar ainda mais, é temer, é se envergonhar por reclamar tanto da vida que levamos. É ter um exemplo literal de como o ser humano pode ser desumano.