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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

ainda aqui

não sei se em algum momento de abril pra cá eu realmente consegui retomar o hábito de ler regularmente, mas ter perdido o ritmo assim que as maratonas literárias foram ficando maiores e mais espaçadas não foi surpresa nenhuma. mesmo os livros remanescentes da asian readathon, de maio, foram ficando de lado; eu sou malala ainda me interessa, então ainda quero terminar (tá indo pra seis meses que não toco nesse livro, mas tudo bem), só que judas não vi muito sentido em continuar lendo, então preferi desistir e deixar espaço pra leituras que realmente quero fazer. durante junho, por causa do material movimentado com os protestos antirracistas, comecei a ler sister outsider: essays and speeches, de audre lorde, e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça, de reni eddo-lodge. o primeiro ainda tô lendo e o segundo só fui terminar em agosto, mas já entendi que preciso e prefiro ler essas coisas devagar mesmo, pra tomar o tempo de reflexão que isso merece e pra digerir melhor. de qualquer forma, já que sempre que tenho algo chato pra fazer eu invento "missõezinhas" que eu me sinto obrigada a terminar até não sobrar nada pra onde fugir, vim aqui deixar registrado o restante das maratonas de que participei nesse ano.

maratona literária de inverno (booktubatona)

livros da pretatona que encaixei na mli
dia 20 de junho começou a maratona literária de inverno que já comentei anteriormente, a tal booktubatona, e ela foi até dia 4 de julho. pensava que iam usar bastante o instagram, mas em vez disso foi o twitter; teve muita interação por lá, com sprints de leitura, lives e sorteios todo dia. não sei se por ter sido assim movimentadíssimo, por não me identificar com os booktubers, por estar desanimada ou por tudo isso junto, mas não fui capaz de ler quase nada nas duas semanas da maratona; li só um dos contos YA que baixei gratuitamente por causa do mês do orgulho LGBT e uma novela que já tinha baixado (pirata) por outro motivo. o conto se chama a primeira vez de natan & lino e é de henri b. neto, que é um booktuber também. vi vários defeitos, me incomodei com a escrita, não me cativei com a história; por fim admiti que esse gênero literário não é pra mim. a novela, the deep, foi o contrário, pelo menos; achei muito especial a maneira de falar sobre trauma, memória e resistência através de um povo que vive nas profundezas do oceano, descendente das mulheres africanas jogadas dos navios que traficavam escravos. bem interessante o fato de que a própria história foi construída pelo encontro de diferentes perspectivas, pela recriação a partir de outras vozes – quem escreveu foi rivers solomon, inspirade em uma música com o mesmo nome do grupo musical clipping., de daveed diggs, william hutson e jonathan snipes, que por sua vez se inspiraram num álbum da dupla de música eletrônica drexciya. mas voltando à maratona: ela tinha 27 desafios possíveis, cada um proposto por um booktuber, e the deep correspondia a dois (livro recomendado por um booktuber – acho que foi seji – e livro em outra língua). a primeira vez de natan & lino nem tinha sido planejado, mas acabou servindo pra um monte: livro LGBTQIA+ lançado nos últimos 4 anos, livro de um gênero que você não lê com frequência, livro que faz parte de uma série, livro nacional de um autor LGBTQIA+ e livro nacional de autor independente ou de editora pequena. eu tinha encaixado sister outsider e por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça em alguns desafios também, pra tentar avançar na leitura, mas obviamente não rolou.

pretatona

outros livros escolhidos pra pretatona
de 23 de junho a 30 de julho teve a pretatona, criada pelo clã das pretas (instagram) nesse contexto do debate antirracista pra promover a leitura de histórias negras escritas por pessoas negras. cada semana tinha um genêro literário diferente como proposta de leitura, além da recomendação de um filme/documentário dentro da temática, e na verdade eu parti dela pra escolher the deep, que correspondia à primeira semana e coincidiu com a mli: ficção especulativa (fantasia, ficção científica e terror/horror). o tema da segunda semana era nacional (se possível, priorizando norte/nordeste), e li vozes negras, de amanda condasi, flor, priscila, isa souza, maria ferreira e pétala souza – dos 4 contos do livro, me chamaram a atenção "carimbos e memórias" (de flor, priscila) e "não existem sinônimos suficientes para futuro" (de isa souza e pétala souza). o primeiro fala sobre o sonho de escrever histórias e viajar o mundo de glória maria, que escreve um poema lindo onde noémia de sousa, carolina maria de jesus e maya angelou são referências; o segundo é uma história de ficção científica bizarramente próxima da realidade atual, onde a pandemia de um vírus e o isolamento decorrente escancaram políticas de controle e segregação. na terceira semana o tema era young adult, pro que escolhi dois garotos num navio, de slaeff, um conto curtinho onde sonho e realidade se confundem e o naufrágio do titanic representa uma perda tão grandiosa quanto. na quarta era quadrinho, e finalmente li angola janga, de marcelo d'salete, que emprestei da biblioteca no último dia de aulas presenciais, lá em março (fiquei enrolando porque não queria ficar sem, mas ler durante a pretatona foi especial – e se eu tivesse lido antes não teria um livro pra preencher essa categoria, né). grande quadrinho contando uma história de palmares, de tantas possíveis: as picadas pra pequena angola, o acordo e a queda de cucaú, a liderança de zumbi, o anguêri branco, a permanência dos quilombos... mais de uma década de pesquisa do autor, que também escreveu histórias de resistência negra no brasil colonial em cumbe, que li no começo do ano na casa de thiago. depois teve literaturas africanas, pro qual escolhi hibisco roxo, de chimamanda ngozi adichie, que me surpreendeu demais, me tocou demais. muito forte, sensível e de uma escrita maravilhosa, e ainda por cima leitores brasileiros podem se identificar com os temas de colonialismo e cristianismo... tudo isso com o pano de fundo de um golpe militar, também. tinha um desafio extra, que podia ser não-ficção ou infantil – achei mais fácil preencher não-ficção e li pequeno manual antirracista, de djamila ribeiro, que é conciso mas muito completo, tratando dos diferentes âmbitos atravessados pelo racismo e dando orientações de como tomar atitudes antirracistas diantes deles. um grande material de consulta, também, cheio de referências a escritores negros e trabalhos importantes, sendo leitura fundamental pra introduzir essas discussões. gostei bastante de participar, e ainda tenho vontade de ver os filmes e documentários recomendados pra cada tema – branco sai, preto fica; café com canela; o ódio que você semeia; homem-aranha no aranhaverso (esse já vi!); rafiki (lembro de descobrir esse quando procurava filmes lésbicos produzidos fora do eixo eua-europa pra passar na escola de inglês onde eu trabalhei; assisti em agosto, achei muito doce e, ao mesmo tempo, muito triste); a 13ª emenda (já vi também, pesadíssimo); e cada um na sua casa. muitas indicações pra consulta, também.

intersecção de pretatona e reading rush, agora
the reading rush

a edição de 2020 da reading rush foi de 20 a 26 de julho, e de novo aproveitei o que já tava escolhido pra pretatona: coloquei pequeno manual antirracista e hibisco roxo nos desafios um livro de um gênero que te dá medo ou do gênero que você menos lê e um livro que se passa num continente diferente do seu, respectivamente (leio pouco não-ficção e hibisco roxo se passa na nigéria). os outros eram um livro cuja capa combine com a cor da pedra do seu signo, um livro que comece com "o"/"a" ("the"), um livro que inspirou um filme que você viu, o primeiro livro que você tocar e ler um livro completamente "não em casa". tentei combinar o máximo que eu pude, então usei the ones who walk away from omelas, de ursula k. le guin, pra três (foi o papelzinho que eu peguei num sorteio entre três livros que começavam com "the", e por ser um conto pude ler ele inteiro estando no quintal); o livro consegue ser super impactante em poucas páginas, daquelas histórias que vão muito além da experiência de leitura e que reverberam nos pensamentos por muito tempo. pros outros desafios dois não teve jeito: coloquei por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (de novo) nesse da pedra do signo, porque a pedra de abril é diamante e esse livro tem uma capa branca/limpa, e howl's moving castle, de diana wynne jones no da adaptação pra filme, porque era a única coisa que eu tinha comigo e se encaixava. mas no fim não consegui ler nenhum deles e tudo bem, acho que não tem como forçar certas coisas só por causa de uma "maratona", né. vi umas postagens questionando esse ritmo de leitura acelerado, que é mais um desdobramento do sistema em que a gente vive, e acho massa repensar isso também. tô lendo howl's moving castle agora, na verdade, e tô sentindo uma sensação tão gostosinha, de um jeito que nunca mais tive com livro nenhum, que tô até indo devagar de propósito.

esforço mínimo em desafios? temos
o que a reading rush tem são desafios fotográficos, e dos sete participei de três: recriar a capa de um livro, fazer cosplay de um personagem literário e tirar foto da minha leitura atual com um animal de estimação. pro primeiro achei esse livro de joão ubaldo que tem uma capa muito parecida com as paredes externas daqui de casa: tijolinhos e concreto rachado. não foi bem uma criação, né, só aproveitei o que já tinha, mas ok. pro segundo mirei baixo, porque não tinha como ser muito elaborado: me vesti de u-235, personagem de ing lee em cápsula, que li lá na reading rush de abril (usar essas roupas é bem comum pra mim). no último dia da maratona deu umas tretas de ariel e raeleen não terem feito a leitura pro clube do livro e terem mudado a discussão sobre ele pra um q&a aleatório, sendo que o livro era exatamente sobre performative allyship, além de terem deixado o desafio de ler fora de casa sendo que o mundo tá no meio de uma pandemia... uma bosta, realmente, e espero ações melhores delas pra realmente mudar, não só prometer. mas o que ia falar é que no meio disso tudo vi gente falando sobre pessoas brancas terem representado/vencido o desafio de cosplay se vestindo de personagens de cor, o que é claramente problemático, e fiquei pensando se foi errado eu me vestir de uma personagem asiático-brasileira. não mostrei minha cara e não ganhei nada, pelo menos, nem nunca tive a pretensão de receber atenção (apesar de ing lee ter visto, comentado e compartilhado feliz). foda, né. pro último desafio tirei foto de elvira (não tenho pet, mas compartilhamos a casa) dormindo na cadeira, junto com pequeno manual antirracista, e fim. os outros desafios eram menos interessantes pra mim, tipo fotografar uma pilha de livros ou meu "combustível de leitura" (comidas ou bebidas). mas foi legal ver a participação dos outros.



depois de julho só teve mais uma maratona legal: a fortnight frights, durante as duas últimas semanas (por isso fortnight) de outubro, organizada por seji do the artisan geek. a proposta era ler horror e gêneros relacionados, em preparação pro halloween, mas de forma mais diversificada e inclusiva. tinha um bingo com 16 desafios, dos quais você podia combinar 2 em uma leitura só ou então tentar completar tudo, e ao longo da maratona teve discussões de alguns livros selecionados e sessões de cinema. eu até baixei dois dos livros que teriam discussões, the year of the witching, de alexis henderson (escrito por um/a autor/a negro/a) e the only good indians, de stephen graham jones (escrito por um/a autor/a indígena), mas só li um pouquinho do primeiro e não consegui acompanhar nada. a própria seji teve dificuldades de cumprir as propostas que tinha, porque uma amiga dela faleceu :( mas gosto tanto do conteúdo dela, vou ficar atenta às próximas coisas que ela faz.

acho que tá bom de maratona pra quem nunca mais tinha participado de nada, né. não sei de mais nenhuma e também não tô em condições de arrumar mais coisas pra cabeça a essa altura do campeonato, com inúmeros trabalhos atrasados e seis disciplinas pra equilibrar. percebo que maratonas com temas mais bem definidos (como a maratona de literatura asiática, a pretatona e a fortnight frights) fazem mais sentido pra mim, e felizmente divido a casa com gente que tem livros o suficiente pra compor várias listas de leitura, além de que agora tenho a praticidade de um leitor digital onde posso colocar meus ebooks piratas. sempre que penso em comprar livros (alô festa do livro da usp) percebo que não faz sentido, tendo tantos à disposição e podendo emprestar das inúmeras bibliotecas aqui do meu lado, na universidade onde estudo (ainda não fui ver isso, mas sei que dá pra marcar horário por email pra devolver/pegar livros, agora). teve um momento, nesses meses, que me veio uma vontade grande de ir naqueles sebos caóticos com preços bem baixos... pena que não vai rolar tão cedo, né. mas enfim, coisa de pandemia, e nem tenho do que reclamar. seguimos.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

o isolamento e as maratonas

fazia tempo que eu não me informava sobre maratonas de leitura ou participava de alguma. mas também fazia tempo que eu não lia direito, sentindo prazer e vontade de voltar pro livro em vez de perder tempo com qualquer outra coisa. o ápice foi levar três livros pra bahia e voltar pra casa com nem sequer um avanço em algum deles. isso em dois meses de viagem. o som e a fúria mesmo eu só terminei no finzinho de abril, e olhando o skoob descobri que tinha começado em outubro. tava feia a coisa.

e então veio o vírus, a suspensão de atividades da universidade, a quarentena com as meninas, o isolamento social. fiquei muito mal no começo, talvez pela coincidência de problemas na cabeça além de toda a tensão do que tava acontecendo. agora a ansiedade já é esperada, mas claro que isso não significa estar acostumada; as coisas tão piores, na verdade, né. nunca mais tive controle da minha rotina, porque cada dia é uma coisa, que nem uma montanha-russa. e acabou que esses projetos de leitura foram servindo pra dar um mínimo de propósito e motivação pra fazer algo diferente.

teve uma em abril e outra em maio, e até criei um perfil no instagram pra poder participar mais ativamente. dois amigos me acharam lá e me seguiram, o que me deixou nervosa, porque a intenção era ficar o mais anônima possível e postar só o necessário. apesar de sempre ter gostado de ler e acompanhado alguns canais literários no youtube, não tenho vontade de produzir esse tipo de coisa, principalmente porque sei que minha existência online não seria nada novo ou importante pra comunidade. não faltam referências do que posso representar, no sentido mulher branca, do sudeste, classe média. minha visão não contribui pra nenhuma discussão; pelo contrário, uma das coisas que eu quero desenvolver lendo mais é justamente ser capaz de resumir melhor o que consumo, relacionar diferentes obras e construir críticas mais elaboradas. então nem vejo muito sentido em ter um perfil no instagram, mas por enquanto tô usando só pra maratonas literárias e desafios de leitura. essas foram as maratonas de que participei até agora:

stay home reading rush

cheguei a mencionar a booktube-a-thon da última vez que participei de uma maratona literária, que conheci por acompanhar ariel bissett, dizendo que antes tinha tido a intenção de participar dela mas tinha desistido por causa dos muitos desafios e exageros. em algum momento a booktube-a-thon virou the reading rush, e em abril fizeram essa edição especial por conta do isolamento social. eram só 4 dias, de 16 a 19 de abril, e foram 4 propostas: ler um livro com uma casa na capa, ler um livro que se passa num lugar que eu gostaria de visitar, ler um livro que vai me fazer sorrir e ler um livro no mesmo cômodo o tempo todo. não interpretei essa última como um 4º livro a ser escolhido, mas acabei juntando 4 de qualquer forma: o vilarejo (de raphael montes) por ter uma casa sombria na capa, todas as cores do céu (de amita trasi) porque aparentemente tem uma parte que se passa na índia, cápsula (hq de um monte de artistas que eu gosto) justamente por ser de artistas brasileiros que eu acompanho e los once (de miguel jiménez, josé luis jiménez & andrés cruz) como um extra, mas que acabei lendo inteiro e de uma vez ali na frente de casa.
acabei comprando um kindle nesse período, principalmente pra ler em inglês. mas só baixo livro gratuito ou pirata

mais tarde substituí todas as cores do céu por bloodchild (de octavia e. butler), pensando em usar o primeiro numa maratona que viria em seguida, e acabou que nem isso fiz. mas foi mais sensato trocar um livro de mais de 300 páginas por um conto, também, já que eu com certeza não ia ser capaz de terminar tudo isso nos dias da maratona.


a primeira coisa que li foi o vilarejo, que é uma coleção de contos que se passam nessa tal vila em algum lugar da europa (não é explícito, mas tem horas que falam sobre "ir para as américas" e os personagens têm nomes do tipo helga, ivan, mikhail etc). cada um dos 7 contos corresponde a um dos reis demônios do inferno, um pra cada pecado capital. dá pra ler em qualquer ordem mas tudo se encaixa de alguma forma, com os mesmos personagens e eventos em comum. o autor alega ser só o tradutor de uns cadernos escritos por uma senhora que morreu numa língua que não existe mais, e faz o prólogo e o posfácio serem parte da história, o que achei interessante, diferente. foi uma leitura sangrenta bacana, mas o estilo de escrita me dá a sensação de que qualquer pessoa poderia ter feito os contos, seguindo essa proposta de pecados capitais e um só cenário. se a escrita fosse mais cativante eu teria gostado mais.

em seguida li bloodchild, porque pouco antes tinha lido e gostado bastante de outro conto de octavia butler e, já que esse era gratuito pra baixar no kindle, aproveitei a oportunidade de ler mais dela. a história acontece em outro planeta, então achei engraçado usar pra preencher a categoria de "livro que se passa num lugar que eu gostaria de visitar", mas se eu soubesse os detalhes da vida dos terrans entre os tlic eu teria pensado duas vezes, hein. é um conto curto, então prefiro ir direto pra recomendação em vez de tentar resenhar, mas posso dizer que achei massa demais como a autora tirou inspiração das larvas parasitas de uma mosca da amazônia pra criar uma história de "gravidez masculina", escolhas, retribuição... gosto de como ela fala sobre o processo da escrita depois dos contos. um dos gêneros literários que quero começar a ler mais é ficção científica, e com certeza octavia butler é uma autora cuja produção me chama a atenção. quero ler mais mulheres e autoras negras, também, e de novo o nome dela é um dos grandes nessa.

depois li cápsula, que é uma antologia de histórias inspiradas por akira, de katsuhiro otomo. todos os autores são artistas e ilustradores brasileiros, alguns meus favoritos (puiupo, ing lee, amanda miranda, monge han, mas também tais koshino, d0rts, marco sem s, grazi fonseca e fernanda garcia). cada história assume um formato; algumas são prolongamentos do mangá, outras trazem pensamentos sobre tragédias e medos, e de alguma forma todas têm reflexões sobre identidade, o estado do mundo e a distopia pra onde parecemos estar caminhando. essa atmosfera cyberpunk, apocalíptica. arte e composições muito boas, criativas, inspiradoras. comprei com aquele pensamento de apoiar artistas independentes, aproveitando a promoção do quadrinho com o calendário feito pelo selo editorial da ing lee.

por último li los once, que é sobre os dois dias de cerco do palácio da justiça da colômbia, em bogotá, em novembro de 1985, quando guerrilheiros o ocuparam e foram atacados por forças militares. a história é contada pela perspectiva de uma mãe/avó que cuida da neta e espera o retorno do filho, que trabalha no palácio. parece que os fatos nunca foram esclarecidos e que existem várias versões, mas os "onze" do título fazem referência a essas pessoas que desapareceram no incidente e eram trabalhadores da cafeteria ou visitantes. bem construída a estrutura intercalando cenas da avó e dos onze, e muito forte a representação dos personagens como animais (os militares eram bestas que pareciam javalis, os onze desaparecidos são ratos e os guerrilheiros que os prestam ajuda são pombas).


além das propostas de leitura, cada dia tinha um desafio pro instagram, e no final da maratona haveria 4 vencedores que receberiam uma caixa desses clubes de assinatura de livros da vida. o primeiro era uma fotografia do meu lugar favorito pra ler, que por um tempo pareceu ser um dos lugares favoritos de velma também: a poltrona verde-sujo-praticamente-preta que fazia parte da edícula e agora fica na sala. gosto de ficar nela, em frente à janela e perto dos livros compartilhados (que na verdade são só meus ou de talita), onde é bem iluminado e fresco e nunca fica desconfortável. já era pra essa poltrona ter sido doada porque ninguém gosta (e velma mijou nela), mas fico feliz que ainda esteja em casa. e agora elvira usa ela bastante também, então somos três na defesa.

foto atual ilustrativa de como geralmente fico na poltrona (e onde elvira gosta de se enfiar)

o segundo desafio era fotografar meu marca-páginas favorito, mas pulei esse porque não ligo pra isso nem uso direito. o terceiro era uma foto da minha estante de livros, e como raramente vou pra casa dos meus pais (e nunca mais fui, por causa das atuais circunstâncias), tirei foto dos livros que ficam no meu quarto aqui em casa. minha estante são caixotes de madeira achados na rua e lixados, e tenho muito menos coisas nela do que na minha estante original, mas gosto assim. materiais de desenho e papelaria na caixa verde em cima do caixote, leituras em andamento embaixo da luminária, o som e a fúria sendo meu mousepad na mesa... também tenho livros na sala, aqueles supostamente compartilhados, mas juntando tudo deve dar só dois caixotes, e a maior parte ainda não li. já faz vários anos que não vejo mais sentido em comprar nada, então acho que vai continuar assim por um bom tempo.


o último desafio era fotografar um livro ao ar livre, e acabei combinando isso e o lugar onde estive durante a leitura de los once. na verdade comecei a ler de tarde e foi ficando escuro demais pra continuar nessa cadeira desconjuntada, então fiquei de pé perto da lâmpada, me mexendo pra não levar mordida de inseto. no geral gostei das minhas fotos, principalmente dessas duas últimas, e queria ter visto menos fotos padrãozinho de bookstagram nas hashtags de cada dia. as fotos vencedoras foram boas, mas vi melhores, também. de qualquer forma, esses desafios foram o que mais me animou a ver outros perfis e conhecer outras pessoas participando, o que foi massa.


apesar de eu ter lido 4 livros, nem foi tanto assim (deu 357 páginas no total), mas proporcionalmente é bem mais do que tenho lido nos últimos meses. ter uma carga de leitura extensa na faculdade acaba diminuindo minha vontade de ler no tempo livre, e estar em casa o tempo todo afetou demais minha concentração e motivação pra qualquer coisa, como eu sei que muita gente tá se sentindo igual. foi bom ter participado de uma maratona grande e conhecida pra sentir que não tô sozinha e pra me divertir com a sensação de estar num jogo, com os desafios e tal. a versão oficial da reading rush é em julho, então quem sabe eu emende tudo isso também.

asian readathon

recentemente comecei a acompanhar uma youtuber chamada cindy pham, e através dela soube da asian readathon, uma maratona em celebração ao mês do patrimônio asiático-americano e das ilhas do pacífico (maio). cindy tem descendência vietnamita e esse ano é a segunda vez que ela promove essa maratona, cuja proposta é justamente ler autores asiáticos ou de herança asiática durante o mês. junto com outros produtores de conteúdo e colaboradores voluntários ela montou um compilado muito massa de indicações de livros e autores, que dá pra usar em qualquer ocasião, não só nesse projeto. fui levantando as origens dos autores que temos aqui em casa e com carolzinha tinha índia, israel, paquistão... e de graça pro kindle achei china e turquia, também. mas os desafios eram 4: ler qualquer livro de um/a autor(a) asiático(a), ler um livro com um personagem asiático ou de um(a) autor(a) asiático(a) com quem posso me identificar, ler um livro com um personagem asiático ou de um(a) autor(a) asiático(a) que é diferente de mim e ler um livro recomendado por um(a) asiático(a). sempre é permitido combinar categorias em um livro só, mas a ideia era ler autores de nacionalidades diferentes pra cada livro. no começo eu tinha reunido, respectivamente pra cada uma, judas (de amós oz, israelense), babyji (de abha dawesar, indiana), eu sou malala (de malala yousafzai, paquistanesa) e o mangá otouto no otto ("o marido do meu irmão", de gengoroh tagame, japonês), mas acabei não seguindo isso. também teve a leitura conjunta de little fires everywhere (de celeste ng, sino-americana), seguida por uma watchalong da adaptação pra série de TV, ambas acompanhadas por discussões online em lives no youtube, e fiz a mesma coisa de participar sem ter planejado.
o mangá eu li online, tem 2 ou 3 volumes e 28 capítulos, só.
comecei lendo babyji, porque dia 10 ia ter uma discussão online promovida pelo clube lesbos curitiba, já que a história gira em torno de relacionamentos entre mulheres. lá atrás comentei que tirei todas as cores do céu da stay home reading rush com a intenção de deixar esse livro pro mês de maio, que teria a asian readathon e seria mais tempo pra ler, mas acabou que troquei ele de novo pra não repetir nacionalidades. o clube lesbos tinha disponibilizado babyji pra baixar de graça também, então pareceu uma boa oportunidade, mas no fim foi uma grande decepção. a protagonista, anamika, é uma estudante de 16 anos que arruma um caso com uma mulher quase 3x mais velha, outro com a criada também mais velha que ela e mais outro com uma colega de escola. zero simpatia por anamika, que apesar de ser adolescente é extremamente pretensiosa e arrogante, e zero desenvolvimento de qualquer personagem ou do enredo. não dava nem pra criar algum interesse em alguém porque nenhuma personalidade era explorada a fundo, nenhum conflito gerou grandes problemas, nada pareceu realista e por isso não dava pra levar as coisas a sério. anamika força a criada a fazer sexo e estupra a colega, ainda por cima, e em nenhum momento isso é discutido pra além de "só acelerei uma coisa que ela queria fazer" ou "eu reagi exageradamente". simplesmente sem sentido e potencialmente prejudicial, na minha opinião, e fiquei indignada que só mais uma mulher além de mim desgostou do livro no encontro do clube, que tinha umas 17 pessoas. tem sim algumas questões que dá pra trabalhar, como a visão sobre as "contradições da índia", a protagonista perpetuando comportamentos merda ao se relacionar com mulheres porque é isso que tem como referência, ou então se identificando com figuras masculinas já que não se vê no que é "ser mulher" na sociedade em que vive. ainda assim sinto que tudo poderia ter sido abordado de maneira mais complexa e completa, além de que o único suposto crescimento de anamika foi em benefício próprio (e ela ainda acaba o livro fazendo uma menção muito questionável a meritocracia, véi).

depois dessa raiva encontrei little fires everywhere em formato pra kindle no piratebay e, lendo despretensiosamente, me surpreendi com a escrita e acabei indo até o fim. foi um bálsamo pra leitura anterior; a história é instigante, as reviravoltas são inesperadas, os personagens têm muitas facetas, a escrita é maravilhosa. tudo se passa em shaker heights, um lugar guiado pela ordem e pelo planejamento, representados fortemente pela família richardson, mas que começa a sofrer pequenas faíscas de mudança que questionam essa imagem de perfeição quando mia warren se muda pra lá com a filha pearl. críticas ótimas aos brancos ricos agindo como bons samaritanos e salvadores mas reproduzindo os mesmos preconceitos e erros de sempre, e a esses ideais ilusórios de segurança que guiam muitas pessoas e oprimem tantas outras. gostei de como tudo e todos têm muitos lados, de como nada é simplesmente uma coisa ou outra, o que faz a gente ser obrigado a aceitar a incerteza e o relativismo característicos de quase tudo no mundo. na live pra discutir o livro comentaram sobre alguns personagens terem ficado um pouco de lado conforme as coisas se desenrolavam, e é verdade, apesar de tudo. o núcleo antagonista foi representado na série por mulheres negras, apesar do livro não deixar claro nada sobre sua cor, então houve uma atenção em especial à questão do racismo na adaptação, que foi bastante pertinente e incisiva. além disso e do final diferente, não teve muita coisa de que eu gostei na série; senti que a personagem de mia perdeu o ar de mistério e sabedoria que ela tem no livro e que a rivalidade entre ela e elena ofuscou os outros conflitos. mas pra quem não leu deve ser mais interessante.


por último li otouto no otto, apesar de ter começado eu sou malala antes (acabei o mês tendo lido pouco mais de 30% do livro). yaichi vive no japão com sua filhinha kana e eles são surpreendidos pela visita de mike, canadense que foi casado com o irmão gêmeo falecido dele, ryouji. ao longo das três semanas que mike passa em sua casa, yaichi vai repensando e lidando com seus próprios preconceitos, e passa a entender melhor e fazer as pazes com essa parte da vida do irmão de que não fez parte. achei massa mostrar essa transformação em yaichi, que acaba vendo na própria vida aspectos igualmente não-convencionais (pai solo, divorciado) que também não merecem ser invalidados ou discriminados; uma boa abordagem, de uma perspectiva diferente. achei desnecessário e repetitivo as conversas sobre refeição e o próprio foco que a comida recebe, só, e não tava esperando a menção às bandeiras lgbt pra furries e bdsm, mas legal. descobri que fizeram uma adaptação em live-action com 3 episódios, e os atores são bem iguais aos personagens. deve ser bacana.

comecei judas outro dia também mas não li muito, então encerrei a maratona tendo lido só isso, mesmo. mas foi bom pra eu ver que não faz sentido querer ler tanto se meu normal tem sido muito menos, né. o booktube e o bookstagram forçam muito a barra na quantidade, quando o que deveria ser priorizado é a qualidade, e tô enxergando isso. hábito se cria mirando baixo pra aumentar os objetivos bem devagar, conforme a gente se acostuma e seguindo o que funciona pra cada um, afinal. também sei que não consigo seguir planejamentos de leitura, e tudo bem, qualquer avanço ainda é um avanço. tô aprendendo a respeitar meu ritmo e olhar pro que realmente importa nesses tempos.

foi massa participar de uma maratona com um tema específico e ver as conversas em torno do assunto, que foram muito além de onde vi começar. tudo o que vi de lá fora valeu pra me fazer pensar na produção literária de autores brasileiros de descendência asiática, também, que acho que não conheço nada. e apesar de não ter conseguido ler os 4 livros que designei pra cada desafio, o que eu li conseguiu preencher tudo: babyji como o livro com um personagem asiático diferente de mim (anamika é estudante do ensino médio e eu tô na faculdade), little fires everywhere como o livro qualquer de uma autora asiática, além de ter sido a leitura conjunta proposta, e otouto no otto como o livro com um personagem com quem posso me identificar (tanto mike quanto eu somos lgbt) e como recomendação de uma pessoa asiática (no caso, de @simoneandherbooks). e ainda fiquei com muitas outras recomendações de pessoas do mundo todo, então valeu muito a pena.

esquema de livros de autoras asiáticas elaborado pelo club de té, uma organização feminista chilena que achei no instagram

de junho a julho vai ter uma maratona brasileira, dessa vez, que coincide de ser a última maratona de que eu tinha participado antes dessas duas recentes: a maratona literária de inverno do canal geek freak (do victor almeida, que antes era do olhos de ressaca). aparentemente a mli desse ano vai ser uma versão 2.0 de uma tal booktubatona, que não sei quando teve a primeira edição mas com certeza esse nome foi inspirado na booktube-a-thon gringa. relendo a postagem de 2017 sobre a edição que eu participei vi que na época usaram o aplicativo amino pra reunir os participantes e promover interações, mas acredito que não vá acontecer o mesmo agora. tudo tá girando muito em torno do instagram, né, e não sei se isso é bom ou ruim. aquele sentimento incômodo de ver "facebook" escrito abaixo do nome do aplicativo quando abro ele no celular. acho que tô deixando minha participação registrada aqui porque sei que posso desistir de ter um perfil lá a qualquer momento, afinal. já sinto que tô perdendo o ritmo de leitura e o interesse em continuar, mas sei que montar listas e planejamentos me anima, então pelo menos isso devo fazer.

domingo, 15 de junho de 2014

Especial: Os Lusíadas

Oiê!
Antes de tudo: chamo esta postagem de "especial" porque não estou aqui só para comentar sobre a magnífica obra de Luís Vaz de Camões, mas sim para falar sobre tudo que eu aprendi sobre Os Lusíadas na escola com uma professora de literatura excelente (beijo, Gláucia!). Com isso posso recapitular e estudar para a prova que chega no fim do mês, além de compartilhar com os amigos que desejam relembrar também. Quando eu era pequena decorei seu famoso soneto "Amor é fogo que arde sem se ver" (♡) e por isso, desde então, me interesso bastante por Camões. Aqui vai, primeiramente, uma introdução ao autor.

Há 434 anos, no dia 10 de junho, morria Luís de Camões.
Não se sabe o lugar exato do nascimento de Camões, mas é dito que foi em Lisboa, em 1524. Quando jovem, serviu a coroa portuguesa no norte da África, onde perdeu um dos olhos e, apesar desse obstáculo, ele nunca deixou de escrever. Na época que compôs Os Lusíadas, Camões estava exilado no Oriente como punição por ter agredido um oficial do rei durante um momento não-sóbrio de exaltação. A obra foi dedicada ao rei Dom Sebastião, com o acordo de que, se este gostasse, permitiria o retorno de Camões ao reino de Portugal. Camões passou um bom tempo na China, onde conheceu uma moça por quem se apaixonou: Dinamene. Pois sucedeu-se que, na embarcação onde Camões velejava de volta a seu país de origem, aconteceu um acidente e, na hora do naufrágio, Camões precisou escolher entre salvar sua chinesinha (que não sabia nadar) e sua obra-prima. Não preciso dizer o que foi que ele salvou, não é... (mas veja só, Camões mostra sua profunda tristeza sobre o incidente no soneto "Alma minha gentil, que te partiste", que é deveras muito belo.) Camões recuperou seu direito de permanecer em sua pátria graças a Os Lusíadas, mas não manteve a glória que o mesmo o proporcionou – tanto que morreu como indigente, sem nem ao menos uma identificação. Existe um túmulo no Mosteiro dos Jerônimos que é, supostamente, de Camões – mas é apenas um ponto turístico, uma homenagem para "se desculparem" com Camões por não terem dado a ele o reconhecimento que ele merecia.

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Os Lusíadas é um poema épico que conta a história da viagem de Vasco da Gama às Índias, bem como alguns fatos da história do reino português até então. É composto por dez cantos (partes), contendo ao todo 1102 estrofes, com versos métricos cujas rimas têm o estilo AB AB AB CC (contendo, portanto, oito versos cada).

Estudamos, na escola, seis episódios: O consílio dos deuses; Inês de Castro; O velho do restelo; O gigante Adamastor; A Ilha dos Amores e A máquina do mundo.

O consílio dos deuses (canto I)
Antes que a viagem de Vasco da Gama e sua frota dê início, é feita uma reunião entre os deuses para decidir se os portugueses devem ou não alcançar seu objetivo. Baco (nome romano alternativo para Dionísio, deus do vinho e da orgia) se opõe ao sucesso dos navegantes e Vênus (Afrodite, deusa do amor) decide apoiá-los. Sendo assim, Baco é o inimigo dos portugueses, enquanto que Vênus é sua protetora.

Inês de Castro (canto III)
Inês suplica que não matem a ela e a seus filhos.
Essa parte se refere à história de Portugal anterior à viagem até as Índias. Um príncipe português se apaixona por uma jovem simples, descendente de espanhóis, chamada Inês de Castro. Seu amor não pode ocorrer, sempre esteve claro para ambos – não só pela disparidade de seus berços, mas principalmente por Inês ter origens espanholas: Portugal e Espanha eram rivais e nunca seria permitido uma "mancha" do país oposto em um dos tronos. Apesar da proibição de seu pai, o rei Dom Afonso, Pedro continua amando a jovem – até chegar ao ponto de Inês morar numa casa, com dois filhos de Pedro, onde é visitada pelo mesmo secretamente. Quando o rei descobre, decide casar seu filho com uma moça portuguesa, para evitar assim a continuação do absurdo – ao que Pedro se opõe prontamente. Não havendo outra solução, Inês é sentenciada à morte. Ao receber a notícia, Inês chora às margens do rio Mondego – local até hoje rememorado e visitado pelos amantes por seu caráter trágico e romântico – e depois é morta, assim como seus pequenos filhos.

Mas não pára por aí. Pedro, não tendo podido fazer nada para impedir a execução da mulher que amava, resolve ir mais longe: no dia de sua coroação, pouco depois da morte de Inês, Pedro tranca num quarto a moça com quem fora obrigado a se casar e manda trazer os ossos de Inês – os quais mandou que fossem montados como se ainda houvesse vida neles – e, tendo vestido-os, coroa sua amada. Inês é, então, a Rainha Morta.

Conclusão: o enfraquecimento do governo previsto caso Inês fosse rainha de fato acontece – misticamente por sua coroação pós-morte ou, logicamente, pela crença do povo de que seu novo rei era louco.

O velho do restelo (canto IV)
Estava a frota de Vasco da Gama a se despedir das pessoas que deixariam em Portugal quando, do meio das pessoas, surge um velho maltrapilho. Ele começa a pregar que a viagem que estavam prestes a fazer era simplesmente um disparate, um suicídio: o velho dizia que Portugal só buscava fama, e que a recompensa que poderiam obter não valeria o sacrifício. Ele disse que os homens estavam indo numa viagem insensata, pois Portugal não estava preparado para uma empreitada daquele porte; que estavam deixando as mães que tinham em seus filhos o refrigério e o amparo para sua velhice a troco de virarem comida de peixe; que estavam tomando de suas esposas o corpo que já não era só deles – já que, conforme prega a instituição do casamento, ao juntarem-se, marido e mulher tornam-se uma só carne. E apesar do avisos do homem, os navegantes não dão ouvidos às críticas que ele fazia – justamente por ele ser velho e mendigo.

O temível Adamastor.
O gigante Adamastor (canto V)
O Cabo das Tormentas, ao sul da África, era um ponto muito conhecido por suas águas revoltas e por causar constantes naufrágios. Como o homem sempre fizera quando não sabia explicar alguma coisa, esses obstáculos eram atribuídos a um gigante que morava por aquelas bandas – Adamastor, um sujeito enorme, de voz tonitruante e olhos bravios e fundos. Morava tão profundamente naquelas águas que seus cabelos e barba continham areia, e quando surgia na superfície causava o movimento desordenado das ondas.

Vasco da Gama e sua frota presenciaram a aparição do gigante e, ao perguntarem "Quem és tu?" para o gigante, este conta a eles sua história, além de ameaçá-los sobre os perigos de sua viagem, cujo menor mal seria a morte (segundo suas palavras, intensificando os alertas feitos pelo velho do restelo). Após comover-se com memórias trazidas à tona com sua história, Adamastor logo desaparece na nuvem temerosa em que surgiu, deixando os navegadores em paz – e estes seguem viagem.

Os portugueses são recebidos na Ilha dos Amores.
A Ilha dos Amores (canto IX)
Depois de bem sucedida a viagem, a frota ancora em uma ilha para poder reabastecer os suprimentos dos navios antes de seguir para Lisboa. Os navegadores são, então, presenteados com uma recompensa de Vênus, a deusa que os estivera protegendo: ninfas os recebem com quitutes para saciar sua fome e oferecem seu corpo para proporcioná-los prazer. Isso ocorre pois Vênus e seu filho Cupido fazem com que elas se apaixonem pelos portugueses – já que ninfas não se ofereceriam assim a homens pois não é de sua natureza o fazer – e lhes proporcionem satisfação. É uma ilha paradisíaca, com uma fauna gentil e com frutos suculentos que são produzidos sem terem sido cultivados. Tudo que ocorre é passageiro e carnal: uma paixão repentina, uma alegria imediata, uma rápida recompensa.

Curiosamente, Vasco da Gama é colocado como superior nesse momento: ele é separado desse ato carnal e é levado a um lindo palácio por Tétis (que também está sob o controle de Vênus), enquanto os outros ficam nos arredores dos bosques com as ninfas.

A máquina do mundo (canto X)
Acabado o banquete e a "festança" geral, Tétis leva Vasco da Gama no ponto mais alto da ilha, de onde podem ser vistas as esferas celestes que redigem o universo (de acordo com a teoria geocêntrica aceita na época), com a Terra em seu centro e os planetas girando, quase que imperceptivelmente, ao seu redor.

Enquanto contempla a magnificência do universo que o cerca, Tétis mostra a Vasco da Gama o grande significado que sua conquista tinha para o mundo como parte de uma engrenagem e como uma peça decisiva para a evolução das habilidades do homem. Tétis diz a ele que esse feito não pode nem deve ser esquecido e o incumbe da missão de espalhar essa conquista, de disseminar os conhecimentos adquiridos e de fazer com que seja reconhecido o valor de tudo o que ele, com a ajuda de sua frota, realizara.

Apesar de tudo, acontece, de fato, o infortúnio que o velho do restelo previra: saíram de Portugal 170 homens e voltaram apenas 55. Considerando que na Idade Média havia muito menos pessoas que no mundo atual, menos da metade dos homens que foram mandados numa viagem dessas terem retornado é um número amedrontador. Por muito tempo, depois disso, Portugal não cresceu significativamente – já que não haviam tantos homens para serem pais. A conquista de Vasco da Gama não recebeu tanta admiração quanto se esperava e acabou caindo no esquecimento, sem grande valor para ninguém.

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É isso então! Através das aulas de literatura aprendemos bastante coisa sobre Os Lusíadas – tanto que pretendo ler a epopeia nas minhas férias (que serão em julho). Espero que seja útil pra quem esteja estudando a obra na escola, também.

Pra quem tiver curiosidade, o rei Pedro da história de Inês é, na verdade, Dom Pedro I. Na internet é contada uma história diferente sobre eles, mas já que não conheço muito o assunto, fico satisfeita com a versão de Camões. Até hoje é usada a expressão "agora Inês é morta" pelos portugueses – o que equivale ao nosso "fazer o quê", ou "agora não tem mais jeito". Meus amigos e eu adotamos a expressão ao nosso cotidiano e tem sido bem divertido trocar palavras que outros não compreendem, haha!

Até a próxima!