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sábado, 15 de julho de 2017

eBooks e etc

(14/07. Mundo de tinta é gratuito e não li.)
Há algum tempo atrás adquiri o Kindle Unlimited da Amazon e desde então tenho lido vários livros digitais, em sua maioria curtos, já que não sou tão acostumada a ler pelo celular. Dia 21 acaba a promoção que tô usando e reuni opiniões sobre minhas leituras pra deixar registrado aqui e, quem sabe, ser útil pra alguém. (Aqui falei brevemente sobre o primeiro eBook que emprestei.)

Uma das primeiras coisas que li foi salt, de Nayyirah Waheed. São poemas curtos e muito impactantes sobre uma variedade de temas, mas principalmente racismo, autoimagem e feminismo. São simples e diretos como socos no estômago, tendo essa dualidade de serem agressivos apesar de delicados e serem difíceis de engolir mesmo sendo fáceis de ler (penso que na mesma linha dos poemas de Rupi Kaur, que tem sido popular por esses tempos). Gostei de tantos que não consigo ficar sem compartilhar alguns:

there
are feelings.
you haven't felt yet.
give them time.
they are almost here.
– fresh
racism is a translucent skin.
it defends itself
by
attacking itself.
– reverse racism
i lost a whole continent.
a whole continent from my memory.
unlike all other hyphenated americans
my hyphen is made of blood. feces. bone.
when africa says hello
my mouth is a heartbreak.
because i have nothing in my tongue
to answer her.
i do not know how to say hello to my mother.
– african american ii
for me
there is no other.
because there is no default.
everyone
is
a variation of life.
– the human being | the human gender | the human sex

Depois, explorando um canal do YouTube por causa de um tweet, cheguei a um vídeo sobre despedidas que achei muito massa. Em um momento o cara comenta sobre um livro de contos que escreveu com várias outras pessoas chamado Destino e resolvi ler – todos abordam esse tema, alguns são mais breves e outros se desenvolvem bastante, tendo até mesmo realismo fantástico. Gostei mais dos primeiros mas achei bacana a ideia e foi uma leitura leve.

A verdade é que talvez, mas só talvez, haja milhões de maneiras certas e esses fios vermelhos estejam nos amarrando a todos e a qualquer um.
Minha dor não é e nunca foi inútil. (...) talvez, pela minha própria dor, eu possa ter encontrado um pedacinho do meu ser.

Também li Os meninos morenos, do Ziraldo. São memórias de sua infância despertadas após uma viagem à Guatemala, onde conheceu o poeta de origem maia Humberto Ak'abal (que tem alguns poemas inseridos no livro também) – sua poesia trata de seu pueblo e dos meninos cuja identidade tanto se assemelha aos meninos de Ziraldo, além de que são "filhos da mesma floresta". Foi uma leitura bastante agradável: pequenos trechos, desenhos e poemas que quase sempre puxam um sorrisinho. Bastante simples e curto mas, como fez salt, dá brecha a vários pensamentos que perduram. Abaixo vários trechos.

Foi cheia de adjetivos inadequados a noite que está na minha memória com todos os seus detalhes: o cerimonial do nascimento do meu segundo irmão. Mesmo assim continuei, por muito tempo, acreditando que as crianças chegavam à vida trazidas no bico de uma cegonha. Até o dia em que, diante de alguém tentando me contar mais uma vez a velha história, ouvi meu estabanado avô berrar: "Que cegonha, coisa nenhuma! Conta a verdade  pro menino! No país que tem passarinho de tudo quanto é jeito voando nessas matas, o povo vem inventar uma desgraça duma ave que nunca voou por aqui!". Eu perguntei, então, que passarinho era o portador dos bebês. O velho ferreiro berrou mais alto: "O passarinho é o que entrou na barriga da sua mãe, sô, um homem dest'amanho!".
Todas as comidas feitas de véspera, as camas desfeitas, a casa sem varrer, nem brincar, nem falar alto, ruído nenhum. Qualquer barulho aumentaria a dor nas chagas de Cristo. Era sexta-feira da Paixão e meu pai, cedinho, nos acordava e, bem baixinho, explicava pra gente como devíamos agir naquele dia e dissertava sobre o que era respeito, e a gente achava sensacional o desafio de ficar quietinho um dia inteiro.
A gente não estudava. Não tinha tempo. A gente brincava. Quando chegava, porém, a época das provas, tome angústia. A noite inteira acordado, o abajur aceso sobre o livro de Ciências, a lista dos pontos, os pés dentro de uma bacia de água para não dormir (como fazia Machado de Assis, coisa que a gente aprendeu lendo e não estudando).

Singh Bean cita Cartas a um jovem poeta (de Rainer Maria Rilke) em Život je tady, que li há pouco tempo, e peguei pra ler pois vi que era um livro disponível no Kindle Unlimited. É composto por conselhos em forma de correspondências para Franz Kappus, jovem que aspira à profissão artística e pede orientação do escritor, que discorre sobre solidão, tristeza, amor, deus, arte e etc. Achei muitas coisas bastante inspiradoras e interessantes, embora algumas vezes tenha tido que reler trechos pra fazer passar a sensação de "cê tá se achando o sabedor de tudo, não é bem assim" (compreendendo melhor acabava até que concordando).

As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou.
Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Se Ele é o mais perfeito, não deve ter havido algo menor antes d'Ele para que Ele se pudesse escolher a si mesmo dentro da plenitude e abundância? Não deverá ser Ele o último, para encerrar tudo em si? Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse sido?
Sua dúvida por tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora. talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.

O eBook tem duas partes, na verdade, e a segunda chama-se A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. É uma pequena história protagonizada por esse jovem, em algum momento do século XVII, a serviço de uma cavalaria austríaca; ele se envolve brevemente com uma condessa no castelo onde se hospedam, acontece um incêndio do lado de fora e ele acaba morrendo (não é spoiler se tá no título, né?).

As altas chamas tremulavam, as vozes estrugiam, confusas canções jorravam dos cristais e das luzes; e finalmente dos ritmos amadurecidos brotou a dança. E a todos arrastou. Era um bater de vagas pela sala – um encontrar-se e um escolher-se, um despedir-se e um reencontrar-se, um embriagar-se de brilho e um cegar-se de luz, e um embalar-se no vento estival que mora nas roupagens das cálidas mulheres.
A câmara da torre está apagada. Mas eles iluminam seus rostos com sorrisos. Tateiam diante de si como cegos e encontram o outro como uma porta. Quase como crianças assustadas diante da noite, apertam-se um ao outro. No entanto nada temem. Não há nada contra eles: nenhum ontem e nenhum amanhã, pois o tempo se desmoronou. E eles florescem das suas próprias ruínas.

Também li Mayombe, de Pepetela, e gostei demais. A história se desenvolve durante a guerra de independência da Angola contra Portugal, tendo como personagens os guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Todos têm apelidos de acordo com sua personalidade e/ou atitudes: Sem Medo é o comandante muito valente, Mundo Novo é bem estudado nas tendências europeias marxistas, Milagre é o melhor bazukeiro, Teoria é o professor do grupo e assim por diante. O livro é muito real, mostrando o cotidiano dos que faziam a luta revolucionária, bem como seus sentimentos, reflexões, contradições e conflitos – coisa que recebeu até críticas na época que foi lançado, já que exibia suas falhas e divisões internas, uma vez que o tribalismo continuava tendo voz. Cada pessoa tem sua razão para estar ali e isso fica claro nos trechos onde personagens tomam frente da narrativa, já que através desse recurso conhecemos a origem e as experiências de diferentes elementos do movimento. O que mais se destaca é Sem Medo, que tece a história com muitos ideais interessantíssimos à medida que conta sua jornada, aconselha seu companheiro Comissário e gerencia a frente libertadora. Esse vídeo é um ótimo complemento.

Os guerrilheiros encavalitaram-se num enorme tronco caído. Deixara de respirar, monstro decepado, e os ramos cortados juncavam o solo. Depois de a serra lhe cortar o fluxo vital, os machados tinham vindo separar as pernas, os braços, os pelos; ali estava, lívido na sua pele branca, o gigante que antes travava o vento e enviava desafios às nuvens. Imóvel mas digno. Na sua agonia, arrastara os rebentos, os arbustos, as lianas, e seu ronco de morte fizera tremer o Mayombe, fizera calar os gorilas e os leopardos.
— (...) As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar.
— (...) Isso é que me enraivece. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nosso desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las connosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus.

Depois foi a vez de Viagem solitária, de João W. Nery, que eu nem esperava que tivesse no Kindle Unlimited. É uma autobiografia do primeiro homem trans brasileiro de que se teve notícia, narrando as angústias presentes desde a infância pela incompatibilidade que sua mente encontrava em seu corpo. Ele percorre por todos os pontos que construíram sua jornada – o bullying, a depressão, os relacionamentos, a autoafirmação, as cirurgias, o recomeço, a paternidade –, bem como vários nomes que tiveram algum impacto em sua vida. Pelo que parece é uma espécie de atualização/complemento de sua primeira obra, Erro de pessoa: Joana ou João?, publicada em 1984. Pra citar Simone Ávila, que no final do livro fala um pouco sobre o autor: Ele se pergunta: "em que grupo existente eu me enquadraria?". Ou, dito de outro modo, "quem inventou essa coisa de que temos de nos enquadrar no que já existe?!? Por que não podemos simplesmente ser o que queremos ou quisermos?!? Por que eu tenho de seguir normas que não são minhas?!?" É doloroso pensar no tanto de pessoas incompreendidas que precisaram encarar tanto sofrimento numa época de repressão onde ainda faltava muito avanço, e ainda há um longo caminho a se percorrer nos dias de hoje.

"Você nasce e morre dentro de caixas. Caixa da família, da escola, do casamento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você já é estigmatizado. Tem que ter muita estrutura para segurar a peteca da marginalidade."
Quando sentia medo, pelo menos pressupunha um objeto, uma ameaça, algo que eu pudesse de algum modo contornar ou dele fugir. Porém, nessa angústia nada me ameaçava claramente. Não havia um objeto a ser enfrentado para prosseguir minha estranha caminhada existencial. Percebi, então, que o "sem sentido" e o "sem valor" da minha angústia me tornavam um estrangeiro nesse mundo tão cheio de categorias. A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir.
Depois de lhe contar a última com meus amigos trans, sobre o homem grávido, perguntei a opinião dele. Respondeu sem pestanejar:
— Acho que precisamos ser mais tolerantes.

Frigg tecendo as nuvens (John Charles Dollman, 1909)
Então li Edda em prosa - Gylfaginning e Skáldskaparmál, de Snorri Sturluson, escrito por volta de 1220. Esse cara foi famoso por defender a ideia de que os deuses mitológicos surgiram através de reis e figuras históricas que eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e os relaciona com personalidades troianas e com o cristianismo. Tem de tudo sobre mitologia nórdica, com muitos detalhes e ilustrações. Gostei mais da primeira parte, que se traduz como "a ilusão de Gylfi" e se concentra mais nas proezas de deuses e outros personagens, enquanto que a outra ("poesia dos escaldos") se demora em metáforas e trechos de diferentes poetas sobre elas. Acho engraçado como mitologias sempre têm elementos absurdos, e alguns deles me chamaram a atenção neste livro – de um bloco de gelo lambido por uma vaca surge o homem que viria a ser avô de Odin; Heimdallr é filho de nove damas, todas irmãs; Loki deu à luz a um potro após se transformar em égua e ter certas relações com um cavalo... Mas é muito legal lembrar de coisas que fazem referência às diversas histórias e nomes: O Anel dos Nibelungos (ópera alemã), nomes de anões de O Senhor dos Anéis, crenças dos personagens de Vikings (seriado do History), o "feitiço"/espada Brisingr (livro de Christopher Paolini) e Gjallarhorn (banda finlandesa que fala sueco). Sempre gosto de saber sobre isso e foi uma leitura válida, além de ter sido a primeira coisa islandesa que eu leio, provavelmente (considerando que admiro muito esse país).

Há uma terceira coisa sobre a terra: quando sua superfície é revirada e desenterrada, a grama cresce no solo. Montanhas e rochedos foram associados aos dentes e ossos de criaturas vivas, e assim eles viam a terra de alguma forma como um ser com vida própria. Eles sabiam que era inconcebivelmente antiga em idade, e por natureza, poderosa; ela deu origem a todas as coisas e possuía tudo o que morria, e por isso deram-lhe um nome e reconheceram sua descendência dela.

Por último, ainda vou ler Uma duas (de Eliane Brum), mas isso é assunto pra outra postagem.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

re)visita

Achei isso nos rascunhos de outro blog meu, também abandonado. É um poeminha feito por uma prima que na época tinha nove anos. Era agosto de 2014 quando salvei isso e coloquei que ela escreveu um soneto invertido sem perceber... a Stephanie de agora teve que pesquisar na internet o que seria isso. 

Quando vejo o sol
quero ser os planetas
para nunca ficar sozinha.
Quando vejo as nuvens
quero ser o vento
para levar a liberdade.
Quando vejo a lua
quero ser as estrelas
para sentir o brilho,
para sentir a beleza.
É o universo,
lindo de se olhar.
O céu é bonito,
mas com o universo nem se compara.

Eu tinha escrito umas coisas engraçadas refletindo sobre: "Imagine só, ser um planeta e ver tanta coisa ao seu redor. Tanta presença, tanta magnitude, ter um sentido pelo qual é guiado. Imagine só, poder ser leve como o vento, livre como o vento, etéreo como o vento. Imagine ter um brilho que vem de dentro, que revela sua beleza interior, sua alma. Ter tal pureza. Os olhos buscam vastidão, infinitude. Tem coisa mais vasta e infinita que o universo, como um todo? O céu é belíssimo, mas se pudéssemos observar o universo a todo instante, seríamos mergulhados nessa magnificência inefável." Hoje dou risada só, por ser uma pessoa diferente e por ter esquecido completamente disso.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

sobre Frida y yo

Em algum dia do mês passado eu tava fazendo não sei o que na internet e fui parar na página da biblioteca da minha cidade. Fazem postagens regulares, divulgando as exposições, trocas ou lançamentos de livros e sessões de filminhos que rolam por lá. A cada mês eles também colocam os novos títulos do acervo e vi que em junho chegaram, de uma vez, três livrinhos sobre a Frida Kahlo. Eu tava bem animadinha a respeito da artista porque tinha assistido ao filme de 2002 numa aula de artes do curso de comunicação visual que faço, e no dia seguinte já passei na biblioteca pra emprestar O diário de Frida Kahlo – Um autorretrato íntimo. Um tempo antes eu tinha visto fotos do livro no perfil do instagram de alguém, pesquisei e me deparei com o preço salgado e fiquei só na vontade. Qual foi a minha surpresa e satisfação em vê-lo disponível na biblioteca...

O livro é o diário original da brilhante mexicana, escrito nos dez últimos anos de sua vida. Contém desenhos, pinturas, poemas, cartas, reflexões e documentações acerca de tudo o que permeava sua vida e sua mente, mostrando tudo de forma franca e genuína. É fascinante, emocionante. Não sei nem expressar o quanto foi prazeroso ter acesso a esse mundo, que tanto me abraçou nessa época que o li. Pude me encontrar nas palavras de Frida, em sua arte, me colocar em outros caminhos de pensamentos rumados a melhores coisas, que me proporcionaram uma experiência incrível.

Muitas vezes parei pra anotar os escritos que fui lendo. Vou transcrevê-los aqui também, porque aprendi que esse lugarzinho na internet pode me ajudar com coisas que não quero perder, além de ser um canal pra alcançar outras pessoas que podem estar precisando disso tanto quanto eu. Cês conseguem entender um cadinho de espanhol, né? Porque é muita coisa pra traduzir... (Perdoa o exagero mas dê uma olhadinha, vale muito a pena.)


Diego.
Verdad es, muy grande, que yo no quisiera, ni hablar, ni dormir, ni oir, ni querer.
Sentirme encerrada, sin miedo a la sangre, sin tiempo ni magia, dentro de tu mismo miedo, y dentro de tu gran angustia, y en el mismo ruido de tu corazón.
Toda esta locura, si te la pidiera, yo sé que sería, para tu silencio, sólo turbación.
Te pido violencia, en la sinrazón, y tú, me das gracia, tu luz y calor.

Pintarte quisiera, pero no hay colores, por haberlos tántos, en mi confusión, la forma concreta de mi gran amor. 
F.
Cada momento, él es mi niño, mi niño nacido, cada ratito, diario, de mi misma.

\\\

Auxocrómo – Cromóforo. Diego.
Aquella que lleva el color. El que vé el color.
Desde el año de 1922. Hasta todos los dias. Ahora en 1944. Después de todas las horas vividas. Siguen los vectores su dirección primera. Nada los detiene. Sin más conocimiento que la viva emoción. Sin más deseo que seguir hasta encontrarse. Lentamente. Con enorme inquietud pero con la certeza de que todo lo rige la "sección de oro". Hay un acomodo celular. Hay un movimiento. Hay luz. Todos los centros son los mismos. La locura no existe. Somos los mismos que ya

fuimos y seremos. Sin contar con el estúpido destino.

\\\

Era sed de muchos años retenida en nuestro cuerpo. Palabras encadenadas que no pudimos decir sino en los labios del sueño. Todo lo rodeaba el milagre vegetal del paisaje de tu cuerpo. Sobre tu forma, a mi tacto respondieron las pestañas de las flores, los rumores de los rios. Todas las frutas había en el jugo de tus labios, la sangre de la granada, el tramonto de mamey y la piña acrisolada. Te oprimi contra mi pecho y el prodigio de tu forma penetró en toda mi sangre por la yema de mis dedos. Olor a esencia de roble, a recuerdos de nogal, a verde aliento de fresno. Horizontes y paisajes = que recorrí con el beso. Un olvido de palabras formará el idioma exacto para entender las miradas de nuestros ojos cerrados.
= Estas presente, intangible y eres todo el universo que formo en el espacio de mi cuarto. Tu ausencia brota temblando en el ruido del reloj, en el pulso de la luz, respiras por el espejo. Desde ti hasta mis manos, recorro todo tu cuerpo, y estoy conmigo un momento. Y mi sangre es el milagro que va en las venas del aire de mi corazon al tuyo.

A MUJER.
EL HOMBRE.
El milagre vegetal del paisaje de mi cuerpo es en ti la naturaleza entera. Yo la recorro en vuelo que acaricia con mis dedos los redondos cerros, penetran mis manos los umbrios valles en ansias de posesion y me cubre el abrazo de las ramas suaves, verdes y frescas. Yo penetro el sexo de la tierra entera, me abrasa su calor y en mi cuerpo todo roza la frescura de las hojas tiernas. Su rocio es el sudor de amante siempre nuevo. No es amor, ni ternura, ni cariño, es la vida entera, la mia, que encontré al verla en tus manos, en tu boca y en tus senos. Tengo en mi boca el sabor almendra de tus labios. Nuestros mundos no han salido nunca fuera. Solo un monte conoce las entrañas de otro monte.
Por momento flota tu presencia como envolviendo todo mi ser en una espera ansiosa de mañana. Y noto que estoy contigo. En este momento lleno aun de sensaciones, tengo mis manos hundidas en naranjas, y mi cuerpo se siente rodeado por tus brazos.

\\\

Tu lo entiendes todo. La unión definitiva. Sufres gozas amas rabias besas ries. Nacimos para lo mismo. Querer descubrir y amar lo descubierto. Oculto. Con el dolor de siempre perderlo. Eres bello. Tu beleza yo te la doy. Suave en tu enorme tristeza. Amargura simple. Arma contra todo lo que no te libra. Rebelion con todo lo que te encadena. Te amas. Quiereme como centro, y como a ti. No lograré más que un recuerdo prodigioso de que pasaste por mi vida dejando joyas que no recojeré sino cuando te hayas ido. No hay distancia. Hay tiempo. Oyeme acariciame con lo que busques y con lo encontrado. Me voy a ti y a mi. Como toda la canción mirada.

\\\

Yo te entrego mi universo y tu me vives. Eres tú a quien amo hoy = te amo con todos los amores.
Te daré el bosque con una casita dentro con todo lo bueno que haya en mi construcción. Tu vivirás contento – yo quiero que tu vivas contento. Aunque yo te dé siempre mi soledad absurda y la monotonía de toda una complejísima diversidad de amores – ¿quieres?


\\\


Yo quisiera poder hacer lo que me dé gana – detrás de la cortina de "la locura". Asi: arreglaría las flores, todo el día, pintaria, el dolor, el amor y la ternura, mi reiría a mis anchas de la estupidez de los otros, y todos dirian: pobre. Está loca. (Sobretodo me reiría de mi estupidez.) Construiría mi mundo que mientras viviera estaría = de acuerdo = con todos los mundos. El día, o la hora, o el minuto, que viviera, seria mio y de todos. Mi locura, no seria un escape al "trabajo".

 
La revolución es la armonía de la forma y del color y todo está, y se mueve, bajo una sola ley = la vida =
Nadie está aparte de nadie.
Nadie lucha por si mismo.
Todos es todo y uno. La angustia y el dolor, el placer y la muerte no son más que un proceso para existir.
La lucha revolucionaria en este proceso es una puerta abierta a la inteligencia.


\\\

Nadie es más que un funcionamiento o parte de una función total. La vida pasa, y dá caminos, que nó se recorren vanamente. Pero nadie puede detenerse "libremente" a jugar en el sendero, porque retrasa o transtorna el viaje atómico y general. De allí viene el descontento, de allí la desesperanza y la tristeza. Todos quisieramos ser la suma y no el elemento número. Los cambios y la lucha nos desconciertan, nos aterran por constantes y por ciertos, buscamos la calma y la "paz" porque nos anticipamos a la muerte que morímos cada segundo. Los opuestos se unen y nada nuevo ni arrítmico descubrimos. Nos guarecemos, nos alámos en lo irracional, en lo mágico, en lo anormal, por miedo a la extraordinaria belleza de lo cierto, de lo material y dialéctico, de lo sano y fuerte – nos gusta ser enfermos para protejernos. Alguien – algo – nos proteje siempre de la verdad – nuestra propria ignorancia y nuestro miedo.

Miedo a todo – miedo a saber que no somos otra cosa que vectores dirección construcción y destrucción para ser vivos, y sentir la angustia de esperar al minuto siguiente y participar en la corriente compleja de no saber que nos dirijimos a nosotros mismos, a través de millones de seres piedras – de seres aves – de seres astros – de seres micróbios – de seres fuentes a nosotros mismos – variedad del uno incapacidad de escapar al dos – al tres – al etc de siempre – para regresar al uno. Pero no a la suma (llamada a veces dios a veces libertad a veces amor – no – somos odio – amor – madre – hijo – planta – tierra – luz – rayo – etc – de siempre – mundo dador de mundos – universo y celulas universos
Ya!

\\\

Calladamente, la pena
ruidosamente el dolor.
el veneno acumulado me fué dejando el amor.
Mundo extraño ya era el mio de silencios criminales de alertas ojos ajenos equivocando los males
obscuridad en el dia
las NOCHES no las vivía.
Te estás matando!! TE ESTÁS MATANDO!!
Con el cuchillo de las que están vigilando! La culpa la tuve yo?
Admito mi culpa grande tan grande como el dolor
era una salida enorme por donde pasó mi amor
Salida muy silenciosa que me llevaba a la muerte
estaba tan olvidada que esta era mi mejor suerte
Te estás matando! TE ESTÁS MATANDO!
Hay quienes ya no te olvidan!
Acepté su mano fuerte
Aqui estoy, para que vivan


\\\

Si tan solo tuviera cerca de mi su caricia como a la tierra el aire se la dá la realidad de su persona me haría más alegre, me alejaría del sentido que me llena de gris. Nada ya sería en mi tan hondo tan final. Pero como le explico mi necesidad enorme de ternura!

Mi soledad de años. Mi estructura inconforme por inarmónica, por inadaptada. Yo creo que es mejor irme, irme, no escaparme. Que todo pase en un instante. Ojalá.

Copiei tudo diretamente das páginas do diário, ou seja, da mesma forma que Frida escreveu. As imagens não ficaram tão bem organizadas porque o blogger aparentemente não quer colaborar comigo hoje. Recomendo também que assistam ao filme já mencionado, que conta com a Salma Hayek arrasando como Frida Kahlo. Todo o lirismo, o sofrimento, a espiritualidade e a personalidade dessa mulher tão especial conseguiram ser transmitidos muito bem (na minha opinião). O longa venceu, em 2003, o Oscar de melhor maquiagem e melhor trilha sonora. Se preparem para derramar lágrimas.

Adiós.