sexta-feira, 13 de novembro de 2020

ainda aqui

não sei se em algum momento de abril pra cá eu realmente consegui retomar o hábito de ler regularmente, mas ter perdido o ritmo assim que as maratonas literárias foram ficando maiores e mais espaçadas não foi surpresa nenhuma. mesmo os livros remanescentes da asian readathon, de maio, foram ficando de lado; eu sou malala ainda me interessa, então ainda quero terminar (tá indo pra seis meses que não toco nesse livro, mas tudo bem), só que judas não vi muito sentido em continuar lendo, então preferi desistir e deixar espaço pra leituras que realmente quero fazer. durante junho, por causa do material movimentado com os protestos antirracistas, comecei a ler sister outsider: essays and speeches, de audre lorde, e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça, de reni eddo-lodge. o primeiro ainda tô lendo e o segundo só fui terminar em agosto, mas já entendi que preciso e prefiro ler essas coisas devagar mesmo, pra tomar o tempo de reflexão que isso merece e pra digerir melhor. de qualquer forma, já que sempre que tenho algo chato pra fazer eu invento "missõezinhas" que eu me sinto obrigada a terminar até não sobrar nada pra onde fugir, vim aqui deixar registrado o restante das maratonas de que participei nesse ano.

maratona literária de inverno (booktubatona)

livros da pretatona que encaixei na mli
dia 20 de junho começou a maratona literária de inverno que já comentei anteriormente, a tal booktubatona, e ela foi até dia 4 de julho. pensava que iam usar bastante o instagram, mas em vez disso foi o twitter; teve muita interação por lá, com sprints de leitura, lives e sorteios todo dia. não sei se por ter sido assim movimentadíssimo, por não me identificar com os booktubers, por estar desanimada ou por tudo isso junto, mas não fui capaz de ler quase nada nas duas semanas da maratona; li só um dos contos YA que baixei gratuitamente por causa do mês do orgulho LGBT e uma novela que já tinha baixado (pirata) por outro motivo. o conto se chama a primeira vez de natan & lino e é de henri b. neto, que é um booktuber também. vi vários defeitos, me incomodei com a escrita, não me cativei com a história; por fim admiti que esse gênero literário não é pra mim. a novela, the deep, foi o contrário, pelo menos; achei muito especial a maneira de falar sobre trauma, memória e resistência através de um povo que vive nas profundezas do oceano, descendente das mulheres africanas jogadas dos navios que traficavam escravos. bem interessante o fato de que a própria história foi construída pelo encontro de diferentes perspectivas, pela recriação a partir de outras vozes – quem escreveu foi rivers solomon, inspirade em uma música com o mesmo nome do grupo musical clipping., de daveed diggs, william hutson e jonathan snipes, que por sua vez se inspiraram num álbum da dupla de música eletrônica drexciya. mas voltando à maratona: ela tinha 27 desafios possíveis, cada um proposto por um booktuber, e the deep correspondia a dois (livro recomendado por um booktuber – acho que foi seji – e livro em outra língua). a primeira vez de natan & lino nem tinha sido planejado, mas acabou servindo pra um monte: livro LGBTQIA+ lançado nos últimos 4 anos, livro de um gênero que você não lê com frequência, livro que faz parte de uma série, livro nacional de um autor LGBTQIA+ e livro nacional de autor independente ou de editora pequena. eu tinha encaixado sister outsider e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça em alguns desafios também, pra tentar avançar na leitura, mas obviamente não rolou.

pretatona

outros livros escolhidos pra pretatona
de 23 de junho a 30 de julho teve a pretatona, criada pelo clã das pretas (instagram) nesse contexto do debate antirracista pra promover a leitura de histórias negras escritas por pessoas negras. cada semana tinha um genêro literário diferente como proposta de leitura, além da recomendação de um filme/documentário dentro da temática, e na verdade eu parti dela pra escolher the deep, que correspondia à primeira semana e coincidiu com a mli: ficção especulativa (fantasia, ficção científica e terror/horror). o tema da segunda semana era nacional (se possível, priorizando norte/nordeste), e li vozes negras, de amanda condasi, flor, priscila, isa souza, maria ferreira e pétala souza – dos 4 contos do livro, me chamaram a atenção "carimbos e memórias" (de flor, priscila) e "não existem sinônimos suficientes para futuro" (de isa souza e pétala souza). o primeiro fala sobre o sonho de escrever histórias e viajar o mundo de glória maria, que escreve um poema lindo onde noémia de sousa, carolina maria de jesus e maya angelou são referências; o segundo é uma história de ficção científica bizarramente próxima da realidade atual, onde a pandemia de um vírus e o isolamento decorrente escancaram políticas de controle e segregação. na terceira semana o tema era young adult, pro que escolhi dois garotos num navio, de slaeff, um conto curtinho onde sonho e realidade se confundem e o naufrágio do titanic representa uma perda tão grandiosa quanto. na quarta era quadrinho, e finalmente li angola janga, de marcelo d'salete, que emprestei da biblioteca no último dia de aulas presenciais, lá em março (fiquei enrolando porque não queria ficar sem, mas ler durante a pretatona foi especial – e se eu tivesse lido antes não teria um livro pra preencher essa categoria, né). grande quadrinho contando uma história de palmares, de tantas possíveis: as picadas pra pequena angola, o acordo e a queda de cucaú, a liderança de zumbi, o anguêri branco, a permanência dos quilombos... mais de uma década de pesquisa do autor, que também escreveu histórias de resistência negra no brasil colonial em cumbe, que li no começo do ano na casa de thiago. depois teve literaturas africanas, pro qual escolhi hibisco roxo, de chimamanda ngozi adichie, que me surpreendeu demais, me tocou demais. muito forte, sensível e de uma escrita maravilhosa, e ainda por cima leitores brasileiros podem se identificar com os temas de colonialismo e cristianismo... tudo isso com o pano de fundo de um golpe militar, também. tinha um desafio extra, que podia ser não-ficção ou infantil – achei mais fácil preencher não-ficção e li pequeno manual antirracista, de djamila ribeiro, que é conciso mas muito completo, tratando dos diferentes âmbitos atravessados pelo racismo e dando orientações de como tomar atitudes antirracistas diantes deles. um grande material de consulta, também, cheio de referências a escritores negros e trabalhos importantes, sendo leitura fundamental pra introduzir essas discussões. gostei bastante de participar, e ainda tenho vontade de ver os filmes e documentários recomendados pra cada tema – branco sai, preto fica; café com canela; o ódio que você semeia; homem-aranha no aranhaverso (esse já vi!); rafiki (lembro de descobrir esse quando procurava filmes lésbicos produzidos fora do eixo eua-europa pra passar na escola de inglês onde eu trabalhei; assisti em agosto, achei muito doce e, ao mesmo tempo, muito triste); a 13ª emenda (já vi também, pesadíssimo); e cada um na sua casa. muitas indicações pra consulta, também.

intersecção de pretatona e reading rush, agora
the reading rush

a edição de 2020 da reading rush foi de 20 a 26 de julho, e de novo aproveitei o que já tava escolhido pra pretatona: coloquei pequeno manual antirracista e hibisco roxo nos desafios um livro de um gênero que te dá medo ou do gênero que você menos lê e um livro que se passa num continente diferente do seu, respectivamente (leio pouco não-ficção e hibisco roxo se passa na nigéria). os outros eram um livro cuja capa combine com a cor da pedra do seu signo, um livro que comece com "o"/"a" ("the"), um livro que inspirou um filme que você viu, o primeiro livro que você tocar e ler um livro completamente "não em casa". tentei combinar o máximo que eu pude, então usei the ones who walk away from omelas, de ursula k. le guin, pra três (foi o papelzinho que eu peguei num sorteio entre três livros que começavam com "the", e por ser um conto pude ler ele inteiro estando no quintal); o livro consegue ser super impactante em poucas páginas, daquelas histórias que vão muito além da experiência de leitura e que reverberam nos pensamentos por muito tempo. pros outros desafios dois não teve jeito: coloquei por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (de novo) nesse da pedra do signo, porque a pedra de abril é diamante e esse livro tem uma capa branca/limpa, e howl's moving castle, de diana wynne jones no da adaptação pra filme, porque era a única coisa que eu tinha comigo e se encaixava. mas no fim não consegui ler nenhum deles e tudo bem, acho que não tem como forçar certas coisas só por causa de uma "maratona", né. vi umas postagens questionando esse ritmo de leitura acelerado, que é mais um desdobramento do sistema em que a gente vive, e acho massa repensar isso também. tô lendo howl's moving castle agora, na verdade, e tô sentindo uma sensação tão gostosinha, de um jeito que nunca mais tive com livro nenhum, que tô até indo devagar de propósito.

esforço mínimo em desafios? temos
o que a reading rush tem são desafios fotográficos, e dos sete participei de três: recriar a capa de um livro, fazer cosplay de um personagem literário e tirar foto da minha leitura atual com um animal de estimação. pro primeiro achei esse livro de joão ubaldo que tem uma capa muito parecida com as paredes externas daqui de casa: tijolinhos e concreto rachado. não foi bem uma criação, né, só aproveitei o que já tinha, mas ok. pro segundo mirei baixo, porque não tinha como ser muito elaborado: me vesti de u-235, personagem de ing lee em cápsula, que li lá na reading rush de abril (usar essas roupas é bem comum pra mim). no último dia da maratona deu umas tretas de ariel e raeleen não terem feito a leitura pro clube do livro e terem mudado a discussão sobre ele pra um q&a aleatório, sendo que o livro era exatamente sobre performative allyship, além de terem deixado o desafio de ler fora de casa sendo que o mundo tá no meio de uma pandemia... uma bosta, realmente, e espero ações melhores delas pra realmente mudar, não só prometer. mas o que ia falar é que no meio disso tudo vi gente falando sobre pessoas brancas terem representado/vencido o desafio de cosplay se vestindo de personagens de cor, o que é claramente problemático, e fiquei pensando se foi errado eu me vestir de uma personagem asiático-brasileira. não mostrei minha cara e não ganhei nada, pelo menos, nem nunca tive a pretensão de receber atenção (apesar de ing lee ter visto, comentado e compartilhado feliz). foda, né. pro último desafio tirei foto de elvira (não tenho pet, mas compartilhamos a casa) dormindo na cadeira, junto com pequeno manual antirracista, e fim. os outros desafios eram menos interessantes pra mim, tipo fotografar uma pilha de livros ou meu "combustível de leitura" (comidas ou bebidas). mas foi legal ver a participação dos outros.



depois de julho só teve mais uma maratona legal: a fortnight frights, durante as duas últimas semanas (por isso fortnight) de outubro, organizada por seji do the artisan geek. a proposta era ler horror e gêneros relacionados, em preparação pro halloween, mas de forma mais diversificada e inclusiva. tinha um bingo com 16 desafios, dos quais você podia combinar 2 em uma leitura só ou então tentar completar tudo, e ao longo da maratona teve discussões de alguns livros selecionados e sessões de cinema. eu até baixei dois dos livros que teriam discussões, the year of the witching, de alexis henderson (escrito por um/a autor/a negro/a) e the only good indians, de stephen graham jones (escrito por um/a autor/a indígena), mas só li um pouquinho do primeiro e não consegui acompanhar nada. a própria seji teve dificuldades de cumprir as propostas que tinha, porque uma amiga dela faleceu :( mas gosto tanto do conteúdo dela, vou ficar atenta às próximas coisas que ela faz.

acho que tá bom de maratona pra quem nunca mais tinha participado de nada, né. não sei de mais nenhuma e também não tô em condições de arrumar mais coisas pra cabeça a essa altura do campeonato, com inúmeros trabalhos atrasados e seis disciplinas pra equilibrar. percebo que maratonas com temas mais bem definidos (como a maratona de literatura asiática, a pretatona e a fortnight frights) fazem mais sentido pra mim, e felizmente divido a casa com gente que tem livros o suficiente pra compor várias listas de leitura, além de que agora tenho a praticidade de um leitor digital onde posso colocar meus ebooks piratas. sempre que penso em comprar livros (alô festa do livro da usp) percebo que não faz sentido, tendo tantos à disposição e podendo emprestar das inúmeras bibliotecas aqui do meu lado, na universidade onde estudo (ainda não fui ver isso, mas sei que dá pra marcar horário por email pra devolver/pegar livros, agora). teve um momento, nesses meses, que me veio uma vontade grande de ir naqueles sebos caóticos com preços bem baixos... pena que não vai rolar tão cedo, né. mas enfim, coisa de pandemia, e nem tenho do que reclamar. seguimos.

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