relatos pessoais: eu tenho me sentido diferente já faz algum tempo. (engraçado que tomei consciência disso logo após completar 18. seria a vida adulta?) parei de esquentar a cabeça por não alcançar coisas que eu acho que quero e por não ser quem eu acho que eu gostaria de ser. eu olho pras coisas e reviro os olhos, não tenho vontade de saber, etc, etc. tenho pensado que a internet não tem muito sentido na maior parte do tempo; pelo menos pra mim não tá mais funcionando. tô me isolando de novo, mas dessa vez não tô detestando minha companhia o tempo todo nem sentindo falta de gente.
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| trecho de Spirits of the dead, de Edgar Allan Poe |
penso em apagar várias coisas minhas, mas às vezes me falta coragem ou tenho dó. sei que existe uma grande chance de que eu mude de ideia daqui a algum tempo e queira tudo de volta, mas acho que seria bom me afastar um pouco, considerando que nunca fiz isso e que as circunstâncias estão como estão. (talita tá me inspirando nessa.) já separei outro espaço pra registrar coisas que não quero perder com a memória que possuo e não sei exatamente pra que usar este blog, mas, de qualquer forma, vou deixar aqui textos que estavam no tumblr (que deletei) e que não ligo muito de ter expostos.
talvez eu seja as gotas [uma conversa antiga]
— Fique olhando pras gotas por bastante tempo… Não dá uma agonia? Agonia legal.
— Nossa, dá. Pra mim é uma agonia que dá vontade de chorar. Talvez eu seja chorona mesmo.
— Pra mim dá vontade de limpar o vidro logo para elas pararem de ser gotas, mas ao mesmo tempo não dá porque elas são gotas muito bonitas.
— Pra mim é como se elas precisassem se mexer, assim como todas as gotas fazem, mas elas não querem e não o fazem.
— Por que elas não querem? Mas verdade, dá agonia de vê-las paradas enquanto podiam estar fazendo algo melhor, algo que gotas fazem.
— Não sei. Talvez elas não consigam. Talvez tenham medo.
— Nossa, poxa… Mas gotas fazem isso, não tem do que ter medo. Se elas não querem e têm medo é por algum motivo.
— Ah, sei lá. Talvez elas estejam confortáveis ali paradas e queiram continuar assim pois mudar as assusta.
— Hm, entendo… Que pena pra elas. Mas ainda acho que tem alguma coisa que as deixam assustadas. Elas não sabem o que estão perdendo deixando de fazer o que gotas fazem.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015 [uma crônica secundarista]
levantei cansada e suada. parecia até que eu tinha dado a volta no quarteirão ao invés de ter dormido. estranhamente o despertador não fez barulho algum, só ficou ali piscando, de novo. mas acordei com isso. cinco minutos de cochilo extra que não serviram pra muita coisa e eu estava indo ao banheiro lavar meu rosto, pescoço e pulsos. (uma vez, quando não estava me sentindo bem, uma professora disse pra eu fazer isso. não sei se faz alguma diferença esfriar os pulsos com água, mas virou costume.) tirei a roupa com a qual tinha dormido, coloquei uma calça jeans e lembrei o quão agoniante foi aquela tarde de sol, três dias atrás, vestindo-a. peguei outra e coloquei qualquer camiseta de uniforme. ainda suava. apesar de eu não ter desligado o wi-fi na noite passada, minhas mensagens não carregavam; estranhei. não deu tempo de terminar de comer o pão que minha mãe deixara pronto pra mim, de novo. enrolei em papel toalha e corri lá pra fora; o motorista da van já tinha buzinado duas vezes. errei a chave do portão e saí xingando. “a luz não acendeu, já tava quase indo embora”, ele disse, ao meu bom dia. não respondi. tentei comer o resto do pão na van mas fiz sujeira, então guardei na bolsa. com o calor não pensei em pegar casaco, mas senti um arrepio incômodo. ignorei, coloquei os fones. não fiquei com eles por muito tempo, algo parecia errado. tentei ler, não pude me concentrar. fiquei decepcionada por ter pego peso extra pra carregar. ao chegar na escola percebi que vestira o uniforme curto que me desagrada, ainda mais quando junto àquela calça de cintura baixa, e não tinha nada pra cobrir, já que não tinha pego agasalho. fui ao banheiro e lembrei que tinha começado a sangrar antes de dormir. tentei me preparar psicologicamente pra sofrer com as cólicas que, por não terem interrompido meu sono, provavelmente me acometeriam logo. desaprovei meu reflexo no espelho e voltei ao meu lugar de praxe. parecia estar tudo bem, estava finalmente contigo depois de quatro longos dias, mas eu ficava tendo picos de suor e calafrios. subimos à sala pra deixar as mochilas e me senti mal, te abracei e não soltei logo e você estranhou porque tínhamos que ir logo à sala de vídeo. “tá tudo bem?” respondi que não. “não?” fiquei ali escondida em você por um instante antes de voltar a ignorar o mal-estar. você ficou vigilante, solícito. melhorei logo. como poderia me sentir ruim tendo seu olhar ao alcance do meu? (eu te amo.) mais tarde vieram as hóspedes violentas. descrevi pra você a dor nas coxas que sempre acompanha minhas cólicas: como se estivessem tentando arrancar a carne do meu fêmur com uma espátula. fica até pior que a dor no útero; elas competem pra ver qual me derruba primeiro. você me fez massagem, ficou ali ao meu lado, paciente. quase vomitei de dor. (mesmo assim me ofereceu seus beijos.) sentamos juntos pra fazer o exercício de física e ao acabar a aula você pensou que estávamos adiantados, mas já passava do horário de saída. você foi embora correndo depois de me abraçar e eu fui buscar remédio com a minha mãe. minha cabeça também doía um pouco, aliás, mas não o bastante pra chamar minha atenção quando eu já tinha as outras dores. acho que a tarde prosseguiu normalmente. agora, enquanto escrevo, sinto como se tivesse insetos me mordendo. já não vejo por aqui aquelas formigas, mas tenho essa impressão sempre que me sento à mesa. como a impressão de que o dia seria estranho que tive ao acordar hoje de manhã. sei lá.
terça-feira, 4 de outubro de 2016 [...bastante ólgusjór]
eu me senti tão mal por tanto tempo que, num instante em que consegui vencer a correnteza e espiar pela superfície pra tomar um ar, aproveitei pra tomar uma decisão que poderia me empurrar pro fundo definitivamente ou me colocar numa jangada. me senti segura e sensata, terminei. submergi, me coloquei pra dormir entre afogamentos de lágrimas e soluços. solução? desespero. e então, calma. o mar se abrandou e eu senti que podia respirar de novo.
me senti mal por você, pelo jeito que você lidou. mas o que eu podia fazer? fiquei ali, pra caso quisesse que eu te arremessasse um colete salva-vidas. eu não podia te salvar. daí passou, cê nem olhava mais pra mim. olhava assim, de vez em quando, pra saudações, despedidas e ocasionais “fique bem” (nada muito diferente de como estávamos antes, afinal).
daí veio aquela onda. tsunami? me arrastou. não de imediato, é claro, porque eu previ o abalo e me abriguei, mas não foi em terreno firme. eu não sou terreno firme. quando desabei levei tudo no caminho, voltei pra um buraco qualquer no leito das águas e me mantive onde não dava pra piorar.
e então a epifania. eu sei que ela tava esperando por mim, só não tinha encontrado o solo fértil ainda. ela floresceu e eu colhi. contemplei tudo e entendi. sou parte disso, tá tudo onde deve estar. e agora eu não tô tão equilibrada assim, mas eu tô consciente de que a ressaca só molha meus pés, de que eu consigo me segurar e sou capaz de ser minha própria âncora.
ainda dói, e ainda vai doer, mas é assim que tem que ser. e eu sei que consigo mudar, e vou, mesmo com esse pedacinho uniforme que vez ou outra se amplifica. eu sou eu sou eu sou.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016 [dia do policast]
a cor do cachimbo é vermelha igual ao peito que sangra, sangrou e sabe que ainda tem muito o que sangrar. torpor, selecionando o automático e não encontrando a fagulha pra acender o que queimou. já queimou? pensei que tinha queimado tudo mas juntando os nossos restos fiz uma pira nova. pilhada em não falhar tropeço, pilhada em cumprir me impeço, não me meço e arremesso vento demais na chama se corro pra um falso progresso. uma coisa que vi no chão e levei comigo caiu de novo e alguém me avisou, me entregou, “saúde” (obrigada). um retorno à dor que eu escondi malemá e contaminou o visível, mas deixei de me importar: por que aparece e emerge acima de tudo como se fosse membrana seletiva do meu ar? redoma de vidro, tá abafado faz muito tempo e meu grito estourou meu ouvido. ouço com os olhos pois sinto vazar os meios, inteiros, partes e recortes, rasgos, colagens que vou fazendo e vendo onde tudo leva. leva embora o sentimento tóxico, o atentado à realidade, à real idade da consciência que desabrocha após a dormência. ainda tenho hematomas presentes e eles me lembram do necessário: me mudo. por vezes, ainda muda, observando, deletadas as memórias de histórias onde minha voz também conduzia e construía. percebendo que tudo não passou de retalhos retirados das cobertas que se colocavam entre mim e o que tinha no escuro, olhos, palavras sussurradas na orelha se não estivessem tapados os ouvidos, respiração encostada na pele que se arrepia de qualquer jeito - os buracos que foram feitos denunciaram que tudo era só um espelho. o quão fundo afoguei as mãos pra trombar em qualquer solidez? nem filtrei a água salobra. meu palpite é de que foi raso: estive nas margens e das margens tive o relance do erro que é acerto e conserta, tenta e sabe que tudo conta mas arquiva as hipóteses por medo. (desculpa por ser eu mesma quem me afasta.) sentimento de ódio e rancor que mastiga e chupa os ossos do vivo-morto. não respira mesmo: um clube da luta onde são dados e recebidos socos, mas não o suficiente pra pararem de gritar “loucos!”. na minha cabeça retoma-se o ritmo da auto condenação até que me recordo de como as coisas realmente são. sombras na minha pele e na minha mente, essas últimas preenchem o vazio com o barulho do portão se abrindo, das rodas deslizando no piso. todo eco se amplifica através de todas as fitas que tenho gravado, mas sinto que finalmente desloquei minha peça um espaço no tabuleiro. escuto e absorvo, grata por quem sendo o que é se faz luz e me eleva também. perdoo, substituo o ponto pela vírgula.
(ela acha que eu quero distância e tenho nojo de todos os seus pungentes deslizes mas na verdade lamento por cê nunca ter me chamado pra fumar contigo. me envenena os pensamentos, atravessa minhas palavras com lâminas bem cuidadas que ferem sem enxergar. coisas pesam sobre o peito e me enterram onde me deito, ossos se quebram e perfuram o tecido sob eles.)
quinta-feira, 2 de março de 2017 [último texto desse tipo que fiz]
tem um abismo enorme entre onde eu to e onde eu queria estar. não consigo enxergar como isso que eu sou vai alcançar aquilo ali, tão distante. eu fico muito chateada por isso e quero me esconder, ficar invisível pra todas as pessoas do mundo porque tenho vergonha de mim. não olhe pra mim, dê um tempo até eu ser alguém que eu não desgoste tanto, por favor. eu sei que não adianta falar isso, reclamar, me sentir mal o tempo todo – nada vai mudar. eu sei que preciso esperar, ter paciência, viver no presente e entender que eu vou chegar lá quando eu tiver que chegar. que eu não sou outra pessoa e nunca vou ser, que tenho que me conformar com os limites da minha existência da forma que ela é, porque ninguém tem controle sobre isso, afinal. porque podia ser muito pior. é ridículo porque eu sempre trombo com isso, com essa mesma merda, sempre me repito e odeio me ouvir de novo e de novo. é idiota porque não consigo me mover, e só isso vai fazer alguma diferença. sério? desculpa.
acho interessante olhar pra coisas do passado e perceber que não sou mais aquela pessoa, não tenho mais os mesmos sentimentos ou pensamentos nem faria as coisas do mesmo jeito. anos atrás eu jamais preferiria escrever tudo com letra minúscula e até apoiava o he for she. coisa curiosa isso de crescer; rose quartz tinha razão em se fascinar com a capacidade de mudança dos humanos. (será que no futuro vou achar besta citar desenho animado?)


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