Olá a todos!
Na minha escola, nossa professora de Literatura é também nossa professora de Artes – e nada mais adequado: ambas as matérias se completam para explicar a história de cada época, e com uma mesma professora para as duas fica mais fácil de manter os assuntos paralelos. Nesta postagem resolvi falar de
arte, já que faz tempo que não o faço aqui no blog. Além disso, fiz
o primeiro especial há dois meses (no qual falo de literatura), então vou aproveitar para fazer outro agora, também.
Começamos o ano estudando a Idade Média. É dito que a Idade Média foi a "Idade das Trevas", por conta da sombra que a Igreja lançou sobre a ciência e as artes durante um milênio (século V ao XV). Ela dizia que o mundo só ia até onde a vista alcança e, no fim do mesmo, havia um enorme abismo (pois diziam que a Terra era plana) – de forma que, sem incentivo e vontade de andar em frente, as pessoas permaneciam debaixo das "asas" da Igreja. A visão de mundo era teocêntrica, ou seja, Deus era o centro de todas as coisas. Não se podia fixar-se nos temas carnais, humanos: tudo tinha de ser voltado ao divino, ao sacro.
O estilo arquitetônico desse período é o chamado estilo gótico. A Igreja falava que somente passando por ela era possível chegar ao Céu – e isso fica ilustrado nas grandes lanças apontando para o alto presentes na arquitetura das igrejas medievais. O padrão vertical também passa toda essa grandiosidade, para mostrar a insignificância do homem perante o divino. As esculturas e os grandes vitrais das igrejas representam passagens bíblicas – mas sempre sem destacar os traços humanos, justamente por causa do teocentrismo. A luz que passa pelos vitrais não é capaz de clarear totalmente o interior da igreja, o que é proposital: com pouca luz, paira no ar um certo mistério, causando medo e, consequentemente, respeito.
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| Igreja da Sagrada Família em Barcelona, na Espanha. |
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| Catedral de Milão, na Piazza del Duomo. |
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| Tímpano de uma porta representando o Juízo Final, na Catedral de Burgos, na Espanha. |
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| Vitral representando a crucificação de Cristo. |
Na Baixa Idade Média, do século XII ao XV, o homem percebeu que o mundo ia além de onde seus olhos podiam enxergar. A Igreja passou a timidamente perder seu poder com o início das navegações, pois através disso o homem percebeu que a Terra não terminava mesmo que fossem cada vez mais longe. O homem reconheceu seu próprio poder e assumiu um posto de conquistador. Foi nesse contexto onde surgiu o Renascimento, que se desenvolveu entre o século XIV e o começo do século XVII.
Diz-se "renascimento" pois esse período buscou inspiração na Antiguidade Clássica e trouxe aqueles valores à tona novamente. A visão de mundo era, agora, antropocêntrica – o homem como o centro de todas as coisas. Pregava-se o uso da razão para se chegar ao conhecimento e, através deste, obter a paz. A Itália foi o berço do Renascimento.
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| Davi, de Michelangelo (1504). |
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| Laocoonte e seus filhos, de Agesandro, Atenodoro e Polidoro. Museu do Vaticano. (Estátua da Antiguidade Clássica, que inspira outras feitas no Renascimento.) |
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| Pietà, de Michelangelo (1499). Basílica de São Pedro, Vaticano. |
As esculturas retratam o corpo humano fielmente, com detalhes tão perfeitos que parece que são pessoas transformadas em mármore. As expressões são sempre tranquilas, resignadas – representando a paz que a razão e o conhecimento trazem. (Por exemplo: na escultura acima, Pietà, Maria segura seu filho Jesus, morto. Ela poderia estar revoltada ou triste, mas está conformada, pois sabe que essa foi a vontade de Deus. Sua expressão é calma, serena e ilustra a ideia do Renascimento.) Os membros genitais masculinos ficam expostos, mas nunca são exagerados: o que se quer enfatizar é o poderio físico, não sexual; não se quer mostrar algo vulgar, e sim o poder humano. Já as mulheres, mais retratadas em pinturas, têm quadris largos, representando fertilidade – ou seja, a capacidade de produzir novos homens que se tornarão conquistadores. Deuses e deusas (da mitologia greco-romana) têm seus órgãos sexuais cobertos, como sinal de respeito. Na pintura, desenvolveu-se o uso da tridimensionalidade e da perspectiva.
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| Detalhes de Davi, de Michelangelo. Florença, Itália. |
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| O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. Florença, Itália. |
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| A escola de Atenas, de Rafael (1510). Palácio Apostólico, Vaticano. |
As igrejas foram construídas em um padrão mais horizontal, ainda que tão grandiosas quanto as medievais: essa horizontalidade deixa as igrejas menos intimidantes, representando que Deus estava mais próximo do homem. Na arquitetura das igrejas renascentistas está também presente o domo ou cúpula, além da utilização de colunas inspiradas nos templos da Antiguidade.
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| Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença, Itália. |
Por causa da ligeira diminuição do poder da Igreja sobre as pessoas iniciada na Baixa Idade Média, a Praça da Basílica de São Pedro, no Vaticano, tem um contorno que se assemelha a braços que parecem envolver o fiel, tentando trazê-lo de volta.
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| Praça de São Pedro, no Vaticano. |
Mais tarde, a Igreja Católica perdeu poder e espaço: houve a Reforma Protestante, e esta igreja ganhou destaque e atraiu fiéis. Por conseguinte, essa época foi cheia de conflitos e oposições. É o período do
Barroco, entre os séculos XVI e XVIII, cujo nome foi inspirado numa
pérola disforme. Nenhuma visão de mundo é definitiva – há tanto o
teocentrismo quanto o
antropocentrismo no Barroco. O homem está confuso e atormentado, e isso se reflete nas obras produzidas nesse período.
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| Detalhe de Amor Vincit Omnia, de Caravaggio (1602). |
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| Davi com a cabeça de Golias, de Caravaggio (1610). |
Há sempre uma tentativa de conciliar forças antagônicas: o espiritual e o carnal, a pureza e o pecado, a alegria e a tristeza, o bem e o mal. Não existe mais aquele equilíbrio entre razão e emoção característico do Renascimento – na arte barroca predomina a expressividade, a emoção, a agonia e o drama, num princípio no qual a fé deveria ser atingida através dos sentidos. Nas pinturas está muito presente o uso de claro e escuro, fazendo com que as sombras deixem em destaque a figura que se quer mostrar. Há também muito movimento e, quando há alguém nu, a genitália está sempre coberta.
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| O êxtase de Santa Teresa, de Bernini (1652). Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma. |
(Por exemplo: a escultura acima,
O êxtase de Santa Teresa, retrata a experiência espiritual que essa mulher teve. A história diz que Teresa tinha um grande desejo de receber o Espírito Santo e sempre pedia isso a Deus em suas orações. Um dia, Deus concedeu sua vontade – ela sentiu o cerne de seu ser sendo atingido por uma energia inefável, como se uma flecha a tivesse atravessado. Foi tão intenso que ela dizia ter perdido o fôlego. Na obra de Lorenzo Bernini, um importante artista barroco, há tanto espiritualidade quanto carnalidade: o rosto de Teresa mostra uma expressão de prazer intenso, que pode ser interpretado como se ela estivesse sentindo um orgasmo. O perfil do anjo parece típico de uma figura divina, mas olhando de frente vê-se a malícia em sua face. Ele está prestes a lançar a flecha no peito de Teresa, ilustrando a sensação descrita por ela. As linhas douradas atrás deles simbolizam a luz e o caráter divino do ocorrido. O movimento está presente nas dobras da roupa de Teresa. Essa oposição é a alma do Barroco. Outra coisa:
Davi, na pintura de Caravaggio acima, não está satisfeito ou jubilante por ter matado o gigante Golias. Seu rosto mostra um certo nojo, uma certa dúvida – a expressividade típica do estilo barroco. Já a escultura abaixo,
Davi de Bernini, mostra a adrenalina de Davi na iminência de jogar a pedra em Golias, colocando raiva em seu rosto e destacando o movimento de seu corpo; diferente da escultura de Michelangelo, que o retrata calmo. Cada uma tem características pertinentes à sua época.)
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| Davi, de Bernini (1624). |
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| A Glorificação de Santo Inácio, de Andrea Pozzo (1694). Igreja de Santo Inácio de Loyola, Roma. |
As igrejas barrocas são cheias de detalhes, em uma constante busca de efeitos decorativos e visuais com um propósito: chamar a atenção e atrair o fiel para que ele retorne para a Igreja Católica. Por conta desse exagero de detalhes, essas igrejas demoravam a ser construídas. O Brasil recebeu o estilo barroco também – principalmente na Bahia e em Minas Gerais.
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| Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto, Minas Gerais. |
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| Interior da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro. |
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| Interior da Igreja Sant'Andrea al Quirinale, em Roma, na Itália. |
O mais importante é lembrar que
a arte é expressão. É através dela que o homem representa os pensamentos de sua época. Por isso é tão interessante estudar todas essas coisas: a arte imita a vida. Ela existe porque a vida não basta!
Sem mais, me despeço. Até a próxima!
Adorei o especial :)
ResponderExcluirO meu preferido é o gótico mas também gosto do Renascimento. Vou ler o segmento da literatura.
Beijos
Fico feliz que tenha gostado!
ExcluirEu adoro o Renascimento, mas reconheço que a arquitetura gótica tem uma magnificência hipnotizante. Em Literatura só tem Os Lusíadas (que por acaso estou lendo agora), por enquanto, mas seja bem-vinda e fique à vontade ^^
Beijos!