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| (14/07. Mundo de tinta é gratuito e não li.) |
Uma das primeiras coisas que li foi salt, de Nayyirah Waheed. São poemas curtos e muito impactantes sobre uma variedade de temas, mas principalmente racismo, autoimagem e feminismo. São simples e diretos como socos no estômago, tendo essa dualidade de serem agressivos apesar de delicados e serem difíceis de engolir mesmo sendo fáceis de ler (penso que na mesma linha dos poemas de Rupi Kaur, que tem sido popular por esses tempos). Gostei de tantos que não consigo ficar sem compartilhar alguns:
there
are feelings.
you haven't felt yet.
give them time.
they are almost here.
– fresh
racism is a translucent skin.
it defends itself
by
attacking itself.
– reverse racism
i lost a whole continent.
a whole continent from my memory.
unlike all other hyphenated americans
my hyphen is made of blood. feces. bone.
when africa says hello
my mouth is a heartbreak.
because i have nothing in my tongue
to answer her.
i do not know how to say hello to my mother.
– african american ii
for me
there is no other.
because there is no default.
everyone
is
a variation of life.
– the human being | the human gender | the human sex
Depois, explorando um canal do YouTube por causa de um tweet, cheguei a um vídeo sobre despedidas que achei muito massa. Em um momento o cara comenta sobre um livro de contos que escreveu com várias outras pessoas chamado Destino e resolvi ler – todos abordam esse tema, alguns são mais breves e outros se desenvolvem bastante, tendo até mesmo realismo fantástico. Gostei mais dos primeiros mas achei bacana a ideia e foi uma leitura leve.
Também li Os meninos morenos, do Ziraldo. São memórias de sua infância despertadas após uma viagem à Guatemala, onde conheceu o poeta de origem maia Humberto Ak'abal (que tem alguns poemas inseridos no livro também) – sua poesia trata de seu pueblo e dos meninos cuja identidade tanto se assemelha aos meninos de Ziraldo, além de que são "filhos da mesma floresta". Foi uma leitura bastante agradável: pequenos trechos, desenhos e poemas que quase sempre puxam um sorrisinho. Bastante simples e curto mas, como fez salt, dá brecha a vários pensamentos que perduram. Abaixo vários trechos.
A verdade é que talvez, mas só talvez, haja milhões de maneiras certas e esses fios vermelhos estejam nos amarrando a todos e a qualquer um.
Minha dor não é e nunca foi inútil. (...) talvez, pela minha própria dor, eu possa ter encontrado um pedacinho do meu ser.
Também li Os meninos morenos, do Ziraldo. São memórias de sua infância despertadas após uma viagem à Guatemala, onde conheceu o poeta de origem maia Humberto Ak'abal (que tem alguns poemas inseridos no livro também) – sua poesia trata de seu pueblo e dos meninos cuja identidade tanto se assemelha aos meninos de Ziraldo, além de que são "filhos da mesma floresta". Foi uma leitura bastante agradável: pequenos trechos, desenhos e poemas que quase sempre puxam um sorrisinho. Bastante simples e curto mas, como fez salt, dá brecha a vários pensamentos que perduram. Abaixo vários trechos.
Foi cheia de adjetivos inadequados a noite que está na minha memória com todos os seus detalhes: o cerimonial do nascimento do meu segundo irmão. Mesmo assim continuei, por muito tempo, acreditando que as crianças chegavam à vida trazidas no bico de uma cegonha. Até o dia em que, diante de alguém tentando me contar mais uma vez a velha história, ouvi meu estabanado avô berrar: "Que cegonha, coisa nenhuma! Conta a verdade pro menino! No país que tem passarinho de tudo quanto é jeito voando nessas matas, o povo vem inventar uma desgraça duma ave que nunca voou por aqui!". Eu perguntei, então, que passarinho era o portador dos bebês. O velho ferreiro berrou mais alto: "O passarinho é o que entrou na barriga da sua mãe, sô, um homem dest'amanho!".
Todas as comidas feitas de véspera, as camas desfeitas, a casa sem varrer, nem brincar, nem falar alto, ruído nenhum. Qualquer barulho aumentaria a dor nas chagas de Cristo. Era sexta-feira da Paixão e meu pai, cedinho, nos acordava e, bem baixinho, explicava pra gente como devíamos agir naquele dia e dissertava sobre o que era respeito, e a gente achava sensacional o desafio de ficar quietinho um dia inteiro.
A gente não estudava. Não tinha tempo. A gente brincava. Quando chegava, porém, a época das provas, tome angústia. A noite inteira acordado, o abajur aceso sobre o livro de Ciências, a lista dos pontos, os pés dentro de uma bacia de água para não dormir (como fazia Machado de Assis, coisa que a gente aprendeu lendo e não estudando).
Singh Bean cita Cartas a um jovem poeta (de Rainer Maria Rilke) em Život je tady, que li há pouco tempo, e peguei pra ler pois vi que era um livro disponível no Kindle Unlimited. É composto por conselhos em forma de correspondências para Franz Kappus, jovem que aspira à profissão artística e pede orientação do escritor, que discorre sobre solidão, tristeza, amor, deus, arte e etc. Achei muitas coisas bastante inspiradoras e interessantes, embora algumas vezes tenha tido que reler trechos pra fazer passar a sensação de "cê tá se achando o sabedor de tudo, não é bem assim" (compreendendo melhor acabava até que concordando).
As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou.
Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Se Ele é o mais perfeito, não deve ter havido algo menor antes d'Ele para que Ele se pudesse escolher a si mesmo dentro da plenitude e abundância? Não deverá ser Ele o último, para encerrar tudo em si? Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse sido?
Sua dúvida por tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora. talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.
O eBook tem duas partes, na verdade, e a segunda chama-se A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. É uma pequena história protagonizada por esse jovem, em algum momento do século XVII, a serviço de uma cavalaria austríaca; ele se envolve brevemente com uma condessa no castelo onde se hospedam, acontece um incêndio do lado de fora e ele acaba morrendo (não é spoiler se tá no título, né?).
As altas chamas tremulavam, as vozes estrugiam, confusas canções jorravam dos cristais e das luzes; e finalmente dos ritmos amadurecidos brotou a dança. E a todos arrastou. Era um bater de vagas pela sala – um encontrar-se e um escolher-se, um despedir-se e um reencontrar-se, um embriagar-se de brilho e um cegar-se de luz, e um embalar-se no vento estival que mora nas roupagens das cálidas mulheres.
A câmara da torre está apagada. Mas eles iluminam seus rostos com sorrisos. Tateiam diante de si como cegos e encontram o outro como uma porta. Quase como crianças assustadas diante da noite, apertam-se um ao outro. No entanto nada temem. Não há nada contra eles: nenhum ontem e nenhum amanhã, pois o tempo se desmoronou. E eles florescem das suas próprias ruínas.
Também li Mayombe, de Pepetela, e gostei demais. A história se desenvolve durante a guerra de independência da Angola contra Portugal, tendo como personagens os guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Todos têm apelidos de acordo com sua personalidade e/ou atitudes: Sem Medo é o comandante muito valente, Mundo Novo é bem estudado nas tendências europeias marxistas, Milagre é o melhor bazukeiro, Teoria é o professor do grupo e assim por diante. O livro é muito real, mostrando o cotidiano dos que faziam a luta revolucionária, bem como seus sentimentos, reflexões, contradições e conflitos – coisa que recebeu até críticas na época que foi lançado, já que exibia suas falhas e divisões internas, uma vez que o tribalismo continuava tendo voz. Cada pessoa tem sua razão para estar ali e isso fica claro nos trechos onde personagens tomam frente da narrativa, já que através desse recurso conhecemos a origem e as experiências de diferentes elementos do movimento. O que mais se destaca é Sem Medo, que tece a história com muitos ideais interessantíssimos à medida que conta sua jornada, aconselha seu companheiro Comissário e gerencia a frente libertadora. Esse vídeo é um ótimo complemento.
Os guerrilheiros encavalitaram-se num enorme tronco caído. Deixara de respirar, monstro decepado, e os ramos cortados juncavam o solo. Depois de a serra lhe cortar o fluxo vital, os machados tinham vindo separar as pernas, os braços, os pelos; ali estava, lívido na sua pele branca, o gigante que antes travava o vento e enviava desafios às nuvens. Imóvel mas digno. Na sua agonia, arrastara os rebentos, os arbustos, as lianas, e seu ronco de morte fizera tremer o Mayombe, fizera calar os gorilas e os leopardos.
— (...) As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar.
— (...) Isso é que me enraivece. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nosso desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las connosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus.
Depois foi a vez de Viagem solitária, de João W. Nery, que eu nem esperava que tivesse no Kindle Unlimited. É uma autobiografia do primeiro homem trans brasileiro de que se teve notícia, narrando as angústias presentes desde a infância pela incompatibilidade que sua mente encontrava em seu corpo. Ele percorre por todos os pontos que construíram sua jornada – o bullying, a depressão, os relacionamentos, a autoafirmação, as cirurgias, o recomeço, a paternidade –, bem como vários nomes que tiveram algum impacto em sua vida. Pelo que parece é uma espécie de atualização/complemento de sua primeira obra, Erro de pessoa: Joana ou João?, publicada em 1984. Pra citar Simone Ávila, que no final do livro fala um pouco sobre o autor: Ele se pergunta: "em que grupo existente eu me enquadraria?". Ou, dito de outro modo, "quem inventou essa coisa de que temos de nos enquadrar no que já existe?!? Por que não podemos simplesmente ser o que queremos ou quisermos?!? Por que eu tenho de seguir normas que não são minhas?!?" É doloroso pensar no tanto de pessoas incompreendidas que precisaram encarar tanto sofrimento numa época de repressão onde ainda faltava muito avanço, e ainda há um longo caminho a se percorrer nos dias de hoje.
"Você nasce e morre dentro de caixas. Caixa da família, da escola, do casamento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você já é estigmatizado. Tem que ter muita estrutura para segurar a peteca da marginalidade."
Quando sentia medo, pelo menos pressupunha um objeto, uma ameaça, algo que eu pudesse de algum modo contornar ou dele fugir. Porém, nessa angústia nada me ameaçava claramente. Não havia um objeto a ser enfrentado para prosseguir minha estranha caminhada existencial. Percebi, então, que o "sem sentido" e o "sem valor" da minha angústia me tornavam um estrangeiro nesse mundo tão cheio de categorias. A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir.
Depois de lhe contar a última com meus amigos trans, sobre o homem grávido, perguntei a opinião dele. Respondeu sem pestanejar:— Acho que precisamos ser mais tolerantes.
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| Frigg tecendo as nuvens (John Charles Dollman, 1909) |
Há uma terceira coisa sobre a terra: quando sua superfície é revirada e desenterrada, a grama cresce no solo. Montanhas e rochedos foram associados aos dentes e ossos de criaturas vivas, e assim eles viam a terra de alguma forma como um ser com vida própria. Eles sabiam que era inconcebivelmente antiga em idade, e por natureza, poderosa; ela deu origem a todas as coisas e possuía tudo o que morria, e por isso deram-lhe um nome e reconheceram sua descendência dela.
Por último, ainda vou ler Uma duas (de Eliane Brum), mas isso é assunto pra outra postagem.


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